A vivência litúrgica de Santa Teresa do Menino Jesus
Dedico a quem descobriu Teresinha como uma amiga próxima e afetuosa...
30.09.2026 - 10:39:00 | 14 minutos de leitura

Davi Maria Santos, O.Carm[1]
Na vida da Igreja...
Muitos santos acabam se “destacando” um tanto mais que outros pelo modo como viveram, pelo que fizeram e, sobretudo, pela simpatia que despertam no coração do povo de Deus. Dentre os diversos santos que podemos elencar, a mística carmelita Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, popularmente conhecida como Santa Teresinha, possui um lugar privilegiado na vida do povo. Teresinha é sempre associada às rosas, e esse “fenômeno” não pode ser negado. Entretanto, muito mais que uma santa das rosas, ela é uma das grandes catequistas do amor misericordioso. Talvez seja justamente isso que atraia tantas pessoas a Jesus Cristo por meio do amor e da devoção a essa Santa.
Sua vida passou rapidamente: apenas 24 anos, sem feitos grandiosos, sem experiências extraordinárias, sem grandes realizações. Teresinha é a santa da simplicidade e do ordinário, dos pequenos que desejam chegar as “alturas” celestes. Sua vida foi a irradiação mais profunda da ternura amorosa de Deus. Relembrar ao mundo o amor como via para chegar a Deus e anunciar um Deus que nos ama infinitamente foi, talvez, o maior feito do Espírito Santo na vida de Teresinha.
Teresa do Menino Jesus foi uma das santas que relembrou ao mundo a misericórdia de Deus, numa época em que se desenvolveu mais o pensamento sobre um Deus juiz do que sobre um Pai Amoroso. Por isso, sua vida é como uma grande pregação do amor salvífico do Ressuscitado. Em seus escritos, não encontramos uma teologia litúrgica desenvolvida; contudo, não se pode negar que a Liturgia esteve sempre presente em sua vida, guiou seus passos e influenciou seu modo de pensar e de viver o amor a Deus. A prova disso é que, em suas obras, podemos encontrar a forte presença da Eucaristia e da Palavra de Deus, assim como um itinerário espiritual vivido a partir da celebração do Ano Litúrgico.
Uma verdade que não podemos esquecer é que todos os santos foram homens e mulheres da Liturgia, ou seja, deixaram-se plasmar por Aquele que se torna presente em cada Eucaristia e assim se tornaram pessoas eucaristizadas e com um olhar e vida eucaristizadora. Os santos viveram uma Liturgia real, isto é, rezando aquilo que viviam e vivendo o Mistério que os abraçava em cada Eucaristia. Com Teresinha do Menino Jesus não foi diferente. O Mistério da Páscoa, celebrado em cada Liturgia, plasmou sua vida, suas ações e fez dela uma das santas mais queridas, amadas e próximas da vida do povo sacerdotal.
- Sua vivência litúrgica...
É profundamente ativa e eclesial, pelo fato de que sua vida espiritual se encontra vinculada ao amor misericordioso de Deus. Não obstante o fato de Teresinha não ter escrito uma reflexão diretamente sobre a Liturgia, podemos encontrar, em sua autobiografia, nas suas cartas, assim como nas poesias, orações e manuscritos, uma profunda piedade alimentada pela Eucaristia, pela Escritura e pelo Ano Litúrgico, que em sua vida, um verdadeiro itinerário espiritual.
A Liturgia constitui, em sua vida de fé, um importante horizonte que nos ajuda a compreender como se desenvolveu sua relação com Jesus Cristo e, consequentemente, sua progressiva configuração com o Mistério Pascal, tão presente em sua vida, de modo especial em seus últimos anos de vida terrena.
Na espiritualidade que Teresinha desenvolve a partir do Carmelo, a Liturgia não pode jamais ser compreendida apenas como prática devocional ou como conjunto de rubricas. Ela se apresenta como espaço no qual o Mistério de Cristo Jesus é presentificado, ou seja, celebrado na vida, acolhido no coração e vivenciado nas ações. Assim sendo, a pequena via que nossa Santa nos aponta possui seu fundamento mais profundo na confiança, no abandono e no amor, e encontra, na Liturgia, o Deus Pai que, no Filho Jesus, oferece-se a cada homem e a cada mulher mediante a abertura do coração.
A Liturgia, que é ação de Jesus Cristo[2] na vida da Igreja, é a grande escola da experiência cristã daquela que se tornou Doutora da Igreja. Teresinha viveu numa época em que a Igreja começava a despertar para uma outra visão sobre a Liturgia por meio do Movimento Litúrgico, muito embora não tenha pertencido a tal movimento eclesial. Por isso, as celebrações e festas, a participação na Eucaristia e a oração em comum constituíam parte integrante de sua experiência cristã. Assim, não temos dúvidas de que sua espiritualidade não nasceu à margem, de maneira isolada, mas dentro da tradição viva da Igreja, e a Liturgia tornou-se, para ela, um lugar por excelência de encontro com Jesus Cristo.
Essa visão é fundamental para compreender sua espiritualidade. Teresinha não se limitava a cumprir práticas religiosas e piedosas; antes de tudo, desejava encontrar Jesus e corresponder ao seu amor. Desse modo, a Liturgia adquire uma dimensão profundamente relacional. O centro não está na ação exterior em si mesma, mas no Mistério de Jesus Cristo que nela se manifesta.
Tal compreensão une-se ao modo como o Concílio Vaticano II compreende a Liturgia. A Sacrosanctum Concilium afirma que a Sagrada Liturgia é a primeira e necessária fonte da qual os fiéis devem haurir o verdadeiro espírito cristão[3]. Por isso mesmo, a participação litúrgica possui uma finalidade performativa, ou seja, conduzir a pessoa a uma vida configurada com o Ressuscitado.
- Sua vivência eucarística...
Sua vivência eucarística nos leva a compreender que a Eucaristia é o lugar por excelência do encontro com Cristo; por isso, ela ocupa um lugar central em sua experiência de fé. Sua Primeira Comunhão é vivida como um acontecimento de profunda intimidade com Jesus Cristo. Na Eucaristia, Teresa encontra Jesus que se faz pequeno e frágil e se entrega por amor. Essa lógica do dom possui profunda afinidade com sua espiritualidade. O Deus que se oferece na Eucaristia é o mesmo em quem ela se lança confiantemente.
Assim, a comunhão eucarística não produzia apenas sentimentos religiosos em seu coração, mas, antes, unia-a a Jesus Cristo de tal maneira que isso se tornava visível em suas atitudes diárias, desde aquelas mais pequeninas até as que demandavam maior esforço de sua parte.
Quando Teresa do Menino Jesus celebra sua primeira comunhão, ela se torna uma “Eucaristia” viva na vida de seus familiares e depois de suas irmãs no Carmelo. Sem esse amor profundo por Jesus Eucarístico, sua vida não teria sido tão fértil, e sua espiritualidade, desenvolvida a partir da mística carmelita, não teria se tornado tão fecunda como vemos em nossos dias.
Por isso, sua via só pode ser verdadeiramente compreendida à luz da Eucaristia: receber e oferecer. O cristão recebe o dom de Deus e, transformado por esse dom, aprende a oferecer-se ao mesmo Deus. Tal perspectiva encontra sua expressão mais madura no Ato de Oferecimento ao Amor Misericordioso, que nossa Santa compôs em 1895 e que viveu em toda a sua existência.
O oferecimento de si não pode constituir uma realidade separada da vida litúrgica. É justamente o contrário: manifesta existencialmente aquilo que a Liturgia realiza de modo sacramental. A pessoa é introduzida no Mistério do Amor de Jesus Cristo e, dessa maneira, é chamada a participar dele com toda a sua existência. A Eucaristia torna-se, assim, a grande escola de amor que forja e forma aquela que será a grande catequista e mistagoga do amor misericordioso de Deus Pai.
Teresinha compreende, então, que não basta simplesmente receber Jesus na Espécie Sagrada, mas é necessário deixar que esse encontro transforme o seu modo de viver, de relacionar-se e de amar.
Por isso, sua intimidade com a Eucaristia nasce desde cedo e se intensifica no Carmelo, haja vista que o centro da vida carmelita é o “obsequium Iesu Christi” — o obséquio de Jesus Cristo — (Regra do Carmo, n. 2), ou seja, a amizade com o Senhor, que, sem um profundo amor e vivência eucarística, torna-se impossível.
Para nossa Santa, a Eucaristia é a expressão mais profunda do amor. Nela, o próprio Cristo Jesus se oferece e se entrega por todos nós. Para ela, a Eucaristia é encontro transformante. Assim, ao receber Jesus em seu coração, Teresinha responde entregando-se confiantemente ao amor misericordioso d’Aquele de quem foi fiel mensageira.
- Sua vivência com a Palavra de Deus...
Sua vivência com a Palavra de Deus merece especial atenção. Em seus escritos, podem ser encontradas numerosas referências bíblicas, especialmente aos Evangelhos onde sua alma encontrava tudo aquilo que necessitava. Nos últimos anos de sua vida, a Palavra de Deus tornou-se uma fonte ainda mais abundante e importante para sua oração e para sua compreensão do Mistério de Deus. Ela mesma afirma que, “um só olhar ao Santo Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr” (Manuscrito C, v: 36).
Teresinha não se aproxima da Escritura como objeto de estudo em nível meramente intelectual. Sua aproximação é particularmente orante. Ela busca na Palavra de Deus, de maneira especial no Evangelho as respostas para sua própria experiência de fé. Sobre essa experiência, o papa Bento XVI afirmava que,
No Evangelho, Teresa descobre sobretudo a Misericórdia de Jesus, a ponto de afirmar: “A mim Ele deu a sua Misericórdia infinita, através dela contemplo e adoro as outras perfeições divinas! (…) Então todas me parecem resplandecentes de amor, a própria Justiça (e talvez ainda mais do que qualquer outra) me parece revestida de amor”.
Por isso, a Sagrada Escritura, para Teresinha, não permanece no nível de uma escuta exterior e vazia. Ela, antes, encarna-se no cotidiano. Nesse sentido, sua espiritualidade oferece uma importante contribuição para compreender a função formativa da Liturgia da Palavra, pois a proclamação litúrgica alcança sua finalidade quando a Palavra escutada conduz à conversão e à transformação da existência por amor ao Verbo comunicado.
A Sacrosanctum Concilium estabelece uma relação inseparável entre Palavra e Liturgia, afirmando que Cristo está presente na sua Palavra, “pois é ele quem fala quando se lê a Sagrada Escritura na Igreja” (n. 7). A experiência vivida por Teresinha nos ajuda a perceber e compreender a dimensão existencial dessa afirmação conciliar. Escutar a Palavra significa deixar-se alcançar por Aquele que se comunica, ou seja, pelo próprio Cristo. A Liturgia da Palavra não é simplesmente uma introdução à Liturgia Eucarística; ela é acontecimento e lugar no qual Deus fala ao seu povo.
Assim sendo, a Palavra de Deus, tornou-se para Teresa caminho de encontro com a misericórdia divina. Nela, nossa santa contempla claramente o Mistério de sua salvação e de sua santificação. Por isso, a aceitação de seus limites e pequenez torna-se uma abundante fonte onde pode se encontrar com Jesus que não a despreza, mas antes a recebe em seu coração.
- Sua vivência do Ano Litúrgico...
Sua vivência do Ano Litúrgico nos conduz a um aspecto bastante significativo de sua vida espiritual. Muito embora ela não tenha falado diretamente sobre ele, procurou sempre viver as celebrações dos Mistérios do Senhor para, assim, unir-se mais a Jesus. Natal, Páscoa, Pentecostes, festas marianas e celebrações dos santos não eram meras celebrações para ela. O Ano Litúrgico exercia, em sua vida, uma verdadeira pedagogia espiritual.
De maneira especial, o Mistério do Natal, pois a contemplação de Jesus Menino encontra-se no centro de sua espiritualidade. Deus, que se manifesta na fragilidade e na pequenez de uma criança, revela-lhe uma verdade fundamental: o caminho para Deus não passa necessariamente por grandes realizações, mas, sobretudo, pela confiança humilde daquele que se reconhece pequeno diante do Pai.
Aqui se encontra uma das chaves para compreender a relação entre Liturgia e pequena via. O Ano Litúrgico conduz o cristão ao encontro com o Mistério de Cristo e, simultaneamente, configura sua existência a esse Mistério. O calendário litúrgico não recorda simplesmente acontecimentos passados, mas introduz a comunidade sacerdotal no Mistério da Salvação. E a pequena via que Teresa nos aponta é sobretudo um caminho de configuração ao Cristo Jesus.
Em Teresinha, essa dinâmica aparece de forma particularmente existencial: contemplar Cristo significa aprender a viver como Cristo, visto que tanto o Ano Litúrgico como a pequena via têm como centro o próprio Jesus Cristo presente entre nós[4].
Interioridade e participação são aspectos presentes tanto na Sacrosanctum Concilium como na pequena via. Sem interioridade, a relação com Deus torna-se vazia em qualquer situação; assim também, sem a participação como resposta ao amor de Deus, a vida espiritual torna-se fraca e murcha.
Contudo, a participação não pode ser reduzida à realização de funções externas, nem a interioridade pode ser reduzida ao estaticismo. Existe uma participação interior que permite à pessoa entrar verdadeiramente ao Mistério celebrado. Essa perspectiva possui grande atualidade diante da afirmação conciliar sobre uma participação que plena, verdadeiramente consciente e profundamente ativa, como movimento do Espírito na vida dos fiéis[5].
A participação ativa, compreendida adequadamente, não significa simplesmente fazer alguma coisa durante a celebração. A Liturgia exige uma participação integral da pessoa: corpo, inteligência, afetos, vontade e espírito. Teresinha demonstra isso por meio de uma espiritualidade profundamente interior. Sua oração é marcada pelo silêncio, pela confiança e pelo abandono. Mesmo quando experimenta dificuldades, distrações e aridez, ela permanece diante de Deus como tudo aquilo que ela é.
Nesse sentido, sua experiência pode ser compreendida como uma verdadeira pedagogia litúrgica da interioridade. A celebração cristã não termina quando cessam os ritos; ela deve, antes, continuar no coração e na existência daquele que celebrou.
A Liturgia educa para o silêncio porque conduz ao encontro com o Mistério. Educa para a escuta porque coloca a pessoa diante da Palavra. Educa para a entrega porque torna presente sacramentalmente a oferta de Cristo. O altar e a vida se unem e tornam a existência uma oferenda de amor. Por isso, um dos aspectos mais fecundos da espiritualidade de Teresinha é a compreensão de sua própria vida como oferta de amor ao Amor misericordioso.
Por conseguinte...
A Liturgia celebra e presentifica sacramentalmente o Mistério da entrega de Cristo. A vida cristã, por sua vez, é chamada a tornar-se participação nessa entrega, para ser Páscoa. Por isso, pode-se estabelecer uma relação entre o altar e a existência. O que é celebrado no altar deve encontrar continuidade na vida, visto que o cristão que participa da Eucaristia é chamado a transformar sua existência em uma oferta de amor.
Em Teresinha, essa lógica aparece de modo extraordinariamente concreto. Ela não busca realizar grandes obras aos olhos humanos. Seu caminho consiste em transformar as pequenas ações cotidianas em atos de amor. A pequena via, nesse sentido, possui uma estrutura profundamente litúrgica: acolher o dom, adentrar no Mistério, oferecer-se e retornar à vida para amar.
Sua espiritualidade nos permite compreender que a Liturgia não se reduz ao momento ritual. O que acontece na celebração é chamado a prolongar-se na existência. Por isso, a pessoa que escuta a Palavra é chamada a encarná-la; aquele que recebe Cristo na Eucaristia é chamado a tornar-se dom; aquele que celebra a Páscoa é chamado a configurar sua vida ao Cristo Ressuscitado.
Assim sendo, Santa Teresinha pode ser apresentada como testemunha de uma Liturgia existencial: uma Liturgia que ultrapassa os limites do espaço celebrativo sem abandonar sua fonte sacramental. O altar e a vida encontram-se na oferta como dom. Celebrar é entrar no Mistério e deixar-se transformar, fazendo da própria vida uma oferta de amor.
Dessa maneira, a espiritualidade de Santa Teresinha confirma uma das grandes intuições da renovação litúrgica: a Liturgia é fonte e cume da vida cristã, não porque encerra o cristão no espaço da celebração, mas porque o introduz no Mistério de Cristo Jesus e o envia novamente à vida para testemunhar aquilo que celebrou.
Referências
Bento XVI. Catequese sobre Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face. Disponível em: https://bibliotecacatolica.com.br/blog/formacao/catequese-de-bento-xvi-sobre-teresinha/?srsltid=AU7gw4V0UkFPyMqfkWi4Wqqe2Vwk4tRG541jTLTss1BE-YMFkmDwsP55. Acesso em: 30/09/2026.
SC – Constituição Dogmática SACROSANCTUM CONCILIUM. In: CORDEIRO, José de Leão (Org.). Enquirídio dos Documentos da Reforma Litúrgica. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2014.
Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face. Manuscrito C: In: Obras Completas. São Paulo: Edições Loyola, 1997.
Pio XII, Mediator Dei. Lettera enciclica sulla Liturgia. Milano: Paoline, 1997.
[1]Licenciado em Filosofia e graduado em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil e da Academia Marial de Aparecida.
[2] Cf. SC, n. 7
[3] Cf. SC, n. 7
[4] Cf. Pio XII, Mediator Dei, 1997.
[5] Cf. SC, n. 14.
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