O culto ao Sagrado Coração de Jesus
No centro de todas as celebrações litúrgicas da Igreja, está o Mistério Pascal de Jesus, sua vida, paixão, morte, ressurreição, ascensão, tendo sua plenitude no envio do Espírito Santo em Pentecostes.
10.06.2026 - 09:42:00 | 13 minutos de leitura

No centro de todas as celebrações litúrgicas da Igreja, está o Mistério Pascal de Jesus, sua vida, paixão, morte, ressurreição, ascensão, tendo sua plenitude no envio do Espírito Santo em Pentecostes. No centro do Mistério de sua morte está seu amor, seu coração, que é a porta que abre do alto da cruz ao ser transpassado pela lança, para adentrarmos ao eterno.
Na espiritualidade ligada ao Sagrado Coração de Jesus, o amor constitui não apenas um atributo marcante, mas o princípio estruturante dessa devoção. O simbolismo do Coração de Jesus remete à união hipostática, ou seja, à coexistência das naturezas humana e divina na única pessoa do Verbo encarnado. Tal união permite distinguir dois modos de amar em Cristo: o amor humano, derivado de sua vontade enquanto verdadeiro homem, e o amor divino, intrínseco à sua natureza divina e compartilhado consubstancialmente pelas três Pessoas da Santíssima Trindade.
Embora a devoção ao Sagrado Coração de Jesus tenha fundamentos nas fontes da Revelação, tais como: Sagrada Escritura e Tradição, nota-se no desenrolar da história que, o “culto tributado ao amor de Deus e de Jesus Cristo, através do símbolo do Coração transfixado do Redentor nunca esteve completamente ausente da piedade dos fiéis” (HA, nº 56). De diversas maneiras, “o Coração de Cristo esteve presente na história da espiritualidade cristã. Na Sagrada Escritura e nos primeiros séculos da Igreja, aparece sob a figura do lado ferido do Senhor, quer como fonte de graça, quer como apelo a um encontro íntimo de amor”. Gradualmente, esta devoção, foi se difundindo de modo público entre o povo cristão, por intermédio de muitos santos, até nossos tempos, e obteve a aprovação oficial da Igreja, tomando forma de um verdadeiro culto ao Coração do Senhor (cf. FRANCISCO, 2024, nº 78). Nos Padres da Igreja, iluminados pelo evangelho joanino (por exemplo, Jo, 7, 37; 19, 34), encontramos as primeiras manifestações de um culto ao Sagrado Coração de Jesus. Também alguns teólogos da Idade Média, isoladamente já no século XII (Anselmo de Cantuária, Bernardo de Claraval), mas sobretudo no século XIII (como por exemplo, Alberto Magno, Boaventura), inspirados nos Padres da Igreja, também promovem com afinco o culto “ao coração de Cristo crucificado, transpassado pela lança” (cf. ADAM, 2019, p. 127; AUGÉ, 2019, p. 270).
Foi notadamente a corrente mística dos séculos XIII e XIV que deu grande impulso a esta devoção, e assim, “organizando-se distintamente da paixão, e no lugar do crucificado, entrou a iconografia do coração destacado da pessoa de Cristo, ou então, visível no peito aberto” (AUGÉ, 2019, p. 270), através de personalidades marcantes, como Santa Matilde de Magdeburgo (1207-1282), Santa Gertrudes de Helfta (1256-1302), e Beato Henrique Suso (1295-1366). Posteriormente, a “Devotio moderna” (devoção moderna) e, no século XVI, a Companhia de Jesus se ocupou de modo particular com a propagação do culto ao Coração de Jesus.
No século XVII, a “devoção ao Coração de Cristo transcendeu gradualmente a vida monástica e encheu a espiritualidade de santos mestres, pregadores e fundadores de congregações religiosas que se difundiram nas regiões mais remotas da terra” (FRANCISCO, 2024, nº 112). Por intermédio do oratoriano São João Eudes (1601-1680), em 20 de outubro de 1672, foi celebrado o primeiro ofício litúrgico, composto por ele e aprovado pelo arcebispo de Ruão, por diversos bispos franceses e pelo papa Clemente X, em 1674, sendo essa a primeira vez que Roma reconheceria a devoção já popular ao Coração de Jesus (cf. CARDOSO, 1989, p. 24). Entre 1673 e 1675, a visitandina do Mosteiro de Paray-le-Monial, Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690) teve diversas visões “nas quais Cristo lhe ordenou que ela envidasse todo o esforço em favor da introdução de uma festa do Coração de Jesus na sexta-feira imediata à oitava do Corpo de Deus e da prática das nove primeiras sextas-feiras do mês em honra do Coração de Jesus, bem como a Hora Santa” (ADAM, 2019, p.128).
A tentativa de introduzir a nova devoção na liturgia encontrou grandes resistências em Roma, por quase 100 anos, sobretudo de natureza teológica (cf. AUGÉ, 2019, p. 270). Por decreto de 25 de janeiro de 1765, aprovado pelo papa Clemente XIII, a 6 de fevereiro do mesmo ano, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu aos bispos poloneses e a arquiconfraria romana do Sagrado Coração a faculdade de celebrar a dita festa litúrgica (PIO XII, nº 53). Os textos litúrgicos aprovados, inspirados no livro Memorial, de autoria do padre Gallifet, foram compostos por monsenhor Bruzzi e o padre Calvi, jesuíta, não deixam explicito o caráter reparador (cf. CARDOSO, 1989, p. 27).
Importante ressaltar que para aprovação do culto ao Sagrado Coração de Jesus, a Igreja não se fundamentou nas revelações particulares dos santos, mesmo que, como vimos anteriormente, “essa devoção tomou forte impulso depois que o próprio Senhor revelou o mistério divino do seu Coração à Santa Margarida Maria Alacoque. Constatamos isso ao verificar que a aprovação da festa litúrgica pela Sé Apostólica é anterior a aprovação dos escritos de Santa Margarida Maria” (PIO XII, nº 51-53).
Passados um século desta primeira aprovação, dada em forma de privilégio e limitadamente, atendendo ao pedido dos bispos da França e de muitos outros países, por decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, de 23 de agosto de 1856, aprovado por Pio IX, a festa do Coração Sacratíssimo de Jesus foi estendida para a toda a Igreja, a ser celebrada obrigatoriamente, fixando-a na terceira sexta-feira depois de Pentecostes (cf. AUGÉ, 2019, p. 270). Este fato merece ser recomendado à lembrança de todos os fiéis, pois, como vemos escrito na própria liturgia da festa, “desde então, o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus, semelhante a um rio que transborda superou todos os obstáculos e difundiu-se pelo mundo todo” (PIO XII, nº 54).
Estas aprovações serviram de grande estímulo para reflorescimento das arquiconfrarias, confrarias e outras associações de piedade e apostolado, fundamentadas nessa espiritualidade (cf. CARDOSO, 1989, p. 29).
Dentre as associações, vale ressaltar o Apostolado da Oração, fundado em 03 de dezembro de 1844 pelo jesuíta, padre Francisco Xavier Gautrelet, no seminário da Companhia de Jesus em Vals – França - que exortou aos estudantes seminaristas, animados de zelo pelas missões, como as orações e sacrifícios poderiam levar o preciosíssimo auxílio àqueles que trabalhavam na vinha do Senhor e sugeriu uma organização para difusão dessas intenções, dando o nome de “Apostolado da Oração”. Em 1849, o Bispo de Le Puy, indo a Roma, apresenta ao Papa Pio IX o novo movimento que surgiu em Valls. Impressionado, o Papa, de imediato aprova o movimento sem nenhuma objeção. Em 1880, o Papa Leão XIII pediu ao Apostolado da Oração que rezasse por suas intenções e, posteriormente, para cuidar da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que é na verdade estar atentos aos sentimentos mais profundos do coração de Cristo para com a humanidade e querer viver como ele viveu. A partir daí surgiram as três atitudes que são: oferecimento do dia ao Coração de Jesus, rezar pelas intenções do Papa e avaliação diária de vida. Essas práticas não caracterizavam uma simples devoção, mas vivência de amor, de reparação, de consagração à causa da fé (Manual do Coração de Jesus, 2019, p. 9-10).
Com o decreto de 28 de junho de 1889, o papa Leão XIII, elevou a festa a rito de “primeira classe”, e em sua encíclica Annum Sacrum, de 25 de maio de 1899, ordenava que todo o gênero humano fosse consagrado ao Sacratíssimo Coração de Jesus, com fórmula própria de sua autoria. A liturgia da festa do Coração de Jesus, pela encíclica Miserentissimus Redemptor, de 25 de maio de 1928, do Papa Pio XI, foi elevada ao grau de “dupla classe com oitava”, e ordenava que se recitasse em todas as igrejas o ato de reparação ao Coração de Jesus (cf. AUGÉ, 2019, p. 270).
A Liturgia das horas e a missa do Sagrado Coração de Jesus, desde a sua primeira autorização, sofreu várias revisões. O formulário Cogitatiónes, promulgado em 1929, por Pio XI, dava novo conteúdo aos textos litúrgicos desta missa, e esteve em vigor até 1968 (AUGÉ, 2019, p. 271). O breviário romano e o missal, revisados de acordo com as reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), como uma das respostas pretendidas para a atuação da reforma litúrgica pós-conciliar, constituem a etapa final da elaboração da liturgia desta solenidade (cf. RYAN, 1995, p. 106).
Este missal, foi promulgado em sua edição típica após sete anos da promulgação da Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, no ano de 1970, por autorização do Papa Paulo VI, seguindo o princípio de favorecer uma maior participação da assembleia na ação litúrgica (cf. MACIEL, 2023, p. 25).
Em 1975, foi publicada a segunda edição do missal de 1970, com o objetivo de adaptá-lo ao novo ordenamento dos ministérios, uma vez que o Papa Paulo VI havia reformado as Ordens Menores e criado os Ministérios Instituídos. Já a terceira edição típica, atualmente em vigência, foi aprovada no ano 2000 pelo Papa João Paulo II, sendo publicada em latim, no ano de 2002, em acordo com as novas disposições do Código de Direito Canônico de 1983. Em língua portuguesa e para o Brasil, a terceira edição típica teve a sua publicação pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em 2023, após 19 anos de trabalho da Comissão Episcopal para a Liturgia e da Comissão Episcopal para os Textos Litúrgicos (CETEL) (cf. MACIEL, 2023, p. 28-29) passando a ser de uso obrigatório para todas as comunidades do Brasil em 03 de dezembro de 2023, primeiro domingo do Advento.
Os textos da missa da solenidade do Sagrado Coração de Jesus na terceira edição típica do missal, são em parte aqueles mesmos que abade beneditino H. Quentuin compilou em 1928 por ordem e colaboração pessoal do Papa Pio XI, que o promulgou no ano seguinte. Os antigos formulários eram caracterizados, de modo particular, pela paixão de Cristo pela mística do Cântico dos Cânticos. A oração sobre as oferendas, Pio XI evidência a ideia de reparação (cf. ADAM, 2019, p. 129). A segunda opção da Coleta que encontramos na terceira edição típica do missal romano, também evidência a necessidade de reparação.
No formulário da missa na solenidade do Sagrado Coração de Jesus na terceira edição do Missal Romano, nota-se a presença de duas coletas e o texto reelaborado da oração depois da comunhão. Fala-se de reparação e expiação dos pecados, conceitos advindos do ambiente devocional em que nasceu essa solenidade. A nova coleta indica como objeto da celebração as grandes obras do amor do Filho de Deus pela humanidade (cf. AUGÉ, 2019, p. 271).
A segunda opção da coleta, corresponde a do missal de 1929, que os reformadores acharam oportuno mantê-la. Apesar de um texto mais denso, há um conteúdo rico e cheio de ternura, na qual as traduções buscaram oferecer versões piedosas, enfatizando a necessidade de responder com amor, piedade, fé e total dedicação Àquele que tanto nos amou e continua a nos amar e assim, prestar-lhe digna reparação (cf. URTASUN, 1995, p. 355-358, tradução nossa).
A oração sobre as oferendas do formulário da missa na solenidade do Sagrado Coração de Jesus na terceira edição do Missal Romano, também tirada do formulário de 1929, expressa ideia de reparação (cf. ADAM, 2019, p. 129). Nesta oração são acentuados os aspectos desta festa: o amor inefável do Filho amado do Pai para conosco; a necessidade de responder a ele com a nossa entrega, manifestada na nossa oferta do altar; a urgência de reparação pelos nossos pecados. A anamnese da obra salvífica relata o infinito e divino amor do Coração de Jesus que se faz presente no altar; nossa oblação se tornará um sacrifício de Cristo, pois o Espírito Santo, por meio do sacerdote, fará daquele pão e vinho, o Corpo e Sangue de Jesus. Por isso, a Igreja diz: “olhai para o inefável amor do Coração do vosso amado Filho” (cf. URTASUN, 1995, p. 362, tradução nossa).
Na oração após a comunhão desta solenidade, nota-se dois pedidos: o primeiro se torna trinitário, pois pedimos que esta Eucaristia, chamada de sacramento do amor, nos faça inflamar de santo amor; o redator impele a cada comungante, inflamado pelas “brasas ardentes da Eucaristia”, como disse São João Crisóstomo, se torne uma chama viva de amor. Amar como Jesus Cristo: ao extremo. É por isso que a petição que apela ao amor implorou: amor santo, pois um amor altruísta, heroico é humanamente impossível. Ao olhar o segundo pedido, recordamos que antes de Jesus, era possível amar a Deus e odiar o próximo. Em Jesus, o amor a Deus e ao próximo são inseparáveis. É isso que pedimos, que ao ter contato com o próximo, enxerguemos o rosto de Jesus (URTASUN, 1995, p. 366, tradução nossa).
O prefácio do Sagrado Coração de Jesus se distingue por sua particular proximidade com a Sagrada Escritura e com a teologia patrística (cf. ADAM, 2019, p. 129). Neste prefácio, encontramos claramente o Mistério Pascal de Cristo, ao reunir várias ideias: o calvário, o costado transpassado e o coração aberto, e celebra o amor de Cristo que não cessa de arder por amor da humanidade, fazendo assim, ressoar novamente a proclamação da Páscoa: Tirareis água com gozo nas fontes da salvação (cf. RYAN, 1995, p. 113-114).
Diácono Leonardo de Oliveira
Arquidiocese de São Paulo
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ADAM, Adolf. O ano litúrgico: Sua história e seu significado segundo a renovação litúrgica. Tradução de Mateus Ramalho Rocha. São Paulo: Loyola, 2019.
AUGÉ, Matias. Ano litúrgico: É o próprio Cristo presente na sua Igreja. Tradução de Geraldo Lopes. São Paulo: Paulinas, 2019.
CARDOSO, Armando Eugênio. Evolução histórica da espiritualidade do Sagrado Coração nos ensinamentos da Igreja. In: Um coração novo para um mundo novo. São Paulo: Loyola, 1989.
FRANCISCO. Carta Encíclica Dilexit nos sobre o amor Humano e Divino do Coração de Jesus (2024). São Paulo: Loyola, 2024.
MACIEL, Rafhael Silva. A história do Missal Romano: Um livro litúrgico para a celebração do Mistério. Ars Celebrandi – Revista de Liturgia, Curitiba: v.1, n.2,
p. 9-34, jul./dez. 2023. Disponível em:
https://fasbam.edu.br/pesquisa/periodicos/index.php/arscelebrandi/article/dow nload/527/266/575. Acesso em: 10 dez. 2024.
MANUAL DO CORAÇÃO DE JESUS. 94ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 2019.
PIO XII. Carta Encíclica Haurietis Aquas sobre o Culto do Sagrado Coração de Jesus (1956). São Paulo: Loyola, 2006.
RYAN, Vicent. Páscoa e festas do Senhor. Tradução de Honório Dalbosco. São Paulo: Paulus, 1995.
URTASUN, C., Las oraciones del misal: Escuela de espiritualidad de la Iglesia – Domingos y Solemnidades. Barcelona: Centre de Pastoral Litúrgica, 1995, (Biblioteca litúrgica 5).
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