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A crise da Ars Celebrandi e a perda da linguagem simbólica da liturgia

Cada vez mais, os textos de especialistas da área litúrgico-celebrativa se voltam à questão da ars celebrandi. A preocupação devotada a esse aspecto fundamental da liturgia se dá pela má formação e, decorrente disso, pela realização custosa da gestualidade e da ação simbólica dos ritos previstos a serem realizados por parte dos ministros na celebração.

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05.06.2026 - 10:26:00 | 6 minutos de leitura

A crise da Ars Celebrandi e a perda da linguagem simbólica da liturgia

A CRISE DA ARS CELEBRANDI E A PERDA DA LINGUAGEM SIMBÓLICA DA LITURGIA

Uma análise sobre os gestos e as palavras utilizadas na Sagrada Liturgia

 

Victor Kawan dos Santos

Seminarista da Diocese de Taubaté-SP

 

Cada vez mais, os textos de especialistas da área litúrgico-celebrativa se voltam à questão da ars celebrandi. A preocupação devotada a esse aspecto fundamental da liturgia se dá pela má formação e, decorrente disso, pela realização custosa da gestualidade e da ação simbólica dos ritos previstos a serem realizados por parte dos ministros na celebração. 

Nota-se, principalmente, uma certa valorização pela “simplificação” dos ritos que não corresponde ao princípio de simplificação desejado pela Sacrossanctum Concilium (n. 50). No fundo, não se busca a simplicidade, mas a praticidade e a rapidez das celebrações, justificando tal ato em nome de uma “participação ativa, frutuosa, consciente e plena” da assembleia, que está imersa num contexto cultural marcado pela superficialidade, imediatismo e um demasiado sentimentalismo. 

Nesse sentido, tanto a pseudo-simplificação do rito como a pseudo-participação da assembleia são manifestadas no modo como o presidente da celebração conduz o ato de culto. As palavras, recheadas de arabescos linguísticos a fim de gerar sensações de conforto e bem-estar nos ouvintes, com o intuito de fazê-los saírem “mais leves” do que entraram, não são capazes de transmitir a Verdade que transforma e liberta; do mesmo modo, os gestos, quando realizados, são executados de maneira precipitada, isso quando não são simplesmente omitidos. Por outro lado, também se verifica o extremo oposto: uma gestualidade espetacularizada, na qual a atenção não se volta para Cristo, o liturgo por excelência.

À primeira vista, tais problemas podem parecer simplesmente questões ligadas à sensibilidade pastoral ou à observância das normas litúrgicas. No entanto, a natureza deste problema é outra. A crise da ars celebrandi é, em última análise, uma crise da compreensão da linguagem simbólica da liturgia. Pois, quando os gestos e palavras rituais deixam de ser reconhecidos como expressão do mistério celebrado, enfraquece-se também a percepção da catolicidade da própria celebração. 

Não faltarão aqueles que questionem: fazer ou não os gestos, dizer ou não dizer as palavras rituais. O que isso muda? Muda tudo! O problema está precisamente ligado à ruptura do sentido de catolicidade da celebração, pois tanto os fiéis quanto os ministros, independentemente do lugar onde estejam, devem reconhecer aquilo que está sendo celebrado, especialmente quem preside, sendo a cumprir a lex orandi, expressão da lex credendi da Igreja, guardando-a e transmitindo-a fielmente (cf. 1Cor 11,23-29). Em virtude disso, as palavras e os gestos desempenham um papel indispensável na comunicação sacramental, visto que o próprio Cristo se comunicou desta maneira (SC, n. 48)[1].

O que está em jogo não é um apego formal aos ritos e uma preocupação meramente estética, mas a compreensão de que os gestos e palavras correspondem diretamente à lógica da Encarnação. Deus mesmo quis comunicar sua salvação de modo “sacramental”. Assumindo a condição humana em tudo, menos no pecado, o Verbo fez de sua própria humanidade o lugar privilegiado da comunicação da graça divina. Por essa razão, os gestos rituais não são secundários ou recursos pedagógicos, e sim elementos constitutivos da sagrada liturgia. É precisamente nesse contexto que Romano Guardini desenvolve a noção de estilo litúrgico, ou seja, a Liturgia possui um modo próprio de ser, uma forma própria de expressão e uma lógica interna que não pode ser reduzida aos critérios de utilidade, eficiência ou emotividade. Àqueles que não penetram a profundidade do mistério celebrado, a linguagem litúrgica poderá parecer seca e vazia. 

O que fazer, então, para sanar essa necessidade de transmitir com fidelidade aquilo que nos foi legado? Certamente não criando ritos paralelos a bel-prazer dos ministros (SC, n. 22; SCC, n. 40), mas permanecendo fiéis ao que a Igreja promulga como fonte segura para as celebrações: o Missal, os Pontificais, os Rituais e os demais livros litúrgicos.

Frente a isso, mais uma vez se manifestam os extremos: de um lado, aqueles que exercem uma “criatividade selvagem”, desconsiderando as rubricas estabelecidas pela Igreja; de outro, aqueles que observam rigorosamente as rubricas, mas ignoram a realidade concreta da assembleia e do contexto celebrativo. A tradição filosófica já reconhecia que a virtude consiste em evitar tanto o excesso quanto a deficiência: a virtude manifesta-se precisamente na justa medida. Assim, torna-se necessário buscar um equilíbrio prudente entre a fidelidade ritual, a realidade local e o bom senso pastoral (DD, n. 48-54).

Como o próprio nome diz, a ars celebrandi é uma arte que precisa ser desenvolvida, o que só se realiza com a técnica correta e com um certo tempo de prática, “pois é precisamente esse modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes” (SCC, n. 38). Claro, a ars celebrandi, não se restringe ao ministro que preside, mas se estende a todos os fiéis mediante seus gestos, posturas e aclamações. Faz-se oportuno recordar as palavras do grande teólogo e incentivador do movimento litúrgico no século XX, Romano Guardini, que diz: “Não é a amplidão expressiva dos gestos nem a força das palavras que nos importa aqui, como se estivéssemos diante de um palco, mas, por meio disto, é nossa alma real que se aproxima um pouco do Deus real, na mais grave e mais íntima questão de nossa vida”.

Desse modo, os gestos e palavras, quando celebrados segundo sua verdade ritual, ultrapassam uma simples função disciplinar, sendo eles expressão da sacramentalidade e unidade da Igreja. As celebrações realizadas conforme as normas estabelecidas tornam visível a comunhão eclesial nas mais diversas culturas, tempos e lugares, uma vez que não se opõem à criatividade, mas são a manifestação concreta da catolicidade da Igreja. Portanto, a ars celebrandi não se reduz à simples observância exterior das rubricas, mas consiste na capacidade de deixar que a linguagem simbólica revele o Cristo presente e atuante na Igreja. 

 

 

 

 

 


 

[1] Ver também: Mc 7,33; Jo 9,6; Lc 22,19.

Fonte Victor Kawan dos Santos - Seminarista da Diocese de Taubaté-SP
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