O Coração da Liturgia - Por Cristo, com Cristo, em Cristo
Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre, reúne em si a história e a conduz à sua plenitude. Assim, cada celebração torna-se encontro com o Senhor que veio, que permanece presente e atuante entre nós e que virá em sua glória. No hoje da Liturgia, a Igreja celebra a salvação recebida, vive a comunhão com Cristo e antecipa, na esperança, o dia em que Deus será tudo em todos (SC 8). Educar o olhar e o coração para esse mistério é aprender a reconhecer que, na Liturgia, Cristo não é apenas recordado: Ele nos reúne, age em nós e nos conduz à plenitude da vida em Deus.
14.10.2026 - 18:24:00 | 15 minutos de leitura
Frei Luis Felipe Marques, OFMConv.*
A Liturgia, ao tornar presente o mistério da nossa Redenção, edifica a Igreja pela presença de Cristo, mediante um dinamismo sacramental, ritual, temporal e simbólico (SC 2). Nela, toda a história da salvação se torna presente e atuante, pois Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8), aquele que é, que era e que vem (Ap 1,8).
É a permanência do mistério de Cristo, vivo e atuante na Igreja, que torna presente, no hoje de cada celebração e na realização de cada rito, a salvação realizada “naquele tempo”. Assim, a Liturgia não apenas recorda os acontecimentos da história da salvação, mas nos permite participar de sua eficácia salvífica no tempo presente.
Partindo do número 7 da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, coração da compreensão teológica da Liturgia no Concílio Vaticano II, proponho uma breve reflexão sobre alguns elementos rituais e simbólicos que nos ajudam a aprofundar e reconhecer a riqueza do mistério da presença de Cristo na ação litúrgica.
Presente nas ações litúrgicas
Nas ações litúrgicas e rituais, Cristo se faz presente de diferentes modos: nas espécies eucarísticas, na pessoa do ministro, na Palavra proclamada, no dinamismo dos sacramentos e na assembleia reunida (SC 7). Essa diversidade de modos de presença nos ajuda a compreender que toda a ação litúrgica está centrada em Cristo, que reúne seu povo, o santifica e o introduz no mistério da salvação. Por ser obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo, que é a Igreja, a Liturgia ocupa um lugar único na vida e na missão eclesial. Sua eficácia supera a de qualquer outra ação da Igreja, pois nela Cristo continua a realizar a obra da nossa salvação (SC 7).
O rito celebrado, e não simplesmente o livro ritual ou a observância das rubricas, é o rito assumido e transformado em ação pela celebração da Igreja (Grillo, 2017, p. 47). O rito litúrgico, portanto, não visa tornar mais difícil a relação entre Cristo e o cotidiano, mas ser o elemento unificador entre esses dois polos, na comunhão entre o “uma vez por todas” e o “aqui e agora”. A ação ritual transforma o cotidiano, distinguindo-o e salvando-o do banal (Grillo, 2017, p. 51). É nessa ação celebrativa que a Igreja é reconduzida à sua fonte e ao seu ápice (SC 10). Por isso, a plena e ativa participação de todo o povo na Liturgia constitui a primeira e necessária fonte da qual os fiéis devem beber o espírito genuinamente cristão (SC 14).
Essa afirmação é muito significativa, pois não apresenta a Liturgia como uma fonte automática do espírito cristão, à maneira de um poço ou reservatório do qual basta retirar água. Não basta afirmar que a Liturgia é fonte; é necessário reconhecer que essa fonte se torna fecunda na participação plena e ativa dos fiéis. A participação, portanto, não deve ser entendida apenas como uma norma a cumprir ou como algo exterior à celebração, mas como parte fundamental da própria ação litúrgica. É participando plenamente do rito celebrado que os fiéis são introduzidos no mistério de Cristo, alimentam sua vida cristã e testemunham a presença atuante do Senhor (Pereira, 2013, p. 4-7; Cardita, 2018, p. 51-52).
Presente nos ministérios e serviços litúrgicos
A compreensão da presença ampla e dinâmica de Cristo nas ações litúrgicas nos permite aprofundar a relação entre essa presença e os diversos ministérios exercidos na celebração. O ministro que preside, o leitor que proclama as Escrituras, o salmista que conduz a resposta orante da assembleia, os cantores e instrumentistas que servem ao canto litúrgico, os acólitos e coroinhas que auxiliam no desenvolvimento da ação ritual, os ministros extraordinários da Sagrada Comunhão e aqueles que exercem o serviço da acolhida participam, cada qual segundo sua função, da edificação do Corpo de Cristo.
Esses serviços não devem ser compreendidos como tarefas meramente práticas ou funções isoladas, mas como expressões da diversidade de dons e ministérios por meio dos quais a Igreja realiza sua vocação e manifesta sua unidade. Quando exercidos em conformidade com a natureza da Liturgia e em comunhão com a Igreja, esses ministérios e serviços contribuem para revelar o mistério de Cristo e favorecer a participação da assembleia na ação celebrativa.
O ministério litúrgico encontra, assim, seu sentido mais profundo não na valorização individual de quem o exerce, mas no serviço ao mistério celebrado e à participação de todo o povo de Deus. Cada ministério, com sua identidade e finalidade próprias, contribui para que a celebração manifeste a Igreja como Corpo de Cristo, na diversidade de seus membros e na unidade de sua missão (SC 26).
Presente no espaço ritual
A presença de Cristo também ilumina a compreensão do espaço litúrgico e dos elementos que o constituem. A igreja, edifício destinado a acolher uma assembleia, não é apenas um ambiente funcional no qual se distribuem os objetos necessários à realização dos ritos. Sua organização, seus lugares e seus sinais fazem parte da linguagem simbólica da Liturgia e favorecem a compreensão do mistério celebrado.
O altar, centro da ação eucarística, remete a Cristo e à sua entrega pascal; a cadeira da presidência manifesta a função daquele que preside a assembleia em nome de Cristo e a serviço da Igreja; o ambão é o lugar próprio da proclamação da Palavra de Deus, na qual Cristo fala ao seu povo; e a cruz recorda o mistério pascal, centro da fé cristã.
O círio pascal é sinal litúrgico de Cristo ressuscitado, luz do mundo; a fonte batismal remete ao Batismo, pelo qual somos incorporados a Cristo e renascemos para uma vida nova. Até mesmo a porta da igreja pode ser contemplada, numa perspectiva mistagógica, como sinal de acolhida e passagem, relacionada à entrada na comunidade e ao caminho da iniciação cristã.
Cada elemento possui sua identidade, sua função e seu significado, não devendo ser interpretado isoladamente nem multiplicado ou duplicado indistintamente. É um altar, uma só cruz, um ambão, uma cadeira da presidência, uma fonte batismal, um círio pascal e uma porta. A unidade do espaço celebrativo manifesta-se na relação entre esses elementos, ordenados à ação litúrgica e à participação da assembleia. Por isso, sua disposição não é indiferente: ela expressa uma compreensão teológica da celebração e favorece a percepção da unidade do mistério celebrado.
Todo edifício litúrgico é uma imagem viva, moldada pela própria Liturgia. É símbolo, portador de uma linguagem catequética e de um caráter mistagógico, que nos introduz no mistério celebrado e nos ajuda a reconhecer a presença de Cristo. Sua beleza, expressão do esplendor da verdade, deve estar em harmonia com a sobriedade e a simplicidade, de modo que o espaço favoreça o encontro com Deus e a participação no mistério (CNBB, 2025, p. 154).
Presente no tempo
A Liturgia não se limita a recordar acontecimentos passados, como se fossem realidades distantes e encerradas em seu próprio tempo. Nela, a Igreja celebra sacramentalmente a obra salvífica de Deus e participa de sua eficácia, porque o mistério pascal de Cristo, realizado uma vez por todas, permanece como centro e fundamento de toda a história da salvação.
Desde a criação, passando pela promessa, pelo anúncio dos profetas, pela encarnação do Verbo, pela cruz e pela ressurreição, até a consumação escatológica, toda a história encontra em Cristo seu centro e sua plenitude (SC 5). Na ação litúrgica, essa história não é apenas recordada, mas celebrada na unidade do desígnio salvífico de Deus, que se manifesta, se comunica e nos conduz à plenitude da vida em Cristo.
Assim, em cada celebração, tornamo-nos contemporâneos do mistério celebrado. Isso não significa que os acontecimentos históricos se repitam ou que a sucessão do tempo desapareça, mas que, pela ação do Espírito Santo e pelos sinais sacramentais, participamos realmente da ação redentora de Cristo. No hoje litúrgico, a memória das maravilhas realizadas por Deus, a participação presente em sua ação e a antecipação da glória futura se unem. Desse modo, o passado não se reduz a uma lembrança distante, o presente se abre à ação de Deus e o futuro se torna esperança viva.
A Igreja celebra aquilo que Deus realizou, acolhe aquilo que ele continua a realizar e espera aquilo que levará à plenitude no fim dos tempos. Assim, passado, presente e futuro, sem perder suas características próprias, convergem na celebração do mistério de Cristo. O tempo litúrgico não elimina o tempo histórico, mas o abre à eternidade, permitindo que a comunidade cristã viva o presente à luz da memória da salvação e da esperança de sua consumação.
O domingo é o polo de convergência de todo o mistério pascal de Cristo (SC 106). A cada oito dias, a Igreja celebra a Páscoa semanal, razão pela qual esse dia é chamado Dia do Senhor. Nele, celebra-se o mistério pascal de Cristo, fundamento e centro de todo o ano litúrgico. Esse mistério, celebrado de modo pleno e solene na Páscoa anual, compreende a paixão, a morte e a ressurreição do Senhor (SC 102).
De domingo em domingo, ao longo do ano litúrgico, a Igreja celebra todo o mistério de Cristo, desde a encarnação e o nascimento até a ascensão e o Pentecostes, mantendo viva também a expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor (SC 102). Essa celebração se desenvolve nos diferentes tempos litúrgicos (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa e Tempo Comum), bem como nas solenidades, festas e memórias da Bem-aventurada Virgem Maria e dos santos. Assim, ao longo do ano, a Igreja contempla as diversas dimensões do único mistério de Cristo e reconhece, na vida dos santos, os frutos da obra da salvação (SC 111).
Cristo não se faz presente na Igreja apenas na celebração semanal do domingo e ao longo do ano litúrgico, mas também na santificação das horas do dia, por meio da Liturgia das Horas, ou Ofício Divino (SC 83). Segundo a antiga tradição cristã, o Ofício Divino destina-se a consagrar a Deus, pelo louvor, todo o curso do dia e da noite (SC 84). Ao santificar as diferentes horas por meio da oração, a Igreja nos ajuda a superar a ansiedade do instante e a abrir nossa existência ao ritmo da oração e ao mistério de Deus. Assim, o tempo cotidiano é humanizado e ganha novo sentido à luz da presença de Cristo.
Presente nos símbolos
A Liturgia não se realiza por meio de abstrações espirituais, mas de realidades concretas que fazem parte da nossa existência: pão, vinho, azeite, água, perfume, fogo, cinzas, pedra, tecidos, cores, corpo, palavras, sons, silêncios, gestos, espaços, movimentos, ações, tempos e luz. Toda a criação manifesta o amor de Deus e, à luz da Cruz de Cristo, é chamada a participar da obra da salvação. Assim, os elementos da criação são assumidos na ação litúrgica e colocados a serviço do encontro com o Verbo encarnado, crucificado, morto, ressuscitado e glorificado junto do Pai.
Essa relação se expressa, por exemplo, nas orações de bênção da água batismal e do óleo do Crisma, bem como na apresentação do pão e do vinho, frutos da terra e do trabalho humano, oferecidos a Deus na celebração eucarística (DD 42). Por meio desses elementos simbólicos, a Liturgia dá glória a Deus e nos permite contemplar, já neste mundo, os sinais de sua presença. Nas celebrações, somos vivificados pela força da Páscoa de Cristo (DD 43).
É a Liturgia que, através dos seus símbolos e ritos, nos introduz progressivamente no mistério que celebramos. A participação consciente, plena e ativa nas ações litúrgicas nos permite aprofundar a fé e tomar parte na vida, na morte e na glorificação de Cristo. Palavras, gestos, sinais, símbolos e sacramentos nos ajudam a reconhecer como esse mistério ilumina nossa existência, com suas alegrias, dificuldades, dúvidas e esperanças. Uma palavra proclamada das Escrituras, um gesto de acolhida, um abraço fraterno, a luz de uma vela, o silêncio, o perfume do incenso, o sinal da cruz, o pão e o vinho partilhados ou a unção com os óleos santos podem favorecer uma experiência profunda de encontro com Deus. Assim, a Liturgia não permanece restrita ao momento da celebração, mas alcança a vida cotidiana, fortalece nossa comunhão com Cristo e nos conduz a segui-lo com fidelidade, colocando-nos a serviço de sua missão (Buyst, 2009, p. 177).
Por isso, em nosso mundo contemporâneo, torna-se cada vez mais necessário compreender adequadamente o sentido do símbolo litúrgico. Ele não apenas remete a uma realidade ausente ou indica um mistério que está além de nós, mas, na ação litúrgica, torna presente o próprio mistério que celebra (DD 26). O símbolo não se reduz, portanto, a um recurso mental ou a um meio de conhecimento racional, mas envolve a pessoa inteira numa experiência viva com o mistério de Deus, que se comunica por meio das realidades concretas da criação, como a água, o óleo e os demais elementos assumidos pela Liturgia.
Assim, o símbolo vai muito além de uma simples informação: não se comunica apenas pela razão, mas também pelo coração e pelos sentidos. Na Liturgia, o símbolo não se reduz a uma representação teatral ou a uma simples recordação visual do que se celebra. É uma linguagem feita de sinais que ultrapassam o olhar, tocam o coração, tornam perceptível o mistério celebrado e abrem espaço para um diálogo interior com o mistério infinito de Deus (Sirboni, 1999, p. 13-16; Marques; Paro, 2026, p. 32-35).
Em tudo e no meio de nós, Ele está presente
A articulação entre a presença de Cristo na ação litúrgica, nos ministérios, no espaço celebrativo e no tempo da salvação oferece uma perspectiva fecunda para a formação litúrgica e para a compreensão da própria celebração. Trata-se de reconhecer como cada uma dessas realidades, segundo sua natureza, se relaciona com a ação salvadora do Senhor e nos introduz no mistério celebrado.
A assembleia é reunida por Cristo e participa de sua ação; os ministérios servem à celebração e à edificação do seu Corpo; os lugares e os sinais rituais expressam simbolicamente o mistério celebrado; e o tempo litúrgico introduz a Igreja no hoje da salvação, entre a memória dos acontecimentos pascais e a esperança da plenitude futura. Quando contemplamos essas realidades em conjunto, aprendemos a reconhecer que toda a celebração está ordenada ao encontro com Cristo e à participação em seu mistério pascal.
Tudo converge para a unidade da ação litúrgica, na qual Cristo santifica seu povo e o associa à sua oferta ao Pai. Essa compreensão exige um olhar mistagógico, capaz de ultrapassar a percepção meramente funcional da celebração e de reconhecer, nos gestos, nas palavras, nos ministérios, na organização do espaço e no ritmo do ano litúrgico, a linguagem pela qual a Igreja celebra e transmite sua fé. Cada elemento, compreendido à luz do conjunto, nos ajuda a penetrar mais profundamente no mistério e a reconhecer a presença daquele que age na Liturgia.
Educar para a Liturgia significa, portanto, formar os fiéis para uma participação consciente, plena e ativa, que não se limita à execução de funções ou à observação dos ritos, mas os conduz, progressivamente, à compreensão e à vivência do mistério pascal. É aprender a reconhecer, por meio dos símbolos e dos ritos, a ação de Cristo que reúne, santifica e transforma seu povo.
Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre, reúne em si a história e a conduz à sua plenitude. Assim, cada celebração torna-se encontro com o Senhor que veio, que permanece presente e atuante entre nós e que virá em sua glória. No hoje da Liturgia, a Igreja celebra a salvação recebida, vive a comunhão com Cristo e antecipa, na esperança, o dia em que Deus será tudo em todos (SC 8). Educar o olhar e o coração para esse mistério é aprender a reconhecer que, na Liturgia, Cristo não é apenas recordado: Ele nos reúne, age em nós e nos conduz à plenitude humana da vida em Deus.
Referências bibliográficas
BUYST, Ione. A formação litúrgica mistagógica. In: Liturgia em mutirão II. Brasília: CNBB, 2009.
CARDITA, Angelo. Reforma litúrgica para quê? Revisitando a Sacrosanctum Concilium. São Paulo: Loyola, 2018.
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia. In: Concílio Ecumênico Vaticano II: documentos. Brasília: CNBB, 2018. p. 21-74.
CNBB. Guia Litúrgico-Pastoral. Brasília: CNBB, 2025.
FRANCISCO. Carta apostólica Desiderio desideravi. Brasília: CNBB, 2022.
GRILLO, Andrea. Ritos que educam: os sete sacramentos. Brasília: CNBB, 2017.
MARQUES, Luis; PARO, Thiago. Liturgia e catequese: um só coração. São Paulo: Ed. Santuário, 2026.
PEREIRA, Jerônimo. A Liturgia: cume e fonte da formação cristã. Um percurso a ser descoberto. Revista de Liturgia, n. 237, p. 4-7, 2013.
SIRBONI, Silvano. Il linguaggio simbolico della liturgia. Roma: San Paolo, 1999.
*Franciscano Conventual, Doutor em Teologia Sacramental pelo Pontifício Ateneu de Santo Anselmo – Roma, Vice-presidente da Associação dos Liturgistas do Brasil e Assessor da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB.
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