Espiritualidade do Catequista à luz de Marcos 10,46-52: “A cura do cego Bartimeu”
Numa síntese espiritual Bartimeu ensina ao catequista a: reconhecer sua necessidade de Deus; perseverar na oração; escutar o chamado de Cristo; abandonar falsas seguranças; pedir a graça de enxergar espiritualmente; conduzir outros ao encontro com Jesus e seguir o Senhor no caminho do discipulado.
06.07.2026 - 11:15:00 | 21 minutos de leitura
Pe. Kleber Rodrigues da Silva*
Introdução
A proposta de reflexão surgiu a partir do convite de um grupo de coordenadores de catequistas para promover uma manhã de espiritualidade com o intuito de percorrendo a perícope de Marcos 10,46-52, encontrar elementos que os ajudasse a desenvolver a espiritualidade do Catequista. Sendo assim um primeiro passo é mostrar o quanto um texto bíblico pode ser adaptado as diversas situações consciente de que “a Igreja cresce e se constrói ao escutar a Palavra de Deus, e os prodígios que de muitas formas Deus realizou na história da salvação” (ILM 7). É acostumar-se a olhar para a Sagrada Escritura e encontrar elementos que sustentem nossa caminhada eclesial, na diversidade e no acolhimento dos dons e carismas (cf. 1Cor 12,4-7). Outro passo é de que conscientes da nossa identidade discipular, seguindo o Mestre, queremos ocupar o lugar que nos cabe na árdua tarefa de transmitir a fé, de modo a não cair no erro de Tiago e João, que desejam um lugar à esquerda e a direita (cf. Marcos 10,36-37), mas deixar-se curar das cegueiras, como no caso do cego Bartimeu e viver efetivamente o discipulado de Jericó à Jerusalém e de lá até a plenitude da vida. O terceiro passo é dar razões e encontrar as devidas motivações para que o trabalho pastoral não se torne um peso, mas haja sempre uma alegria em servir ao Senhor.
- O texto de Marcos 10,46-52: a cura do cego Bartimeu.
Naquele tempo, 46Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. 47Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”48Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” 49Então Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” 50O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. 51Então Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!” 52Jesus disse: “Vai, a tua fé te curou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.
- Doze razões pelas quais devo cultivar a espiritualidade como catequista.
O exercício desenvolvido pelos catequistas nas diversas paróquias e comunidades é envolvido de grandes conquistas e desafios, dentre os quais podemos destacar o cansaço espiritual. Na medida em que vamos nos envolvendo no trabalho pastoral, nos compromissos catequéticos, é comum, termos uma agenda cheia, grande número de atividades que vão sugando nossa energias e disposições, por isso, é preciso cuidar para que tudo não se transforme num mero ativismo pastoral. Papa Francisco, na Exortação ApostólicaEvangelii Gaudium, alerta contra a "acédia pastoral", isto é, o desânimo e o cansaço que levam à perda do ardor missionário (EG 81-83).
Cuidar da espiritualidade é um compromisso que todo cristão deve ter para consigo, do mesmo modo, aquele que se dispõe a transmitir a fé, deve dar sempre razões e motivações para que os frutos cresçam e permaneçam.
Primeira razão: quero rezar.
Santa Teresa do Menino Jesus diz: “A oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria.” (CIC 2558)
O catequista tem essa tarefa diária de organizar seu momento pessoal de oração, para que no domingo, possa celebrar comunitariamente a fé que procura ensinar nos encontros catequéticos.
É significativo que entre as diversas finalidades, a oração, construa no coração daquele que reza os propósitos da aliança e da comunhão.
“A oração cristã é uma relação de Aliança entre Deus e o homem em Cristo. É ação de Deus e do homem; brota do Espírito Santo e de nós, totalmente dirigida para o Pai, em união com a vontade humana do Filho de Deus feito homem” (CIC 2564).
Na prática pastoral, o catequista deve questionar-se: qual o conceito de oração que tenho formado? Qual metodologia utilizo ao rezar? O tempo dedicado lhe trás satisfação e preenchimento?
Uma dica pastoral: conferir a última parte do Catecismo da Igreja católica que trata da Oração Cristã.
Segunda razão: encontrar-se com Deus.
A oração desenvolve a comunhão, por isso, “na Nova Aliança, a oração é relação viva com os filhos de Deus com seu Pai infinitamente bom, com seu Filho, Jesus Cristo, e com o Espírito Santo. [...] A vida de oração consiste, portanto, em estar habitualmente na presença do Deus três vezes Santa e em comunhão com ele” (CIC 2565).
O cultivo da espiritualidade por parte do catequista, tem em vista produzir frutos de comunhão e participação. O grupo de catequistas da paroquia, por exemplo, não deve se entender como uma quantidade de pessoas, mas como batizados que celebram sua dinâmica de comunhão e troca de dons.
Pergunte-se: rezo para que? De que forma a oração o tem auxiliado a crescer em atitudes de comunhão com a paróquia, com a comunidade, com os demais catequistas e consigo mesmo?
Terceira razão: ouvir o chamado do Senhor.
Chamados que somos, participantes e construtores do Reino de Deus, precisamos continuamente voltar “ao primeiro chamado”, para reabastecer o coração. “Deus chama incansavelmente toda pessoa ao encontro misterioso com Ele.” (CIC 2591).
É edificante ouvir o chamado do Senhor, poder participar da edificação do Reino entre nós e celebrar esta comunhão com o divino. O catequista, no desenvolvimento da sua espiritualidade pode e deve sempre retomar o chamado perguntando-se: Quando e como foi o seu chamado a ser catequista? Recordar isso lhe enche de alegria?
Quarta razão: entrelaçar o ensinamento catequético, com a vivência da fé.
Sabemos o quanto ao longo do processo catequético com os apóstolos, com os discípulos e com a multidão, Jesus cobrou efusivamente a coerência. Daquilo que aprenderam a crer, passariam a celebrar e consequentemente a viver. Cultivar a espiritualidade, faz com que o catequista não seja apenas um mero transmissor da doutrina, de palavras bonitas que brotam do evangelho, mas seja, alguém que vive efetivamente aquilo que transmite.
De que modo o ser catequista torna-se para você uma fonte de inspiração em vista da coerência de vida?
Quinta razão: fortalecer a disposição para a conversão.
Diante da nossa condição humana, somos envolvidos dos nossos limites, das indisposições, das quedas, dos defeitos. Cultivar a própria espiritualidade, faz com que o catequista, coloque-se numa disposição para a mudança. Tomo o exemplo de alguém que entra numa academia. Dele será exigido disciplina, perseverança, disposição e compromisso, de modo, num tempo determinado, apareçam os primeiros resultados.
O que o exercício ministerial, como catequista, lhe incentiva a cuidar dos passos de conversão?
Sexta razão: proporcionar o crescimento na sua integridade.
Um dos fatores que podemos observar nas ações de Jesus quando curava, perdoava, expulsava os espíritos malignos, era cuidar não só de uma necessidade física, espiritual ou até mesmo momentânea da pessoa, mas Ele tinha sempre a preocupação de cuidar da pessoa como um todo.
“Em sua vida terrena, ele passou fazendo o bem e socorrendo todos os que eram prisioneiros do mal. Ainda hoje, como bom samaritano, vem ao encontro de todos os que sofrem no corpo ou no espírito, e derrama em suas feridas o óleo da consolação e o vinho da esperança.” (Prefácio Comum VIII).
Um desafio que a catequese nos propõe é de que ela não seja exclusivamente sacramental, mas eduque para a vida em Cristo. Antes de cuidar dos catequizandos, como você está na sua integridade?
Sétima razão: rever e ajustar propósitos.
Retirar-se para rezar como catequistas, torna-se uma oportunidade para reorganizar a vida, os passos, os desejos, as boas intenções, os esforços e fortalecer os bons propósitos.
Diversas vezes Jesus subiu a montanha para rezar e manter alinhado com o Pai os propósitos do projeto de salvação: antes de grandes decisões (Lc 6,12-16); após intensa atividade missionária (Mt 14,22-23; Mc 6,45-46); nos momentos de revelação de sua identidade e missão (Lc 9,28-36); diante da tentação do poder (Jo 6,15); na preparação para sua Paixão (Lc 22,39-46; Mt 26,36-46; Mc 14,32-42).
O catequista deve também intensificar os momentos em que estando com Jesus consiga rever e ajustar os propósitos do trabalho pastoral. Já foi dito da importância da oração pessoal e comunitária, vale ainda ressaltar, os momentos de Adoração ao Santíssimo, de partilha da palavra, da vivência sacramental, entre tantas outras formas significativas que cada realidade pastoral proporciona.
Sendo assim, os questionamentos podem ser: Quais são os seus propósitos como catequista? O que precisa ser revisto na sua caminhada espiritual e nos trabalhos catequéticos?
Oitava razão: traçar novas metas para a vivência da vocação de catequista e do trabalho pastoral.
As grandes empresas traçam metas, fazem seus planejamentos, organizam as equipes e motivam seus colaboradores a buscar o melhor.
No desenvolvimento do trabalho pastoral, precisamos constantemente analisar, reorganizar, ajustar, aprimorar as metas evangelizadoras.
Recentemente foram aprovadas as Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032, cujo objetivo geral é: evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja sinodal, sustentada pela Palavra e pelos Sacramentos, em comunidades de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino de Deus.” (DGAE p. 16).
O catequista ao transmitir os valores evangélicos apresenta a santidade e a plenitude da vida como metas a serem alcançadas por todos os que são inseridos na vida de Cristo e da Igreja.
“Precisamos de catequistas, novas metodologias e linguagens que respondam ao clamor dos catecúmenos, dos jovens em busca de uma experiência de fé, dos pais que procuram a Igreja para os sacramentos dos filhos, e dos muitos adultos batizados, mas pouco evangelizados, que vivem hoje o risco, dentre outros, do indiferentismo religioso e da influência da cultura digital.” (DGAE 114).
Pensando no desenvolvimento da espiritualidade e do trabalho pastoral responda: qual é a sua meta como catequista?
Nona razão: experimentar as provocações do Espírito Santo.
O agir do Espírito Santo é sempre para colocar a Igreja em movimento, santificar, consolar, orientar e discernir. Ao derramar o Espírito Santo sobre os apóstolos, a comunidade que até então estava tomada pelo medo, é impelida a romper as barreiras, abrir as portas e colocar-se como uma Igreja em saída (cf. João 20,19-23).
Papa Francisco já trazia essa provocação: "Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças." (EG 49).
No caminho de fortalecimento da espiritualidade, o catequista, reza ao Espírito Santo, de modo a acolher as provocações que lhe são feitas diariamente.
Décima razão: a coragem de ir ao “cômodo mais escuro do coração” do ser catequista.
Quando Jesus chamou os doze apóstolos, tinha plena consciência da personalidade, do ser de cada um, mas mesmo assim os convidou para segui-lo, tomar a cruz, renunciar a si mesmo e para construir o reino.
Não precisamos ter medo de nossos limites ou fugir deles. Não precisamos escondê-los e nem procurá-los nos outros. Ter a coragem de aceitá-los já é um passo muito significativo. Não procure perfeição no padre da sua paróquia, na coordenação de catequese, nos companheiros de missão, em si mesmo, procure primeiramente o rosto de Cristo.
O que há no cômodo mais escuro da sua consciência que precisa ser iluminado, com a luz da Ressurreição?
Décima primeira razão: ajustar os elos com Deus e com os outros.
Uma imagem que nos ajudaria aqui é de uma corrente com seus gomos interligados, dando razões ao “ser corrente”.
Não trabalhamos sozinhos, não evoluímos com a individualidade ou com o egoísmo. O cultivo de uma espiritualidade aprimora e ajusta os nossos elos com Deus e com os outros, de modo a estarmos atentos àquilo que faz nossa comunidade paroquial crescer.
A primeira leitura da Festa de São Tomé lembra-nos: “Sois da família de Deus. Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra fundamental. É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo Santo no Senhor. E vós também sois integrados nesta construção para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito.” (Efésios 2,19b-22).
Em vista do fortalecimento da espiritualidade, a pergunta a ser feita é: Estou na igreja para que? Para edificá-la ou para dividi-la?
Décima segunda razão é: Servir ao Senhor com alegria
Com o coração santificado, orante, crente e vivificado, o catequista no desenvolvimento de sua espiritualidade aprende a servir ao Senhor com alegria.
A oração é diálogo, é força, é disposição, é coragem, é relação, é presença humana diante do divino. Os salmos 100 (99) e 150 ajudam-nos a glorificar a Deus todos os dias por aquilo que realizamos como instrumentos da missão.
De que modo a oração desperta no coração do catequista o sentimento de “servir ao Senhor com alegria”?
2. Características do evangelho segundo Marcos
Neste segundo momento, tratando mais diretamente da espiritualidade do catequista à luz da passagem da cura do cego Bartimeu, é valido fazer uma panorâmica sobre alguns elementos que marcam a constituição do evangelho segundo Marcos, a saber:
- O Evangelho segundo Marcos é o mais antigo dos Evangelhos canônicos;
- De origem judaica, primo de Barnabé, Marcos foi colaborador de Paulo e Pedro;
- Segundo a tradição, ele escreveu seu Evangelho em Roma, no tempo do martírio de Pedro (+- 65 d.C.).
- O Evangelho de Marcos é chamado de “Evangelho querigmático”, ele apresenta o querigma ou primeiro anúncio cristão da morte e Ressurreição de Jesus de acordo com as escrituras (cf. 1Cor 15,3-5);
- Contrariamente aos critérios de sucesso e prestígio, o Crucificado é o Messias e Filho de Deus;
- O Evangelho é organizado em quatro partes:
- Abertura (1,1-13).
- Quem é este? Que Reino ele anuncia? Será ele o Messias (1,14-8,26).
- O Messias diferente: Filho do Homem, Servo e Filho de Deus (8,27-16,8).
- Epílogo (16,9-20).
- São eixos temáticos:
- O querigma;
- O mistério de Jesus Messias e Filho de Deus;
- A cristologia: Jesus, Filho do Homem e Servo Sofredor;
- A Galileia: referência geográfica;
- O discipulado.
3. Um possível caminho em Marcos 10, 46-52.
A proposta de relacionar a cura do cego Bartimeu com o desenvolvimento da espiritualidade do catequista, convida-nos a percorrer um possível caminho nos versículos que lhes são próprios a saber:
São momentos:
- Jesus a caminho de Jerusalém passa por Jericó;
- Bartimeu, filho de Timeu: cego e mendigo, sentado à beira do caminho;
- Identidade de Jesus, o Nazareno e o Filho de Davi;
- Jesus para e manda chamar o cego;
- Convite da multidão: coragem, levanta-te, Jesus te chama.
- O cego deixou o manto;
- A pergunta ao cego: Que queres que eu te faça?
- O pedido a Jesus: Mestre, que eu veja.
- A cura: vai, a tua fé te curou.
- O seguimento.
Primeiro Momento: Jesus a caminho de Jerusalém passa por Jericó.
A cura do cego Bartimeu: um caminho de fé, discipulado e seguimento de Cristo. A narrativa está estrategicamente situada pouco antes da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Mc 11), tornando Bartimeu o último personagem curado antes da paixão de Cristo.
Seu encontro com Jesus simboliza a passagem da cegueira para a visão, da exclusão para a comunhão e da marginalidade para o seguimento.
“Jesus, no seu caminho definitivo para Jerusalém, encontra-se agora com os seus discípulos e uma grande multidão em Jericó. Jericó, está, de fato, no caminho para Jerusalém quase no nível do Mar Morto, isto é, a 400 metros abaixo do nível do mar. Falta, portanto, toda uma caminhada para a cidade santa, para chegar ao monte de Deus, onde se revelará para quem o segue a verdadeira glória do Filho do Homem.” (BECK et al., Uma comunidade lê o Evangelho de Marcos, p. 549).
Em relação à espiritualidade do catequista este primeiro momento ajuda-nos a pensar: qual o seu lugar no caminho para Jerusalém?
O catequista é alguém que sabe qual é o seu lugar na Paróquia e lá fica os pés e cultiva o sentimento de pertencimento e ali aprende a reconhecer sua necessidade de Jesus.
Segundo momento: Bartimeu, filho de Timeu, cego, mendigo, sentado à beira do caminho
Bartimeu sabe que é cego e não esconde sua condição. Sua humildade o leva a clamar por ajuda: "Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!" (Mc 10,47). A espiritualidade do catequista começa pelo reconhecimento de que ele também necessita ser evangelizado continuamente. O catequista não é dono da verdade; é um discípulo que caminha com os demais discípulos. Antes de ensinar, ele precisa deixar-se iluminar por Cristo. A catequese perde sua força quando o catequista acredita que já sabe tudo. Ao contrário, cresce quando ele mantém um coração humilde e aberto à ação de Deus. Responda sempre a si mesmo: Quem tu és? E do que necessitas diante de Jesus.
Terceiro Momento: “Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”
A catequese tem por finalidade construir no coração dos fiéis a identidade de Jesus: o humano e o divino, o Filho de Maria e o Salvador. Ter claro qual a imagem de Jesus concebemos e testemunhamos para que as pessoas consigam crer naquilo que falamos? Na busca pela identidade de Jesus em nossa vida, precisamos tantas vezes gritar para que sejamos ouvidos. Que gritos temos dados? Qual a compreensão ou a proporção do “tende piedade de mim”, na nossa consciência. Havia uma multidão que estava com Jesus, mas ainda não havia entendido a proporção da misericórdia oferecida à todos. No caminho de Jerusalém, Jesus quer ensinar esta atitude. Estamos na multidão seguindo Jesus e nos comportamos de que modo? Discipular? Como abafadores dos gritos existenciais? Que gritos existenciais você, por medo, já abafou dentro de si e no outro?
Quarto momento: Então Jesus parou e disse: “Chamai-o”.
“Diferentemente de outras situações anteriores em que Jesus proíbe de revelar sua identidade (Mc 3,12; 8,30; 9,9); agora ele aceita essa insistente aclamação do cego. Jesus está na soleira do momento crucial da sua vida, depois de ter manifestado claramente a consciência e o significado de seu destino de sofrimento, não há mais motivo para manter o segredo messiânico”. (BECK et al., Uma comunidade lê o Evangelho de Marcos, p. 547). O chamado aqui não é apenas para levantar-se, para fazer um pedido a Jesus, para ser atendido. O chamado é para ir com Ele a Jerusalém e lá entregar-se. O chamado feito a você catequista, compreende uma ida à Jerusalém? De que modo, a vocação de catequista acolhe esta dimensão do chamar o outro para seguir até Jerusalém?
Quinto momento: Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!”
Passar de uma multidão que procura abafar o grito de misericórdia, para uma multidão que estende a mão e convida-o com coragem a levantar-se. Parece simples, mas é mudança de comportamentos. O momento parece ser rápido, mas na vida isso leva tempo. Atentos aos nossos posicionamentos. Do catequista da critica, ao catequista da coragem. Do catequista que quer que o outro permaneça no silencio ao catequista que transmite coragem.
Sexto momento: O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus.
O catequista abandona suas seguranças: Marcos destaca um gesto significativo: "Lançando fora o manto, deu um salto e foi até Jesus." (Mc 10,50). O manto era a segurança de Bartimeu. Ao deixá-lo para trás, ele demonstra confiança total em Cristo. Na vida do catequista, o "manto" pode representar: o comodismo; o medo; a autossuficiência; o apego a métodos ultrapassados e a resistência às inspirações do Espírito Santo. A espiritualidade catequética exige disponibilidade para a renovação e para a conversão permanente. Que manto você precisa abandonar?
Sétimo momento: Então Jesus lhe perguntou: “O que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!”
O catequista pede a graça de enxergar: Ao perguntar o que deseja, Jesus ouve: "Mestre, que eu veja!". Esta deveria ser uma oração diária do catequista.
Ver significa: compreender melhor a Palavra de Deus; perceber as necessidades dos catequizandos; reconhecer a ação do Espírito Santo; discernir os sinais dos tempos e enxergar Cristo nos irmãos. O catequista é chamado a formar pessoas na fé, mas somente pode fazê-lo adequadamente quando seus próprios olhos espirituais estão abertos.
Oitavo momento: O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!”
É exatamente a mesma pergunta feita anteriormente aos filhos de Zebedeu (Mc 10,36). Há um contraste impressionante. Tiago e João pedem: poder; prestígio; lugares de honra. Bartimeu pede apenas: "Mestre, que eu veja." Os discípulos querem grandeza. O cego deseja visão. O que precisamos enxergar em nós e nos outros? O que temos enxergado no dia a dia da nossa paróquia? O que temos enxergado em nossos padres? O que temos enxergado nos catequizandos?
Nono momento: Jesus disse: “Vai, a tua fé te curou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista.
“Jesus havia pronunciado as mesmas palavras diante da mulher que o havia tocado para ser curada (Mc 5,34). É a afirmação chave que nos permite ler, na cegueira dos olhos e no dom da vista física, o profundo significado espiritual em ordem ao conhecimento de Jesus, que daqui em diante se revelará cada vez mais abertamente”. (BECK et al., Uma comunidade lê o Evangelho de Marcos, p. 548). Compreende que será no caminho da vida que leva à Jerusalém que acontece a cura? Guarde bem a imagem do que acontece em Jerusalém, como parte da sua espiritualidade como catequista.
Décimo momento: No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.
O catequista é discípulo missionário. Neste sentido, “a catequese não pode se limitar a uma formação meramente doutrinal, mas precisa ser uma verdadeira escola de formação integral. Portanto, é necessário cultivar a amizade com Cristo na oração, no apreço pela celebração litúrgica, a experiencia comunitária, o compromisso apostólico mediante um permanente serviço aos demais”. (Documento de Aparecida 299)
Após recuperar a visão, Bartimeu não volta para casa. Marcos conclui: "E seguia Jesus pelo caminho." (Mc 10,52). A cura conduz ao discipulado.
Da mesma forma, a catequese não tem como objetivo apenas transmitir conteúdos religiosos. Sua finalidade é formar discípulos missionários que sigam Jesus e testemunhem o Evangelho. O próprio catequista deve ser o primeiro exemplo desse seguimento.
Conclusão
A cura do cego Bartimeu é muito mais do que um relato de restauração física. Trata-se de uma catequese sobre a fé e o discipulado. Marcos apresenta Bartimeu como modelo do discípulo ideal: ele reconhece Jesus como o Messias, persevera apesar das oposições, abandona suas falsas seguranças, acolhe o chamado do Senhor e, uma vez curado, não retorna à antiga vida, mas passa a seguir Jesus "pelo caminho", expressão que, no contexto do Evangelho, indica a caminhada rumo à cruz e à glória da ressurreição.
Para a Igreja de hoje, Bartimeu permanece um paradigma do verdadeiro crente. Sua história recorda que a fé nasce da escuta, manifesta-se na oração perseverante, conduz ao desprendimento e culmina no seguimento de Cristo. A maior cura que Jesus oferece não é apenas devolver a visão física, mas abrir os olhos do coração para reconhecer nele o Salvador e caminhar como seu discípulo.
Numa síntese espiritual Bartimeu ensina ao catequista a: reconhecer sua necessidade de Deus; perseverar na oração; escutar o chamado de Cristo; abandonar falsas seguranças; pedir a graça de enxergar espiritualmente; conduzir outros ao encontro com Jesus e seguir o Senhor no caminho do discipulado.
Assim, a espiritualidade do catequista pode ser resumida na oração de Bartimeu: "Mestre, que eu veja!". Somente quem teve os olhos do coração iluminados por Cristo pode ajudar outros a descobrirem a beleza da fé e a alegria de seguir o Evangelho. Trata-se de uma espiritualidade marcada pela escuta, pela oração, pela conversão permanente e pelo compromisso missionário, elementos essenciais para toda ação catequética na Igreja.
Referências Bibliográficas:
BECK, T. et al. Uma comunidade lê o Evangelho de Marcos. Leitura Pastoral da Bíblia, v. 1. Brasília: Edições CNBB, 2022.
BÍBLIA SAGRADA. Tradução Oficial da CNBB. 6. ed. Brasília: Edições CNBB, 2024.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 2. ed. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032. Documento 114. Brasília: Edições CNBB, 2026.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Brasília: Edições CNBB, 2007.
MISSAL ROMANO. 3. ed. Brasília: Edições CNBB, 2023.
PAPA FRANCISCO. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Brasília: Edições CNBB, 2013.
*Padre Kleber Rodrigues da Silva, é presbítero da Diocese de Taubaté-SP, pároco e Reitor do Santuário Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Pindamonhangaba-SP. Membro da Equipe de Reflexão da Comissão Nacional de Liturgia e Assessor de Liturgia do Regional Sul 1 (Estado de São Paulo).
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