Lex orandi, lex credendi, lex contemplandi
Uma homenagem a Cláudio Pastro
28.10.2026 - 11:20:00 | 6 minutos de leitura

Almir José Neto*
A maneira como a Igreja celebra manifesta aquilo que ela crê e, ao mesmo tempo, educa seus membros na fé, na vida nutrida pela liturgia. Essa relação, expressa na máxima lex orandi, lex credendi, permite compreender a liturgia como lugar em que a fé ganha voz, gesto, matéria e presença. Ao acrescentar lex contemplandi, proponho reconhecer que essa mesma relação oferece uma chave para o olhar: aquilo que celebramos deve orientar nossa vida e também o modo como contemplamos tudo que nos cerca, no modo como produzimos arquitetura e arte sacra.
Nessa perspectiva, contemplar uma obra destinada ao culto pede uma aproximação à oração da Igreja. Seu sentido se revela na relação com a Palavra proclamada, com os gestos celebrativos e com a comunidade reunida. Também o trabalho de criação exige essa escuta e vivência para uma maior plenitude daquilo que se realiza. Projetar um espaço ou conceber uma imagem implica perguntar como sua presença poderá favorecer a experiência de fé e a participação no Mistério celebrado.
O grande expoente da Arte Sacra contemporânea nacional, Cláudio Pastro, falecido a 10 anos, constitui um grande exemplo dessa compreensão. Sua obra nos convida a perceber a unidade entre criação artística e vida litúrgica. Formas, cores, materiais e imagens integram uma linguagem que encontra na celebração sua razão de ser. A força de seu trabalho está justamente nessa capacidade de oferecer à fé uma expressão sensível, fazendo do espaço uma presença que acolhe, orienta e acompanha a oração da assembleia.
Sob essa luz, a contribuição de todo o repertório pastriano pode ser compreendida como uma expressão significativa da materialização do espírito litúrgico da restauração promovida pelo Concílio Vaticano II. A Sacrosanctum Concilium apresenta como horizonte a “plena, consciente e ativa participação” dos fiéis (Concílio Vaticano II, 1963, n. 14). Esse horizonte alcança a experiência do espaço: a maneira de reunir a comunidade, a visibilidade dos lugares celebrativos, a relação entre os elementos e as condições para escutar, silenciar, responder e celebrar.
A arquitetura e a arte participam dessa formação da sensibilidade. O lugar do Altar, a presença do Ambão, a disposição da assembleia e a relação das imagens com o conjunto não aleatório, mas dentro de um programa iconográfico bem pensado, contribuem para melhor vivência e compreensão daquilo que ali acontece, Daquele que naquele local celebramos. Cada escolha pode favorecer a percepção da unidade da celebração. Contemplar, nesse contexto, é deixar que o olhar seja educado pela fé que a Igreja professa e pela oração que realiza.
Também a beleza adquire um sentido próprio. Ao recomendar uma beleza que seja de nobre simplicidade (Concílio Vaticano II, 1963, n. 124), a Sacrosanctum Concilium oferece um critério que nos ajuda a contemplar a obra de Pastro. Podemos reconhecer essa nobreza na coerência entre as partes, na dignidade dos materiais, na força dos símbolos e na atenção ao conjunto. A beleza torna-se serviço à celebração e caminho de aproximação do Mistério.
Essa compreensão exige tempo. O Concílio Vaticano II continua a ser estudado, assimilado e implementado em nossas igrejas. Sua recepção se aprofunda à medida que comunidades, ministros e artistas aprendem a reconhecer as consequências de seus ensinamentos para a vida celebrativa. As transformações do espaço encontram sua fecundidade quando acompanhadas pela formação e por uma experiência comunitária capaz de acolher seu sentido.
Algo semelhante pode ser dito da obra de Cláudio Pastro. Sua presença em nossas igrejas não significa que tenhamos compreendido plenamente o alcance de sua contribuição. Ainda estamos aprendendo a contemplá-la, a reconhecer seus fundamentos e a assimilar as perguntas que ela dirige às nossas práticas. Sua obra permanece fecunda porque nos chama a examinar a relação entre aquilo que cremos, aquilo que celebramos e aquilo que tornamos visível.
Essa aprendizagem pede cuidado com seu legado. Seus traços reconhecíveis podem despertar o desejo de reproduzir soluções, imagens e composições. A homenagem mais profunda, porém, exige alcançar o discernimento que sustenta essas escolhas. O próprio Concílio recorda: “A Igreja nunca considerou um estilo como próprio seu” (Concílio Vaticano II, 1963, n. 123). Essa afirmação abre caminho para uma criação atenta à tradição, às comunidades e às possibilidades expressivas de cada lugar, condição e momento.
Receber a contribuição de Pastro significa, portanto, cultivar uma fidelidade criadora. Cada comunidade possui uma história, uma realidade cultural e condições concretas que precisam ser escutadas. A unidade da fé e da celebração pode encontrar expressões próprias nessa diversidade. Cabe aos que trabalham com arquitetura e arte sacra aprofundar a formação litúrgica e artística necessária para responder a essa responsabilidade.
Homenagear Cláudio Pastro é reconhecer sua obra como convite permanente a essa escuta. Como já escrevi em outro texto, seu legado nos ajuda a compreender que é preciso ter “o discernimento necessário para que cada espaço celebrativo manifeste, de modo próprio, o Mistério que em comunhão celebramos”. Lex orandi, lex credendi, lex contemplandi: a oração da Igreja forma a fé, educa o olhar e inspira a criação. Nesse encontro, a obra e o legado de Pastro continuam a nos ensinar.
Que o grande artífice do belo esteja a contemplar a eterna Beleza! E que nós, ainda nesta peregrinação terrestre, iluminados pela luz do Evangelho também expresso nas formas, cores e materiais de suas obras, saibamos acolher os frutos de seu trabalho e prosseguir no cultivo dessa vinha, após o labor tão generoso de tão singular operário do Senhor!
Referência
CONCÍLIO VATICANO II (1962–1965). Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia. Vaticano, 4 dez. 1963. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html. Acesso em: 19 out. 2026.
*Almir José Neto é Bacharel em Arquitetura e Urbanismo pelo IFF (campus Campos centro), com especialização em Espaço Litúrgico - Arquitetura e Arte Sacra pela UNISAL (campus Pio XI) em parceria com o Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard. Em atuação desde 2017 com projetos de Arquitetura e Arte Sacra, conta com obras em execução e executadas nas cinco regiões do país e no exterior. Em 2022 criou o Ateliê Ânima de Arquitetura e Arte Sacra, onde dedica-se ao desenvolvimento de projetos arquitetônicos e reflexões conceituais na área. Professor na pós-graduação em Arquitetura e Arte Sacra pela FASBAM (Curitiba) e de cursos livres online. Membro do Grupo de Pesquisa “A Palavra é Imagem: Arte Sacra Contemporânea – História e Religião”, Laboratório de Política, Comportamento e Mídia – LABÔ, Fundação São Paulo.

