Participar não significa clericalizar os leigos
Participar é entrar no Mistério
12.08.2026 - 11:50:00 | 10 minutos de leitura

Pe. Washington Paranhos, SJ
A sexta catequese do Papa Leão XIV sobre a Sacrosanctum Concilium é dedicada ao ano litúrgico[1]. O Santo Padre apresenta o seu significado partindo de uma convicção fundamental da tradição católica: através do sucessivo decorrer dos tempos e das festas, a Igreja não contempla simplesmente a memória de acontecimentos distantes, mas permanece continuamente em contato com o mistério de Cristo e com a ação salvífica que dele deriva e continua a alcançar os crentes.
Retomando Pio XII e a encíclica Mediator Dei, Leão XIV recorda que o ano litúrgico é “o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja” e continua a colocar os homens em contato com os seus mistérios, “perenemente presentes e atuantes”. É dentro dessa perspectiva que se compreende o lugar do domingo, definido pelo Concílio como “fundamento e núcleo do ano litúrgico” e “dia de festa primordial”. Todas as semanas a Igreja regressa à Páscoa do Senhor e, partindo da Ressurreição, orienta o seu caminho para o dia definitivo da sua vinda.
Precisamente ao falar do domingo, o Papa introduz uma passagem que merece particular atenção porque ilumina um dos conceitos mais utilizados na recepção da reforma litúrgica: a participação ativa dos fiéis.
Leão XIV recorda que, para santificar o domingo, é fundamental celebrar a Eucaristia, e que a escuta da Palavra e a participação no Corpo de Cristo comportam o convenire in unum – a festiva convocação da comunidade. Na assembleia reunida, torna-se visível a pertença a Cristo e manifesta-se concretamente a comunhão eclesial. Por essa razão, o Papa afirma que tal assembleia não pode ser substituída por uma presença apenas virtual, tampouco reduzir-se a uma reunião meramente passiva. Ela encontra a sua verdade na participação ativa dos irmãos e irmãs convocados para juntos darem graças a Deus.
É importante observar onde Leão XIV localiza a participação ativa: ele a coloca dentro da convocação eclesial. O fiel responde ao chamamento do Senhor, entra na assembleia e toma parte no mistério pascal celebrado pela Igreja. A participação nasce, portanto, do fato de estar realmente inserido na ação litúrgica, e não da atribuição de uma função particular a desempenhar durante o rito.
Essa precisão permite enfrentar com maior equilíbrio uma deformação que acompanhou parte da recepção pós-conciliar. No desejo – certamente justo – de superar uma presença puramente exterior à celebração, difundiu-se progressivamente a ideia de que a participação devia manifestar-se, sobretudo, através de algo a ser feito. O envolvimento do fiel foi, assim, associado com crescente frequência ao desempenho de um serviço litúrgico, a ponto de criar, por vezes, a impressão de que quem exerce uma função visível participa de modo mais pleno do que quem entra no mistério sem receber qualquer encargo.
Os serviços confiados aos leigos possuem sua devida legitimidade e servem à celebração quando exercidos segundo o que a Igreja estabelece. A dificuldade surge quando o serviço se torna a medida da participação, pois nesse momento insinua-se a ideia de que a valorização do fiel depende da sua proximidade com as funções desempenhadas ao redor do altar.
É aqui que emerge um dos paradoxos da pastoral litúrgica das últimas décadas: na tentativa de combater o clericalismo, acabou-se, por vezes, adotando inconscientemente um critério clerical, segundo o qual o que possui maior dignidade na Igreja seria aquilo que ocorre no presbitério. O leigo passa a ser valorizado mediante a assunção de tarefas litúrgicas, como se a dignidade recebida no Batismo precisasse ser completada por uma progressiva assimilação às funções do ministro ordenado.
A consequência é o empobrecimento da própria vocação laical. A tradição católica nunca precisou transformar o leigo em uma espécie de “sacerdote incompleto” para reconhecer sua plena pertença à Igreja. O Batismo insere-o realmente no Corpo de Cristo e o torna participante do sacerdócio comum dos fiéis. O sacramento da Ordem, por sua vez, configura alguns batizados a Cristo Cabeça para o serviço ministerial que lhes é confiado na comunidade eclesial. Essa distinção não estabelece uma hierarquia de dignidade nem cria cristãos de categorias diferentes; expressa, sim, a forma sacramental através da qual o único Corpo vive a sua comunhão.
A Sacrosanctum Concilium permite compreender melhor essa realidade quando pede que os fiéis não assistam à celebração como estranhos ou mudos espectadores. O Concílio deseja que eles compreendam o mistério por meio dos ritos e orações e entrem conscientemente na ação sagrada, até aprenderem a oferecer a si mesmos juntamente com Cristo.
Aqui se encontra o significado mais profundo da participação ativa: participar significa deixar que a oferenda de Cristo alcance a própria existência e a assuma. A vida concreta do fiel entra na Eucaristia e, por meio dela, é reconduzida ao Pai. O trabalho, os afetos, as responsabilidades cotidianas e até mesmo o sofrimento podem, assim, tornar-se matéria de uma oferenda espiritual unida ao sacrifício do Senhor.
A catequese anterior de Leão XIV sobre a Eucaristia já havia aberto essa perspectiva, recordando que toda a assembleia participa da oferenda eucarística por meio do ministério do sacerdote e unindo-se a ela. O ministro ordenado preside segundo a graça recebida na Ordem, enquanto os fiéis participam segundo a graça do Batismo. A distinção permanece clara precisamente porque ambos recebem de Cristo a forma da sua própria participação.
Daí deriva também uma consequência importante para a celebração: o movimento exterior, por si só, nada diz sobre a profundidade com que uma pessoa participa do mistério. Pode-se desempenhar corretamente um serviço e permanecer interiormente distraído; pode-se permanecer em seu próprio lugar e viver com grande intensidade a escuta da Palavra e a oferenda eucarística. A participação exige, sem dúvida, a presença concreta do corpo, a resposta da assembleia e os gestos previstos pelo rito, mas atinge a sua verdade quando tudo isso expressa uma real adesão interior à ação de Cristo.
Pela mesma razão, o silêncio litúrgico não representa uma pausa na participação. É um dos espaços nos quais a Palavra proclamada e o mistério celebrado podem ser interiorizados. Quando se presume que uma assembleia só está ativa enquanto alguém fala ou realiza algo, o silêncio é percebido como um vazio a ser preenchido, e a celebração arrisca-se a ser sobrecarregada com explicações destinadas a manter a atenção continuamente desperta. Nesse ponto, o rito, em vez de educar o fiel, passa a ser continuamente interrompido para ser explicado.
O problema atinge também o modo de compreender o ministério do sacerdote. O presidente da celebração não é chamado a assumir o papel de um animador que deve produzir engajamento constante. A sua tarefa nasce do sacramento da Ordem e consiste em servir à ação litúrgica da Igreja, permitindo que o rito recebido expresse com clareza o mistério que celebra. Quanto mais a personalidade do ministro dá espaço à ação de Cristo, tanto mais a assembleia é ajudada a reconhecer quem é o verdadeiro protagonista da liturgia.
A catequese de Leão XIV não contém uma condenação explícita da clericalização dos leigos, e seria incorreto atribuir ao Papa afirmações que ele não pronunciou. Suas palavras oferecem, contudo, um critério teológico muito claro: ao ligar a participação ativa ao convenire in unum e à ação de graças da assembleia, ele reconduz toda a questão à iniciativa de Cristo, que convoca o seu povo e o associa à sua Páscoa.
Essa perspectiva ganha ainda maior significado quando se lê a conclusão da catequese. Leão XIV afirma que o ano litúrgico “constitui o princípio inspirador e o quadro de referência essencial de toda a ação pastoral”. Tal afirmação estabelece uma relação precisa entre liturgia e pastoral: é a vida pastoral da Igreja que deve receber da liturgia a sua própria forma.
Uma parte das dificuldades surgidas na recepção da reforma litúrgica pode ser compreendida precisamente a partir da inversão dessa relação. Em vez de deixar que o rito formasse progressivamente a comunidade, buscou-se por vezes adaptar o rito às exigências que a pastoral considerava necessárias para engajá-la. A participação ativa foi assim traduzida para a linguagem da organização, como se a celebração se tornasse mais participativa simplesmente ao aumentar o número de pessoas envolvidas na sua execução.
As palavras do Papa convidam a recuperar uma ordem diferente. A liturgia não precisa, antes de tudo, ser tornada viva pela comunidade, porque ela recebe sua própria vida de Cristo. É a comunidade que precisa ser formada pela liturgia, aprendendo gradualmente a entrar nos seus ritmos e na sua linguagem.
Essa inversão de perspectiva modifica profundamente também a questão pastoral. O problema já não consiste em perguntar quantas pessoas conseguimos envolver por meio de uma função, mas sim o quanto somos capazes de introduzir o povo cristão no mistério que a Igreja celebra.
O domingo mostra concretamente essa prioridade. O fiel responde a uma convocação que o precede e reúne-se com os outros crentes em torno da Eucaristia. A Igreja não nasce porque algumas pessoas decidem espontaneamente estar juntas, mas porque é o Senhor ressuscitado quem reúne o seu povo no dia da sua Páscoa. O convenire in unum torna-se, assim, a manifestação visível de uma pertença recebida antes mesmo de ser organizada.
Dessa celebração, o leigo regressa à sua vida sem precisar levar consigo uma função sacerdotal. A Eucaristia o forma para que possa viver como cristão na realidade cotidiana, fazendo da sua existência uma oferenda agradável a Deus. É aqui que o sacerdócio batismal manifesta toda a sua fecundidade e a vocação laical reencontra a sua grandeza.
A sexta catequese sobre a Sacrosanctum Concilium nos ajuda, portanto, a libertar a participação ativa de um equívoco que frequentemente a acompanhou. Participar não significa estar continuamente ocupado dentro do rito e não exige que o leigo assuma características próprias do ministro ordenado. Significa entrar conscientemente na ação litúrgica da Igreja e permitir que o mistério de Cristo dê forma à própria vida.
Talvez seja precisamente esta a verificação pastoral mais útil que podemos colher das palavras de Leão XIV. Depois de tantos anos dedicados a nos perguntar como fazer os fiéis participarem mais, podemos finalmente retornar a uma pergunta mais radical: estamos formando comunidades capazes de se deixarem transformar pela liturgia?
É aqui que a participação ativa encontra a sua verdade, porque o centro já não é o que conseguimos fazer a assembleia realizar, mas sim o que Cristo realiza na sua Igreja e na vida daqueles que se deixam realmente envolver pelo seu mistério.
[1] Leão XIV, Papa. Audiência Geral. Catequese. Os Documentos do Concílio Vaticano II III. Constituição Sacrosanctum Concilium 6. O ano litúrgico. Em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20260812-udienza-generale.html. Acesso em 12 de ago. 2026.
A Oração Litúrgica revela, celebra e transmite a Doutrina da FéMais do que acumular reflexões, métodos e propostas é necessário recuperar o fundamento da oraç…
A música não deve animar a missa: deve servir à liturgiaO princípio fundante de toda a catequese é rigoroso: a música pertence à ação litúrgica e del…