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A Liturgia nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032

Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), elaborou uma sequência de planos pastorais que procuraram traduzir as orientações conciliares para a realidade brasileira. Embora a nomenclatura tenha mudado ao longo do tempo (Plano, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral ou Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora), existe uma continuidade muito clara, que conduz os planos das Igrejas Particulares.

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13.07.2026 - 22:20:00 | 8 minutos de leitura

A Liturgia nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032

Pe. Kleber Rodrigues da Silva*

 

Desde o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), elaborou uma sequência de planos pastorais que procuraram traduzir as orientações conciliares para a realidade brasileira. Embora a nomenclatura tenha mudado ao longo do tempo (Plano, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral ou Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora), existe uma continuidade muito clara, que conduz os planos das Igrejas Particulares.

 

Na 62ª Assembleia Geral da CNBB, realizada entre os dias 15 e 24 de abril de 2026, em Aparecida - SP, os bispos aprovaram as novas diretrizes gerais da ação evangelizadora, ampliando, inclusive, seu período de validade, para seis anos.

 

Dentro do contexto do Sínodo sobre a Sinodalidade, dos primeiros passos do pontificado do Papa Leão XIV, as diretrizes apontam essencialmente para um caminho de conversão das relações, dos processos e dos vínculos, através da escuta atenta dos sinais, realizando seu discernimento com o espírito sinodal, percorrendo os cinco caminhos da missão, para tornar cada vez mais a ação da igreja associada à tenda do encontro, que se alarga para acolher a todos.

 

Assim, a Igreja no Brasil estabelece como objetivo geral: "Evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja Sinodal, sustentada pela Palavra e pelos sacramentos, em comunidade de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino".

 

No desejo de percorrer os caminhos da missão, as diretrizes propõem cinco "modos concretos de armar a tenda no tempo presente, para que nela todos encontrem lugar, sentido e envio: 1. Animação Bíblica da Pastoral; 2. Iniciação à vida cristã; 3. Comunidade de discípulos missionários; 4. Liturgia e piedade popular e 5. Serviço à vida plena" (DGAE 2026-2032, n. 104).

 

Diante da proposta de perceber os elementos da liturgia no contexto das novas diretrizes, poderíamos ter a leve tentação de querer reduzi-la apenas ao quarto modo, no entanto, é evidente que existem nos cinco modos elementos constitutivos da liturgia, a partir da Palavra, nos âmbitos dos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia, da vida e dos encontros comunitários, na piedade popular e como fruto, o serviço à vida plena.

 

O caminho litúrgico é perceptível no primeiro modo, como uma expressão da afirmativa presente na Introdução ao Elenco das Leituras da Missa: "A Igreja cresce e se edifica ao ouvir a Palavra de Deus" (n. 7). Assim, "a Igreja é ouvinte e servidora da Palavra de Deus, que é o coração de toda a atividade eclesial. Três são os movimentos fundamentais para a vida de fé: a escuta reverente e contínua da Palavra na escritura, a celebração da Palavra, especialmente na liturgia, onde é proclamada e atualizada; e o anúncio da Palavra que vivemos, pois a missão da Igreja nasce no Evangelho e se dirige a todas as pessoas" (Verbum Domini, n. 51) (DGAE 2026-2032, n. 106).

 

A liturgia e a catequese não podem caminhar separadas, cada qual num caminho diferente, elas devem testemunhar o espírito sinodal e caminhar juntas. Neste sentido é que o segundo modo contempla a Iniciação à vida cristã, evidenciando essa relação de proximidade e complementariedade entre estas duas vertentes. Como parte da missão urge o compromisso de compreender o valor da catequese de inspiração catecumenal, para "um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, conjugando o ensino doutrinário com uma experiência de intimidade, amor e amizade. […] Em íntima relação com a liturgia, deve também integrar as demais dimensões eclesiais – diakonia (serviço), martyria (testemunho) e koinonia (comunhão) – para formar discípulos missionários em todas as expressões da vida cristã" (DGAE 2026-2032, n. 111).

 

O terceiro modo demonstra sua relação com a liturgia, quando recordamos que no início de sua atividade pública, em vista da missão, Jesus, mediante um gesto fundacional, constitui a comunidade apostólica. Nos caminhos que o levam a Jerusalém deixa claro a importância da comunidade, como lugar do acolhimento, da pertença, da partilha e da solidariedade. Na última ceia, confia a esta comunidade a tarefa de "fazer isto em memória de mim", que se evidenciará a partir do domingo da Ressurreição. "A iniciação à fé, que nasce do anúncio da Palavra, gera a comunidade e a faz crescer, seguindo a mesma dinâmica que formou o grupo dos discípulos-apóstolos: reunir pessoas em torno da Palavra e da Eucaristia, fortalecê-las na fraternidade e enviá-las como testemunhas do Evangelho no cotidiano" (DGAE 2026-2032, n. 116).

 

O quarto modo para concretizar a missão aponta diretamente para a liturgia e a piedade popular. "Celebrar é fazer memória viva dos grandes feitos do Senhor: cantá-los, recitá-los e atualizá-los sacramentalmente nos ritos e nas orações da Igreja. Nós, cristãos, celebramos o Mistério Pascal de Cristo, sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. Mistério da nossa salvação, na qual somos inseridos pelos sacramentos, em especial os da Iniciação à Vida Cristã (IVC) – Batismo, Crisma e Eucaristia –, para que, passo a passo, possamos progredir na vida de Cristo e na comunhão eclesial" (DGAE 2026-2032, n. 124).

 

A liturgia tem papel importante na ação evangelizadora da Igreja no Brasil, por reunir principalmente na assembleia dominical tantos membros que desejam celebrar aquilo que aprenderam a crer e testemunhar. Na riqueza de nossas comunidades eclesiais, na diversidade dos dons, dos carismas, dos ministérios, a fé encontra na piedade popular um lugar para se expressar. "Essas manifestações brotam dentro do contexto da fé cristã e expressam uma sede de Deus profundamente enraizada no coração dos simples, gerando atitudes de confiança, sacrifício, paciência e solidariedade" (DGAE 2026-2032, n. 127).

 

É preciso cuidado para não criar hiatos entre a liturgia e a piedade popular de modo a ferir as expressões do povo de Deus. Por isso, "a piedade popular, para servir verdadeiramente à evangelização, além de enraizar-se nos símbolos e nos gestos que brotam da fé do povo, precisa inspirar-se na Sagrada Escritura, manter a centralidade de Jesus Cristo, integrar-se ao ritmo da liturgia da Igreja e não se desviar para práticas mágicas ou espiritualidades de mercado e de outras manipulações" (DGAE 2026-2032, n. 130).

 

Por fim, o quinto modo de concretizar a missão evidencia o compromisso com o serviço à vida plena para todos, através da evangélica opção preferencial pelos pobres, na promoção, defesa e cuidado da vida e na Ecologia integral. A liturgia, pela ação santificante do Espírito, constrói no coração de cada batizado um compromisso com a realidade que o cerca. Não celebramos fora de um tempo e desconexos da realidade. "No rosto ferido dos pobres, reconhecemos o próprio sofrimento de Jesus Cristo, e, por isso, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus, sempre atento às necessidades de seus filhos, especialmente dos mais vulneráveis" (DGAE 2026-2032, n. 139).

 

No contexto do diálogo invitatório da Prece Eucarística, rezamos afirmando que o nosso coração está em Deus, que está presente nos pequeninos do Reino, naqueles que encontraram em Jesus Cristo o seu refúgio e salvação.

 

Na Oração Eucarística para as Diversas Circunstâncias IV, rezamos: "Ele sempre se mostrou cheio de misericórdia para com os pequenos e os pobres, os doentes e os pecadores, e se fez próximo dos aflitos e oprimidos. Por sua palavra e ação anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos os vossos filhos e filhas".

A promoção, defesa e cuidado com a vida encontram na liturgia seu lugar, quando daquilo que cremos, celebramos e professamos, evidenciamos que "toda vida humana é sagrada e inviolável, em qualquer estágio em que se encontre, desde a concepção até o seu fim natural". A dinâmica sacramental acompanha o arco da vida, dando a ela sua característica sagrada.

 

No contexto da ecologia integral, a liturgia contribui para o desenvolvimento de uma "espiritualidade que anime o compromisso socioambiental", ensinando os membros da comunidade a celebrar a obra da criação.

 

Desde 2025, temos a oportunidade de utilizar o formulário e as leituras bíblicas para a missa "pela custódia da Criação". Na ocasião de sua promulgação, o Cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, frisou que "a criação não é um tema que se acrescenta, mas está sempre presente na liturgia católica. A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. E quando é celebrada, todo o cosmos dá graças a Deus. O novo formulário, portanto, pretende ser um apoio litúrgico, espiritual e comunitário para o cuidado que todos devemos ter com a natureza, nossa Casa comum".

 

Por fim, percorrer o texto das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032 é contemplar um itinerário litúrgico, catequético, missionário, sustentado pela esperança. "Como tenda habitada por Deus e cuidada pela Mãe do Redentor, a Igreja aprende a acolher, gerar e oferecer a vida. À sua imagem, torna-se espaço fecundo onde a Palavra é vivida, a fé amadurece, a comunidade reúne, a liturgia se celebra e a vida é cuidada com amor" (DGAE 2026-2032, n. 233).

 


 *Padre Kleber Rodrigues da Silva, é presbítero da Diocese de Taubaté-SP, pároco e Reitor do Santuário Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Pindamonhangaba-SP. Membro da Equipe de Reflexão da Comissão Nacional de Liturgia e Assessor de Liturgia do Regional Sul 1 (Estado de São Paulo).

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