SENTIR E INTELIGIR O MISTÉRIO PASCAL NA CELEBRAÇÃO LITÚRGICA
14.02.2026 - 00:00:00 | 6 minutos de leitura

SENTIR E INTELIGIR O MISTÉRIO PASCAL NA CELEBRAÇÃO LITÚRGICA
Diácono Leonardo de Oliveira.
Nas celebrações litúrgicas, de forma ativa e profunda, a assembleia celebrante reverencia o Mistério Pascal de Cristo, que é a centralidade da fé cristã, através de sinais, símbolos, gestos e palavras que expressam a sua relação fecunda com Jesus Cristo, centro e fonte da liturgia (CIgC, n. 1145).
Após o encontro com o Senhor Ressuscitado, encontro que se impõe como realidade viva e transformadora, os discípulos tornam-se capazes de acolher uma nova forma de viver e compreender a própria existência. É sempre Cristo quem toma a iniciativa: depois de sua paixão e morte, Ele se revela aos seus, apresenta-se vivo no meio deles. O Ressuscitado se mostra, e essa manifestação provoca uma profunda mudança interior, um novo “tônus” espiritual que os arranca da perplexidade e os conduz à fé.
Os relatos evangélicos testemunham esse dinamismo. No caminho de Emaús (cf. Lc 24,13-35), os discípulos experimentam o coração ardendo enquanto o Senhor lhes abre as Escrituras; a compreensão nasce da presença que os acompanha. Maria Madalena, diante do túmulo vazio, procura entender o que aconteceu, até que o Senhor a chama pelo nome (cf. Jo 20,11-18), transformando sua busca em reconhecimento. Tomé, por sua vez, só depois de ver e tocar as chagas do Ressuscitado pode professar: “Meu Senhor e meu Deus” (cf. Jo 20,24-29).
Em todos esses encontros, a fé não surge de uma elaboração abstrata, mas de uma iniciativa do próprio Cristo, que se deixa ver, ouvir e tocar. A experiência do Ressuscitado inaugura, assim, uma nova compreensão da vida, das Escrituras e da própria identidade dos discípulos.
Compreendemos então, partindo destes textos bíblicos, o quão importante e necessário é sentir e inteligir o Senhor Ressuscitado. Sentir e apreender a realidade leva ao mesmo tempo a inteligir esta mesma realidade, a realidade me possui. Deste modo, o participante precisa ser impactado, precisa sentir algo a partir do encontro que seja capaz de transformar a sua vida. A experiência (sentido) me leva a querer conhecer mais, a aprofundar os conceitos, me coloca numa marcha para uma busca constante, uma busca que não tem fim, como a mulher do Cântico dos Cânticos: “Em meu leito, pela noite, procurei o amado do meu coração. Procurei-o e não o encontrei! Levantar-me-ei, rondarei pela cidade, pelas ruas, pelas praças, procurando o amado da minha alma” (Ct 3,1-2).
O âmbito religioso e, sobretudo litúrgico, é o lugar para se sentir e inteligir a presença de Deus. É aí que se dá o encontro com o Transcendente. O encontro com Deus na liturgia precisa munir-se de elementos sacramentais que proporcionem uma apreensão de realidade, fruto de uma impressão de realidade que retenha a pessoa e a remeta ao Transcendente (COSTA, 2017).
Por isso, faz-se necessário proporcionar meios para que todo povo tome e se sinta parte da celebração litúrgica e dela participe plena e ativamente, como tão enfatizado pelo Concílio Vaticano II (cf. SC, n. 14).
Infelizmente, essa participação foi mal compreendida e reduzida ao seu significado exterior: o da necessidade de um agir comum, como se se tratasse de fazer entrar em ação o maior número possível de pessoas, e com a maior frequência possível. A palavra “participação” remete a uma ação principal, na qual todos devem tomar parte. Mas, para se despertar uma plena, ativa e madura participação na liturgia, faz-se necessário perceber a riqueza e significação dos sinais, dos símbolos e ritos (cf. Ratzinger, 2015, n. 143).
O Catecismo da Igreja Católica nos afirma: “uma celebração sacramental é tecida de sinais e símbolos. Segundo a pedagogia divina da salvação, o significado dos sinais e dos símbolos tem raízes na obra da criação e na cultura humana, adquire exatidão nos eventos da Antiga Aliança e revela-se plenamente na pessoa e na obra de Cristo” (CigC, n. 1145). Portanto, o símbolo já nos faz entrar em uma dinâmica própria e não só nos informa, diferentemente do sinal, que não “é” o que significa, mas sim o que nos orienta. Ele próprio já “é”, de algum modo, a realidade que representa, introduzindo-nos em uma ordem de coisas a que ele mesmo já pertence. Os símbolos nos remetem, lançam, “atiram” para junto da ação salvífica, fazendo-nos participantes, “celebrantes”.
O estupor é parte essencial do ato litúrgico, porque é a atitude de quem sabe que se encontra diante da peculiaridade dos gestos simbólicos; é a maravilha de quem experimenta a força do símbolo, que não consiste em referir-se a um conceito abstrato, mas em conter e expressar na sua concretude o que ele significa. Estupor é “irrupção” do Mistério Pascal, como síntese de encarnação e redenção. Por isso, é preciso salvaguardar o estupor litúrgico das formas exteriores e interiores que tendem a dissolvê-lo em algo diferente de si mesmo. Isso implica, como conclusão do raciocínio, uma passagem muito importante, ou seja, aquela entre “estupor” e “símbolo” (cf. DD, n. 25-26).
Desta forma, na esteira do pensamento de Xavier Zubiri, percebemos que o ato de sentir e inteligir são inseparáveis, pois, segundo a inteligência senciente, no ser humano não ocorre oposição entre sentir e inteligir. Considerando que a apreensão primordial da realidade não é o momento do pensamento, mas da apreensão por meio da impressão do que se nos apresenta aos sentidos e à inteligência, podemos equiparar a celebração da fé, enquanto ato litúrgico, à apreensão de realidade, que parte e se funda na apreensão primordial de realidade (cf. ZUBIRI, 2002). Esse modo nos retém e remete ao logos, e este à razão, modalidades ulteriores de apreensão de realidade.
Celebrar é, portanto, um verdadeiro processo de apreensão da realidade. Tal processo enraíza-se numa apreensão primordial que nos conduz ao logos enquanto movimento, dinamismo interno da realidade que se dá a conhecer, e à razão como marcha contínua em busca da presença de Deus, que nos quer por inteiro.
Ao apreender a realidade e inteligir o que nela se manifesta, a pessoa é profundamente impactada. A experiência não permanece externa ou meramente conceitual; ela provoca, move, desperta. O estímulo recebido impele o sujeito a buscar cada vez mais intensamente aquela realidade que se deixou entrever. Há, assim, uma dinâmica de atração: aquilo que foi apreendido chama a um aprofundamento sempre maior.
Desse modo, não somos nós que simplesmente decidimos “pensar” a liturgia, como se ela fosse objeto neutro de análise. O pensamento, poder-se-ia dizer, procede das próprias coisas reais, pelo “ter de pensar” que elas nos impõem. É a realidade mesma que solicita a inteligência. Portanto, é a liturgia, em sua densidade própria, que nos faz pensar; é ela que ativa e mobiliza a razão, colocando-nos em movimento diante do mistério que nela se dá (cf. ZUBIRI, 2002).
SENTIR E INTELIGIR O MISTÉRIO PASCAL NA CELEBRAÇÃO LITÚRGICA
Diácono Leonardo de Oliveira.
Nas celebrações litúrgicas, de forma ativa e profunda, a assembleia celebrante reverencia o Mistério Pascal de Cristo, que é a centralidade da fé cristã, através de sinais, símbolos, gestos e palavras que expressam a sua relação fecunda com Jesus Cristo, centro e fonte da liturgia (CIgC, n. 1145).
Após o encontro com o Senhor Ressuscitado, encontro que se impõe como realidade viva e transformadora, os discípulos tornam-se capazes de acolher uma nova forma de viver e compreender a própria existência. É sempre Cristo quem toma a iniciativa: depois de sua paixão e morte, Ele se revela aos seus, apresenta-se vivo no meio deles. O Ressuscitado se mostra, e essa manifestação provoca uma profunda mudança interior, um novo “tônus” espiritual que os arranca da perplexidade e os conduz à fé.
Os relatos evangélicos testemunham esse dinamismo. No caminho de Emaús (cf. Lc 24,13-35), os discípulos experimentam o coração ardendo enquanto o Senhor lhes abre as Escrituras; a compreensão nasce da presença que os acompanha. Maria Madalena, diante do túmulo vazio, procura entender o que aconteceu, até que o Senhor a chama pelo nome (cf. Jo 20,11-18), transformando sua busca em reconhecimento. Tomé, por sua vez, só depois de ver e tocar as chagas do Ressuscitado pode professar: “Meu Senhor e meu Deus” (cf. Jo 20,24-29).
Em todos esses encontros, a fé não surge de uma elaboração abstrata, mas de uma iniciativa do próprio Cristo, que se deixa ver, ouvir e tocar. A experiência do Ressuscitado inaugura, assim, uma nova compreensão da vida, das Escrituras e da própria identidade dos discípulos.
Compreendemos então, partindo destes textos bíblicos, o quão importante e necessário é sentir e inteligir o Senhor Ressuscitado. Sentir e apreender a realidade leva ao mesmo tempo a inteligir esta mesma realidade, a realidade me possui. Deste modo, o participante precisa ser impactado, precisa sentir algo a partir do encontro que seja capaz de transformar a sua vida. A experiência (sentido) me leva a querer conhecer mais, a aprofundar os conceitos, me coloca numa marcha para uma busca constante, uma busca que não tem fim, como a mulher do Cântico dos Cânticos: “Em meu leito, pela noite, procurei o amado do meu coração. Procurei-o e não o encontrei! Levantar-me-ei, rondarei pela cidade, pelas ruas, pelas praças, procurando o amado da minha alma” (Ct 3,1-2).
O âmbito religioso e, sobretudo litúrgico, é o lugar para se sentir e inteligir a presença de Deus. É aí que se dá o encontro com o Transcendente. O encontro com Deus na liturgia precisa munir-se de elementos sacramentais que proporcionem uma apreensão de realidade, fruto de uma impressão de realidade que retenha a pessoa e a remeta ao Transcendente (COSTA, 2017).
Por isso, faz-se necessário proporcionar meios para que todo povo tome e se sinta parte da celebração litúrgica e dela participe plena e ativamente, como tão enfatizado pelo Concílio Vaticano II (cf. SC, n. 14).
Infelizmente, essa participação foi mal compreendida e reduzida ao seu significado exterior: o da necessidade de um agir comum, como se se tratasse de fazer entrar em ação o maior número possível de pessoas, e com a maior frequência possível. A palavra “participação” remete a uma ação principal, na qual todos devem tomar parte. Mas, para se despertar uma plena, ativa e madura participação na liturgia, faz-se necessário perceber a riqueza e significação dos sinais, dos símbolos e ritos (cf. Ratzinger, 2015, n. 143).
O Catecismo da Igreja Católica nos afirma: “uma celebração sacramental é tecida de sinais e símbolos. Segundo a pedagogia divina da salvação, o significado dos sinais e dos símbolos tem raízes na obra da criação e na cultura humana, adquire exatidão nos eventos da Antiga Aliança e revela-se plenamente na pessoa e na obra de Cristo” (CigC, n. 1145). Portanto, o símbolo já nos faz entrar em uma dinâmica própria e não só nos informa, diferentemente do sinal, que não “é” o que significa, mas sim o que nos orienta. Ele próprio já “é”, de algum modo, a realidade que representa, introduzindo-nos em uma ordem de coisas a que ele mesmo já pertence. Os símbolos nos remetem, lançam, “atiram” para junto da ação salvífica, fazendo-nos participantes, “celebrantes”.
O estupor é parte essencial do ato litúrgico, porque é a atitude de quem sabe que se encontra diante da peculiaridade dos gestos simbólicos; é a maravilha de quem experimenta a força do símbolo, que não consiste em referir-se a um conceito abstrato, mas em conter e expressar na sua concretude o que ele significa. Estupor é “irrupção” do Mistério Pascal, como síntese de encarnação e redenção. Por isso, é preciso salvaguardar o estupor litúrgico das formas exteriores e interiores que tendem a dissolvê-lo em algo diferente de si mesmo. Isso implica, como conclusão do raciocínio, uma passagem muito importante, ou seja, aquela entre “estupor” e “símbolo” (cf. DD, n. 25-26).
Desta forma, na esteira do pensamento de Xavier Zubiri, percebemos que o ato de sentir e inteligir são inseparáveis, pois, segundo a inteligência senciente, no ser humano não ocorre oposição entre sentir e inteligir. Considerando que a apreensão primordial da realidade não é o momento do pensamento, mas da apreensão por meio da impressão do que se nos apresenta aos sentidos e à inteligência, podemos equiparar a celebração da fé, enquanto ato litúrgico, à apreensão de realidade, que parte e se funda na apreensão primordial de realidade (cf. ZUBIRI, 2002). Esse modo nos retém e remete ao logos, e este à razão, modalidades ulteriores de apreensão de realidade.
Celebrar é, portanto, um verdadeiro processo de apreensão da realidade. Tal processo enraíza-se numa apreensão primordial que nos conduz ao logos enquanto movimento, dinamismo interno da realidade que se dá a conhecer, e à razão como marcha contínua em busca da presença de Deus, que nos quer por inteiro.
Ao apreender a realidade e inteligir o que nela se manifesta, a pessoa é profundamente impactada. A experiência não permanece externa ou meramente conceitual; ela provoca, move, desperta. O estímulo recebido impele o sujeito a buscar cada vez mais intensamente aquela realidade que se deixou entrever. Há, assim, uma dinâmica de atração: aquilo que foi apreendido chama a um aprofundamento sempre maior.
Desse modo, não somos nós que simplesmente decidimos “pensar” a liturgia, como se ela fosse objeto neutro de análise. O pensamento, poder-se-ia dizer, procede das próprias coisas reais, pelo “ter de pensar” que elas nos impõem. É a realidade mesma que solicita a inteligência. Portanto, é a liturgia, em sua densidade própria, que nos faz pensar; é ela que ativa e mobiliza a razão, colocando-nos em movimento diante do mistério que nela se dá (cf. ZUBIRI, 2002).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CONCÍLIO ECUMENICO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium
sobre a sagrada liturgia. São Paulo: Paulinas. 10ª edição, 2010.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Catecismo da Igreja
Católica. Edição Típica Vaticana. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
COSTA, Valeriano. Inteligência Senciente e liturgia. In: Revista de Cultura Teológica. Ano XXV nº 90, jul/dez 2017. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/rct.i90.35978/24763 Acessado em: 15/07/2024.
FRANCISCO. Desiderio Desideravi – Sobre a formação litúrgica do povo de Deus. São Paulo: Paulus. 1ª edição, 2022.
RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. Tradução: Silva Debetto C. Reis. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015.
ZUBIRI, Xavier. Inteligência senciente: inteligência e realidade. Trad. Florentino Rodao. São Paulo: Loyola, 2002.

