A memória e a imitação na celebração eucarística
Prática litúrgica e evidências teológicas
20.10.2026 - 09:35:00 | 7 minutos de leitura

Andrea Grillo
Pela segunda vez, em poucos meses, participei de uma celebração eucarística dominical na qual o presbítero - que não era o celebrante habitual, mas um missionário visitante -, ao pronunciar as palavras referentes ao pão, partiu-o enquanto dizia “o partiu”, prosseguindo depois com “o deu a seus discípulos e disse”.
É possível compreender a razão dessa prática: alinhar, tanto quanto possível, “palavras e gestos”. Se o relato sobre Jesus diz “tomou o pão… e o partiu”, então aquele que preside, para ser fiel ao texto, considera que deve realizar os mesmos gestos de Jesus.
A memória e a imitação
Esse modo de celebrar não está desprovido de raízes. De fato, encontra sua possível legitimação na atenção exclusiva que os últimos mil anos da história ocidental reservaram, na missa, ao momento das “palavras sobre o pão” e das “palavras sobre o cálice”, denominando-as “consagração”.
Todo um conjunto de recursos destinados a concentrar a atenção - a mudança no tom de voz, o toque dos sinos, o uso do incenso, a assembleia de joelhos e, às vezes, até mesmo o acompanhamento sonoro - contribui para fazer pensar que esse seja o momento de maior proximidade entre o Senhor e a Igreja. Se assim fosse, seria perfeitamente compreensível que, nesse momento, se procurasse aproximar ao máximo a palavra da ação e que se desejasse realizar tudo aquilo que Jesus fez.
Essa perspectiva, porém, esquece que a celebração eucarística é muito mais complexa e rica do que aquilo que chamamos de “consagração”. A força dessa convicção é tão grande que até mesmo aqueles que observam a missa “de fora” são levados a acreditar que tudo se concentra naqueles minutos em que o presbítero pronuncia as palavras sobre o pão e o cálice. Até mesmo C. G. Jung, ao escrever “O simbolismo da missa”, partiu de uma interpretação da missa como “rito de transformação”, examinando exclusivamente esse momento.
Uma verdade maior
Na realidade, há pelo menos um século e, antes disso, durante todos os oito séculos que se seguiram às origens, conhecemos, ou deveríamos conhecer, uma verdade maior, que o rito continuou a custodiar, mesmo quando não nos damos conta disso. Se lermos atentamente o rito da missa, veremos que a “memória do Senhor” se desenvolve em dois níveis distintos, que implicam também uma “imitação” entendida como “nova experiência”.
Para compreender bem essa questão, precisamos partir justamente da sequência das ações de Jesus, que repetimos em cada celebração eucarística, tanto narrativamente quanto ritualmente: de um lado, narramos, em ordem, as ações de Jesus; de outro, repetimos, também em ordem, essas mesmas ações.
A primeira observação a fazer é que não existe sincronia entre o relato e a imitação. O relato está inteiramente concentrado em um único momento, enquanto a imitação se estende por toda a celebração eucarística.
Comecemos pelo relato: encontramo-lo enunciado antes das “palavras sobre o pão e o cálice”. Aquele que preside diz: “Ele tomou o pão, deu graças, partiu-o, deu-o a seus discípulos e disse”. A mesma sequência, sem a fração do pão, é depois referida ao cálice.
Essa “introdução” às palavras “Tomai, todos, e comei…” e “Tomai, todos, e bebei…” constitui o relato da instituição da Eucaristia. Aqui, trata-se de narrar, não de fazer. O fazer encontra-se em outro nível: o da imitação, que só pode ser percebido quando ampliamos nosso olhar.
Um zoom out: ampliar o olhar
É como acontece nos filmes, quando a câmera amplia o campo de visão, realizando um zoom out. Tentemos fazer juntos esse zoom out, essa ampliação do olhar, acompanhando a mesma sequência de ações:
- Tomou o pão: o rito da apresentação das oferendas é o desenvolvimento ritual do primeiro gesto de Jesus.
- Deu graças: a Oração Eucarística, desde o diálogo inicial que nos convida a elevar os corações até a doxologia “Por Cristo, com Cristo e em Cristo”, constitui uma extraordinária ampliação do “deu graças” de Jesus. É dentro dessa oração que fazemos memória daquilo que ele próprio realizou.
- Partiu-o: corresponde à fração do pão, que acontece imediatamente depois do Pai-Nosso, durante o rito da fração do pão.
- Deu-o: corresponde ao rito da Comunhão, que sucede à fração do pão.
- E disse: “Isto é o meu corpo” corresponde às palavras pronunciadas pelo ministro que distribui a Comunhão: “O Corpo de Cristo”.
Esse segundo nível talvez surpreenda muitas pessoas, pois relê todas essas ações a partir de uma perspectiva diferente e reduz a “pretensão” que dirigimos àquele momento que, de maneira imprópria, definimos como consagração. Quando ampliamos o campo de visão, como sempre acontece, diminuímos a concentração da atenção em um único ponto.
Na realidade, trata-se de um solene ato de memória, que acontece no interior da Oração Eucarística. Enquanto dá graças, a Igreja recorda o gesto que instituiu sua relação com o Senhor. Não há necessidade de “imitar” naquele momento: basta recordar por meio de uma memória solene.
Partir o pão e distribuí-lo a todos é algo que acontece não durante a Oração Eucarística, mas somente depois que ela termina. Jesus também não partiu o pão nem o distribuiu antes de concluir sua ação de graças.
O “não dito” de um gesto
Eis, então, que o gesto antecipado da fração do pão, realizado com a pretensão de estabelecer uma relação “direta” com o Senhor e introduzindo uma variante na prática habitual da Igreja, decorre de um duplo equívoco:
a) Não distingue entre memória e imitação. O relato não constitui a plenitude da ação. Isso, porém, nos ajuda a compreender que todo o momento das “palavras sobre o pão e o cálice” se situa mais no plano da memória do que no plano da ação; mais no plano da oração do que no plano do rito.
b) Ao antecipar a fração do pão em relação à sua imitação ritual, confirma a ideia de que a Eucaristia se concentra inteiramente na consagração. Desse modo, perde-se o sentido da “sequência ritual”, cujo ponto culminante não são as palavras da instituição, mas a sucessão de ações que, depois da oração, chega à fração do pão e à Comunhão. É nesse momento que a expressão “Corpo de Cristo” é pronunciada não apenas sobre o pão e o vinho, mas também sobre os homens e as mulheres que deles se alimentam.
Ao ampliar o campo de visão, reduzimos as expectativas concentradas em um único ponto do rito e devolvemos à sucessão das ações toda a sua força e seu objetivo mais profundo: constituir o Corpo de Cristo eclesial.
Um simples gesto antecipado revela uma teologia eucarística e uma eclesiologia sobre as quais o rito, em sua força originária, tem algo a dizer a todos: tanto àqueles que desejam ser originais, e não o são, quanto àqueles que repetem escrupulosamente o que está prescrito, mas frequentemente ignoram seu significado mais profundo.
Uma “ampliação do campo de visão” permite descobrir significados quase inauditos nas práticas seculares por meio das quais a Igreja permanece fiel ao seu Senhor. Permite também compreender que “isto é o meu Corpo” não se refere, antes de tudo, a substâncias ou essências, mas diz respeito a existências e relações.
Artigo publicado em: Uno “zoom out” sul pane spezzato. Pratica liturgica ed evidenze teologiche
Tradução: ChatGPT
