As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032: Uma síntese para as Comunidades Paroquiais
Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, elaborou uma sequência de planos pastorais que procuraram traduzir as orientações conciliares para a realidade brasileira. Embora a nomenclatura tenha mudado ao longo do tempo (Plano, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral ou Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora), existe uma continuidade muito clara, que conduz os planos das Igrejas Particulares.
29.07.2026 - 11:26:00 | 11 minutos de leitura

Pe. Kleber Rodrigues da Silva
Introdução
Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, elaborou uma sequência de planos pastorais que procuraram traduzir as orientações conciliares para a realidade brasileira. Embora a nomenclatura tenha mudado ao longo do tempo (Plano, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral ou Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora), existe uma continuidade muito clara, que conduz os planos das Igrejas Particulares.
Vejamos este panorama cronológico:
| Período | Documento | Tema central |
|---|---|---|
| 1966–1970 | Plano de Pastoral de Conjunto (PPC) | Primeira recepção do Vaticano II no Brasil; renovação pastoral e comunhão entre as dioceses. |
| 1971–1974 | Plano de Pastoral de Conjunto | Consolidação das reformas conciliares; fortalecimento das comunidades e ministérios. |
| 1975–1978 | Diretrizes Gerais da Ação Pastoral | Evangelização, promoção humana e participação dos leigos. |
| 1979–1982 | Diretrizes Gerais da Ação Pastoral | Influência da Conferência de Puebla; opção preferencial pelos pobres e Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). |
| 1983–1986 | Diretrizes Gerais da Ação Pastoral | Evangelização libertadora, missão e comunhão. |
| 1987–1990 | Diretrizes Gerais da Ação Pastoral | Preparação para a nova evangelização e fortalecimento da Igreja-comunhão. |
| 1991–1994 | Diretrizes Gerais da Ação Pastoral | Evangelização diante das mudanças culturais e sociais. |
| 1995–1998 | Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE) | Passa-se a enfatizar explicitamente a ação evangelizadora. |
| 1999–2002 | DGAE | Igreja missionária e formação dos discípulos. |
| 2003–2006 | DGAE | Evangelização, missão e compromisso social. |
| 2008–2010 | DGAE | Primeira recepção da Conferência de Aparecida; discípulos missionários. |
| 2011–2015 | DGAE | Estado permanente de missão e comunidade de comunidades. |
| 2015–2019 | DGAE | Igreja em saída, inspirada pelo pontificado do Papa Francisco. |
| 2019–2025 | DGAE | Comunidades eclesiais missionárias sustentadas pela Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária. |
| 2026–2032 | DGAE | “Igreja: Comunhão, Participação e Missão”, em sintonia com o Sínodo sobre a Sinodalidade. |
- As grandes fases da pastoral da Igreja no Brasil
Esses documentos podem ser agrupados em cinco grandes momentos históricos:
1. Recepção do Vaticano II (1966–1974)
- Implantação da renovação litúrgica.
- Organização pastoral de conjunto.
- Valorização do protagonismo dos leigos.
- Fortalecimento da colegialidade episcopal.
2. Opção pelos pobres e CEBs (1975–1990)
- Forte influência das Conferências de Medellín e Puebla.
- Crescimento das Comunidades Eclesiais de Base.
- Promoção da justiça social.
- Formação de agentes de pastoral.
3. Nova Evangelização (1991–2006)
- Resposta ao pluralismo religioso.
- Formação permanente.
- Evangelização da cultura.
- Missão urbana.
4. Discípulos Missionários (2007–2019)
Inspirada pela V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, destacou:
- Conversão pastoral.
- Missão permanente.
- Igreja em saída.
- Formação de discípulos missionários.
5. Igreja Sinodal (2020 até hoje)
Influenciada pelo pontificado de Papa Francisco:
- Sinodalidade.
- Escuta.
- Participação.
- Missão compartilhada.
- Conversão pastoral.
Apesar das mudanças de linguagem e de contexto histórico, todos esses planos mantêm quatro grandes eixos que remontam ao Vaticano II:
- Comunhão (Igreja como Povo de Deus).
- Participação (corresponsabilidade de todos os batizados).
- Missão (evangelização permanente).
- Serviço (compromisso com a transformação da sociedade).
- O caminho de elaboração das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032
As atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, foram aprovadas na 62ª Assembleia Geral dos bispos do Brasil, realizada em Aparecida-SP, entre os dias 15 e 24 de abril de 2026. No entanto, o processo de elaboração foi realizado de uma forma sinodal ao longo dos anos, entre a 59ª e a 62ª Assembleia Geral, isto é, entre 2022 e 2026. Foram sete passos dados: 1. Carta dos bispos à Igreja no Brasil; 2. Tempo de Discernimento; 3. Encorajamento, consolidação e aprofundamento; 4. Nova rota passando pelas dioceses; 5. Novo Instrumentum laboris; 6. Amadurecimento do texto das Diretrizes; 7. Tenda do Encontro e a recepção do Sínodo.[1]
- O objetivo Geral das DGAE 2026-2032
A Igreja no Brasil, se propõe nos próximos anos, orientada pelas Diretrizes Gerais a: “Evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja sinodal, sustentada pela Palavra e pelos Sacramentos, em comunidades de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino de Deus”.
Temos aqui seis elementos fundamentais:
- Anunciando Jesus Cristo;
- Como Igreja Sinodal, sustentada pela Palavra e pelos Sacramentos;
- Em comunidade de discípulos Missionários;
- Fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres;
- A caminho da plenitude do Reino de Deus.
- A estrutura das DGAE 2026-2032
O documento é organizado em 223 parágrafos, distribuídos em seis capítulos, a saber:
Capítulo Primeiro: A Igreja: tenda do encontro.
Capítulo Segundo: A escuta dos sinais.
Capítulo Terceiro: Discernimento para uma Igreja Sinodal.
Capítulo Quarto: Povo de Deus em missão.
Capítulo Quinto: Caminhos da Missão.
Capítulo Sexto: Compromissos sinodais.
No capítulo primeiro, a proposta de reflexão é apresentar a Igreja como uma tenda de encontro. Ao longo dos anos, as Diretrizes têm sempre trazido uma “imagem”, para auxiliar na compreensão, por exemplo, na anterior, utilizávamos a imagem da Casa e seus pilares. Com o desejo de apresentar uma Igreja sempre atenta a necessidade da acolhida, da adequação as necessidades atuais e disposta a alargar suas ações.
No capítulo segundo, a Igreja convida-nos a ter um olhar voltado para a realidade atual que cerca nossas comunidades eclesiais, a luta do povo, a transmissão da fé, a promoção da dignidade humana.
No capítulo terceiro, a proposta é entender os eixos que conduziram o sínodo sobre a Sinodalidade e devem hoje conduzir também nossos trabalhos pastorais: a comunhão, a participação e a missão.
No capítulo quarto, considerando a proposta do objetivo geral, analisa-se quem são os participantes desta missão e os ambientes em que ela precisa acontecer. Participam os leigos, a vida consagrada, os ministros ordenados, os povos indígenas, nos diversos ambientes, junto às famílias, às crianças, aos jovens, às mulheres, às pessoas com deficiência e neurodivergentes e aos idosos.
No quinto capítulo, a reflexão versa para os caminhos da missão, ou seja, quais são os indicativos para se concretizar a proposta evangelizadora da Igreja no Brasil, com cinco caminhos: a animação bíblica da Pastoral; a iniciação à vida cristã; comunidades de discípulos missionários, a liturgia e a piedade popular e o serviço à vida plena para todos, inspirados pela evangélica opção preferencial pelos pobres; a promoção, defesa e cuidado da vida e a ecologia integral.
No sexto capítulo, somos convidados a assumir os compromissos sinodais, com três âmbitos de conversão: das relações, dos processos e dos vínculos.
- As Diretrizes da e para a Igreja no Brasil
É importante saber que as diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil, foi construída dentro de um processo sinodal e tem por finalidade expressar como historicamente a Igreja hierárquica e Povo de Deus, movida pelo Espírito Santo, propõe as Igrejas Particulares (Dioceses), as Paróquias, Comunidades eclesiais de discípulos missionários um caminho forte de realização da missão confiada por Jesus Cristo a todo batizado.
Sendo assim, não devemos utilizar a linguagem de que as diretrizes são da Conferência Nacional dos Bispo do Brasil (CNBB), mas sim, da Igreja, presente em todo território brasileiro. Ela é fruto dessa comunhão, participação e missão, são portanto, da e para a Igreja no Brasil.
- A Igreja: Tenda do Encontro
Como uma forma pedagógica, as diretrizes gerais sempre procuram aplicar uma “imagem”, que possa ajudar na assimilação e na aplicação dos elementos pastorais em cada realidade.
Nestas diretrizes, a imagem utilizada é a Tenda, como lugar do encontro, aberta a todos. Essa imagem deseja apontar a Igreja como “comunidade que se alarga, escuta os sinais dos tempos, faz o discernimento para a conversão pastoral e sai em missão. Está tenda sustentada pelas estacas bem firmes da fé, esperança e da caridade, é espaço de comunhão, participação e missão” (DGAE 2026-2032, n.9).
A tenda nos remete ao ser peregrino, um lugar de abrigo, um lugar da moradia, de proteção, de acolhida, de hospitalidade, de encontro, de aliança, da presença do Deus que caminha com seu povo.
“Hoje, assumir, para a igreja, a imagem de uma tenda disposta a alargar seus espaços é recordar da identidade do Povo de Deus peregrino, aberto à graça de Deus e sustentado pelas estacas bem firmes da fé, da esperança e caridade” (DGAE 2026-2032, n. 12).
No novo testamento, é Jesus quem arma a sua tenda e vem morar no meio de nós. É importante relacionar a imagem da tenda com o mistério da Encarnação, expressa em João 1,14: “Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós”.
“Ao armar sua tenda entre nós, ao assumir um corpo (Hb 10,5) e oferecê-lo em sacrifício na cruz, Jesus Cristo se revela o único mediador entre Deus e a humanidade (1Tm 2,5): o lugar do encontro (Jo 2,21)” (DGAE 2026-2032, n. 13).
A tenda é a chave de interpretação das DGAE. Apresentando o referencial de Igreja aberta, móvel, acolhedora e missionária, para promover a comunhão, a participação e a missão.
- A escuta dos sinais
A proposta é levantar as características do nosso tempo reconhecendo os desafios e contradições e marcam a realidade atual, como parte da missão que assumimos.
“Para viver a missão é necessário que a Igreja saiba perceber os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder de forma adaptada a cada geração, às perenes interrogações dos homens sobre o sentido da vida presente e futura e de sua mútua relação. Por conseguinte, é necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, suas esperanças e aspirações e de seu caráter muitas vezes dramático (GS, n. 4)” (DGAE 2026-2032, n. 18).
São sinais positivos: o encontro dominical para as celebrações; as experiências da Iniciação à vida cristã; engajamento de cristãos leigos e leigas em diversos âmbitos; valor da piedade popular; testemunho dos ministros ordenados. São sinais de esperança, de crescimento das relações, de solidariedade, com avanços e o surgimento de novas oportunidade de evangelizar.
São sinais negativos, tantas situações de sofrimentos, de desigualdades, de violências, de indiferenças, de exclusões e cries que ferem a vida e a dignidade das pessoas.
- Discernimento para uma Igreja Sinodal
São três as vias propostas para o discernimento em vista do firmar as estacas da tenda: a comunhão, a participação e a missão.
“A sinodalidade é a concretização da eclesiologia da comunhão afirmada pelo Concílio Vaticano II, pois indica o específico modus vivendi e operandi da Igreja povo de Deus que manifesta e realiza concretamente o ser comunhão no caminhar juntos”. (DGAE 2026-2032, n. 43).
- Povo de Deus em missão
Como Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, com o desejo de construir a comunhão, a participação e realizar efetivamente a missão, devemos responder às realidades positivas e negativas a partir de Jesus Cristo, que encontramos nas Sagradas Escrituras.
Somos sujeitos e destinatários da missão: o laicato e os ministérios por eles desenvolvidos; as famílias, crianças e adolescentes, jovens, as mulheres, pessoas com deficiência e neurodivergência, idosos, a vida consagrada, ministros ordenados e os povos indígenas.
- Caminhos da missão
Concretizar a missão, esse é o objetivo. Impulsionados pelo Espírito, como uma Igreja sinodal em saída, caminhamos juntos para anunciar o evangelho e transformar as realidades. Os caminhos da missão convidam-nos a articulação das dimensões essenciais da vida cristã: a espiritualidade, a formação, a liturgia e o compromisso social. “São modos concretos de armar a tenda no tempo presente, para que nela encontrem lugar, sentido e envio: Animação Bíblica da Pastoral; Iniciação à Vida Cristã; Comunidade de discípulos missionários; liturgia e piedade popular e serviço à vida plena para todos (com três vertentes: evangélica opção preferencial pelos pobres, a promoção, defesa e cuidado da vida e ecologia integral). Nas diretrizes, encontraremos os indicativos pastorais para cada um destes caminhos da missão.
- Compromissos sinodais.
“A Igreja é chamada a firmar suas estacas na conversão e a reordenar seus espaços para melhor servir à missão. Nela, as relações são curadas, para gerar comunhão; os processos são purificados, para favorecer a participação; e os vínculos são alargados, para tecer a fraternidade que ultrapassa fronteiras”. (DGAE 2026-2032, n. 161).
As diretrizes propõem trabalhar a conversão em três realidades: das relações, dos processos e dos vínculos.
Conversão das relações: “A capacidade de refazer as relações começa pela busca de uma espiritualidade de escuta. É necessário que cada um, como membro do sujeito comunitário, que é a Igreja, abra-se à escuta de Deus, na Palavra e nos Sacramentos, ao mesmo tempo que escuta a voz do Espírito, o qual guia a Igreja falando também por meio da comunidade de fiéis, sobretudo no exercício do sensus fidei” (DGAE 2026-2032, n. 166).
Conversão dos processos: “visa garantir o verdadeiro exercício da participação por parte de cada batizado ou batizada. Por isso, exige a renovação dos nossos processos de tomada de decisão, para que sejam cada vez mais abertos e participativos, pautados pela escuta e diálogo fraterno” (DGAE 2026-2032, n. 179).
Conversão dos vínculos: “propõe que a Igreja revise seu enraizamento nas realidades locais. É preciso ouvir essas realidades e discernir, à luz do Espírito, para anunciar o Evangelho a partir das exigências culturais e urbanas, bem como das diferentes particularidades do lugar onde a Igreja está presente (DGAE 2026-2032, n. 193).
- Conclusão
As Diretrizes Gerais da Ação evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032, estão plenamente envolvidas dos sinais de esperança, que semeamos durante o pontificado do Papa Francisco e seguimos agora com o Papa Leão XIV.
O compromisso missionário envolto desta virtude teologal, nos ajudará a “superar o medo, a incerteza e o cansaço que muitos enfrentam diante dos desafios do tempo presente. Somos Peregrinos de Esperança, caminhando rumo ao Reino definitivo” (DGAE 2026-2032, n. 220).
Que o Espírito Santo conduza os passos de nossas dioceses em vista da aplicação e concretização das pistas pastorais propostos pelos sucessores legítimos dos apóstolos, os bispos, reunidos em assembleia.
[1] Uma síntese histórica desses passos pode ser encontrada no link: https://www.cnbb.org.br/7-passos-construcao-diretrizes-gerais-acao-evangelizadora-2026-2032/
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