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Não basta preparar para os Sacramentos: a Liturgia deve formar para a vida cristã

Ao acompanhar os desdobramentos da 76ª Semana Litúrgica Nacional de Catânia, percebe-se que as conferências inaugurais trazem à tona um questionamento de elevada densidade teológico-pastoral.

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26.08.2026 - 08:50:00 | 6 minutos de leitura

Não basta preparar para os Sacramentos: a Liturgia deve formar para a vida cristã

Pe. Washington Paranhos, SJ

 

Ao acompanhar os desdobramentos da 76ª Semana Litúrgica Nacional de Catânia, percebe-se que as conferências inaugurais trazem à tona um questionamento de elevada densidade teológico-pastoral.

 

Ao longo de décadas, concentraram-se expressivos esforços na preparação para os sacramentos. Elaboraram-se catequeses, encontros familiares e itinerários formativos mais ou menos extensos, visando à Primeira Comunhão e à Confirmação. A provocação oriunda de Catânia é mais radical: prepararam-se os fiéis estritamente para a recepção dos sacramentos ou realizou-se uma autêntica iniciação à vida cristã?

 

Dom Claudio Maniago sintetizou a questão na oração inaugural: “O objetivo do itinerário de iniciação cristã não é o sacramento a ser celebrado, mas a vida cristã que brota do sacramento celebrado”. Trata-se de uma distinção límpida e categórica. O sacramento não constitui a meta do encerramento de um curso; é a gênese de uma nova forma de existência.

 

Em sua aula inaugural, Mons. Andrea Lonardo resgatou um conceito da constituição Sacrosanctum Concilium por vezes subestimado. A liturgia é culmen (ápice), contudo é também fons (fonte). Lonardo assinala a tendência de reduzi-la a mera expressão de uma fé preexistente e amadurecida, esquecendo que ela integra a própria gênese da fé. Disso decorre uma consequência pastoral direta: a Eucaristia dominical não pode figurar como um apêndice ao percurso catequético, mas deve integrar o próprio dinamismo mediante o qual o fiel aprende a viver cristãmente.

 

A conferência do Pe. Francesco Cosentino conferiu a essa intuição seu devido fundamento teológico. Cosentino partiu de uma premissa elementar apenas em aparência: “A liturgia é ação de Deus”. A celebração dimana do munus sacerdotal de Cristo e do seu Mistério Pascal; não consiste em um espaço ostentado para a autoexpressão ou autorrealização religiosa. É um dom no qual se é inserido. Sob essa ótica, o conferencista advertiu com franqueza que o arbítrio e a dita “criatividade litúrgica”, ao desvincularem-se da dimensão eclesial, descambam em ideologias particulares e em um «sutil narcisismo» que desloca o foco do Mistério para o celebrante.

 

A questão central não reside em impessoalizar a liturgia, mas em reconhecer a fonte de sua eficácia: a Páscoa de Cristo. Na celebração, não ocorre uma mera recordação histórica da Morte e Ressurreição do Senhor, mas a inserção sacramental no seu Mistério Pascal, a fim de que essa eficácia transfigure a existência do fiel. Cosentino sustenta, assim, que a liturgia possui a capacidade de gerar a Igreja como sujeito evangelizador. Quando a celebração introduz efetivamente na vida divina, o crente deixa de ser mero espectador: a vida recebida converte-se em vida doada.

 

Sob esse prisma, compreende-se a relevância de suas observações pastorais sobre os afastados que retornam ao limiar da fé. Cosentino relata experiências nas quais a densidade dos ritos “tocou e transformou a vida” dos indivíduos, exigindo o resgate da capacidade iniciática intrínseca à liturgia. O ser humano pode ser alcançado pela verdade de um gesto celebrado antes mesmo de dominar as categorias conceituais para explicá-lo. O rito abre a porta que a catequese, posteriormente, auxiliará a atravessar de modo consciente.

 

O Pe. Pierangelo Muroni avançou na reflexão ao afirmar categoricamente que “toda a liturgia é iniciação cristã”. Isso não significa substituir o catecumenato por cada ato celebrativo, mas reconhecer que a liturgia possui uma pedagogia iniciática própria. Por meio da Palavra e dos sinais sacramentais, ela conduz para o interior do Mistério. Muroni evoca o número 10 da Sacrosanctum Concilium: a liturgia é o ápice para o qual tende a ação da Igreja e, simultaneamente, a fonte da qual emana a sua força.

 

Essa perspectiva reconfigura a compreensão da tríade Batismo, Confirmação e Eucaristia. O itinerário “da fonte à mesa”, título de sua conferência, não designa meros eventos estanques ao longo do desenvolvimento individual, mas um itinerário unitário no qual o cristão é gradualmente inserido na História da Salvação e configurado a Cristo até a plena participação eucarística.

 

Toca-se aqui em uma fragilidade premente da práxis pastoral contemporânea: a fragmentação dos sacramentos gerou uma percepção estanque nos fiéis, em que o Batismo se reduz ao nascimento, a Primeira Comunhão a um marco da infância e a Crisma ao ato de despedida da catequese. A unidade intrínseca da iniciação cristã corre o risco de dissolução.

 

Muroni exorta a recuperar essa unidade situando a Eucaristia como o ápice do itinerário. É na união ao Corpo e ao Sangue de Cristo que o crente ingressa plenamente na forma pascal da vida cristã. A relação entre Batismo e Eucaristia transcende a cronologia: o Batismo orienta-se a uma existência eucarística, enquanto a Eucaristia nutre continuamente a vida germinada no Batismo.

 

Emerge desse debate uma das conclusões mais profícuas do encontro de Catânia: não basta a preparação para a liturgia; é mister a formação pela liturgia. E essa formação opera-se através da própria ação ritual.

 

Muroni defende a urgência de uma “realfabetização dos sinais”, exemplificando de forma concreta: a água batismal deve ser percebida em sua densidade elemental, a veste branca deve efetivamente revestir e o círio deve ser reconhecido como luz. O seu diagnóstico é severo: “Os sinais falam na liturgia muito mais do que as nossas palavras”. Ao empobrecer a linguagem simbólica, condena-se a assembleia a uma necessidade perpétua de explicações discursivas.

 

Alinha-se a isso o ensino contínuo do magistério pontifício sobre a Sacrosanctum Concilium: a centralidade do rito como mediação eclesial e a urgência de se deixar educar pela liturgia. Em Catânia, essa intuição ganha contornos de aplicação pastoral direta.

 

Diante disso, impõe-se a revisão do recorrente questionamento paroquial: “Como reter os jovens após a Crisma?”. É provável que a indagação seja formulada tardiamente. Se o sacramento é apresentado como um ponto de chegada acompanhado por um percurso formativo que se encerra na sua recepção, torna-se previsível que seja interpretado como um ato de conclusão. A iniciação cristã aponta para a direção oposta: demonstrar que o sacramento inaugura um itinerário vital alimentado continuamente pela Eucaristia dominical.

 

A solução excede a busca por métodos catequéticos mais eficientes; exige a recuperação da densidade teológica do evento celebrativo. O cristão não se constitui apenas pela assimilação de verdades doutrinais, mas pela inserção gradual na Páscoa de Cristo, deixando-se interpelar pela sua Palavra e recebendo sacramentalmente a vida que dela brota.

 

Ao término dessas sessões em Catânia, a reflexão que se impõe às comunidades paroquiais é objetiva: as paróquias estão limitando-se a preparar indivíduos para a recepção de sacramentos ou estão gerando cristãos capazes de viver daquilo que celebram? A virada pastoral reside fundamentalmente nessa distinção.

 

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