RITOS E PRECES: UMA EUCOLOGIA MISTAGÓGICA
Frei Davi Maria Santos, O.Carm*
Introdução
A Liturgia é a porta aberta da presentificação do Mistério Pascal do Ressuscitado. Pelas celebrações litúrgicas a comunidade cristã celebra e vivencia os mistérios da redenção que, embora tenham acontecido no passado, continuam renovando a vida e transformando a existência de cada fiel. Nesse viés, a ação mistagógica da Liturgia abraça os atos da vida conduzindo ao testemunho cristão que cada batizado é chamado a anunciar no mundo.
A mistagogia, na Grécia antiga, era algo referente as religiões de cultos mistéricos, por isso, mistagogo era alguém já introduzido e que conduzia a outros ao mistério. Nos séculos III, IV e V, os Padres da Igreja aproximam da fé o conceito de mistagogia, apontando para Jesus Cristo como o Mistagogo por excelência de Deus que deseja unir as pessoas a Ele através do Mistério de seu nascimento, vida, paixão, morte redentora, ressurreição e ascensão ao céu (cf. Marques, 2023, p.26). Para os primeiros cristãos, a mistagogia é arte de condução ao Mistério do Cristo, Senhor.
Para a Igreja do primeiro milênio, a atividade mistagógica era impossível sem a vida litúrgica. Em verdade, nenhum campo é tão fértil e propício para tal atividade como a Liturgia. E essa última é ação de Jesus Cristo e da Igreja (cf. SC, n.7). Logo, a mistagogia é processo que conduz ao Mistério do amor de Cristo Jesus. Centrando-se sempre na Sagrada Escritura, os Padres da Igreja procuraram conduzir o rebanho a eles confiados, levando seu povo a uma melhor vivência e compreensão da Liturgia, fazendo deste modo com que a Ação Sagrada não fosse apenas um culto que acaba quando terminam os ritos finais sem que haja nenhum compromisso com a vida.
No decorrer dos séculos, o que hoje se conhece por Ano Litúrgico desenvolve-se, sendo enriquecido a cada tempo e lugar, para que assim, o povo sacerdotal melhor celebre o Mistério da Páscoa de Jesus Cristo. Ano Litúrgico, portanto, não é simplesmente um calendário com datas religiosas, apenas, e sim, a continua celebração dos Mistérios de nossa Salvação. Através dele somos conduzidos e educados na fé por Aquele que é o fundamento da vida cristã, Jesus Cristo. Ele, através de sua Igreja, é quem introduz o fiel no Mistério, levando-o a experienciá-lo e viver sempre em seu obséquio.
Os ritos e preces que se fazem presentes nos livros litúrgicos auxiliam na celebração, levando a uma melhor realização do ato celebrativo, visto que esses ritos e preces são eucologias mistagógicas. Vivenciar a mistagogia litúrgica é estar aberto a ritualidade como momento histórico da Salvação de Cristo Jesus que nos alcança (cf. SC, n.5). Nesse sentido, a Liturgia é a fonte da vida espiritual e a moderadora da piedade cristã e popular (cf. Santos; Souza, 2025), ou seja, da Liturgia nasce toda a força de uma vida espiritual autêntica e para a Liturgia deve convergir a piedade do povo de Deus.
A mistagogia do Ano Litúrgico que se faz presente por meio de ritos e preces, é como um dom para a vivência da fé eclesial e necessita ainda mais em nossos dias ser redescoberta, abraçada e vivenciada. Assim, tornar-se-á possível acessarmos os tesouros que conduzem a uma vida de íntima comunhão com o Senhor e com os irmãos.
1- Ano Litúrgico: fonte mistagógica
O Ano Litúrgico, é como uma grande escola de formação mistagógica para todos os cristãos. Partindo sempre do Mistério Pascal de Jesus Cristo, centro e fundamento da vivência eclesial, o Ano Litúrgico celebra os Mistérios da vida de Jesus por meio de ritos e preces, das quais algumas remontam aos primeiros séculos do cristianismo. Por isso, o Ano Litúrgico, se apresenta para a Igreja, comunidade sacerdotal, profética e régia, não como um calendário que custodia datas religiosas, antes, como um verdadeiro dom da Trindade, para nos ajudar a celebrar e viver melhor os Mistérios de Cristo, Senhor.
Assim, o Ano Litúrgico deve ser considerado autenticamente Liturgia, pois nele, os momentos salvíficos da redenção são celebrados pelo corpo místico que é a Igreja. As preces e os ritos possibilitam a quem celebra “tocar” pela fé o Mistério Pascal. Nesse sentido, podemos aplicar ao Ano Litúrgico o axioma/contive do Papa Francisco na Desidério Desideravi, “a formação para a Liturgia e a formação pela Liturgia” (n. 34), ou seja, formar para se viver bem e melhor o Ano Litúrgico. Isso não se trata apenas de um conhecimento de datas ou de rubricas por elas mesmas, mas, sobretudo, formar como uma atividade interior que conduz os fiéis ao encontro com o Ressuscitado. Pois,
A Liturgia – podemos dizer o mesmo do ano litúrgico – é a primeira e a grande escola permanente da fé e da vida espiritual, porque aí a Igreja celebra sempre o mesmo e único Mistério de Cristo. Educar à participação em ordem a uma experiência viva no Mistério de Cristo e da Igreja é um enorme desafio. Trata-se de uma ciência e uma arte de tornar os ritos e as orações profundamente comunicativos (Cordeiro, 2014, p. 5).
O Ano Litúrgico é fonte mistagógica porque orienta a fé por meio dos tempos que o compõem, formando o fiel para a celebração e vivência do Mistério e estabelecendo um itinerário espiritual. Os tempos litúrgicos do Advento/Natal e da Quaresma/Páscoa são bons exemplos. O Advento se reveste de uma dupla perspectiva: preparar a segunda vinda do Senhor através de imagens escatológicas e do fim do mundo, ao mesmo tempo que manifesta a candura terna e afável de um Deus que se faz criança e que no Natal vem visitar o seu povo, como a Luz que ilumina as trevas. A Quaresma, se apresenta como um grande deserto e retiro espiritual da Igreja. É tempo batismal e de conversão, de mudança interior, “é um tempo propício para amar” (Santos; Junior, 2024) e de se permitir ser alcançado pelo amor do Senhor que restituirá a dignidade para a qual o ser humano foi criado. É tempo preparatório para grande celebração da Páscoa do Senhor, onde humanidade inteira é iluminada. Logo, a Páscoa é a grande manifestação epifânica do amor de Deus Pai por sua criatura. O sacramento pascal do batismo, como fonte e útero de gestação da vida em Deus, é uma grande expressão desse processo de iluminação. Por fim, o Tempo Comum, se constitui no conjunto do Ano Litúrgico, como uma grande escola do discipulado pascal do Senhor. Neste tempo, a Igreja é convidada a redescobrir a cada dia seu chamado de ser fiel ao Mestre Crucificado/Ressuscitado, ouvindo-o e seguindo-o a cada semana que se passa. De maneira especial, o Tempo Comum é uma via de 34 semanas em que peregrinamos na esperança pascal.
Ao se falar de Ano Litúrgico também nos lembremos da densa espiritualidade que ele comporta pelo fato de ser a fonte primordial da espiritualidade cristã. Isso acontece pelo fato de o Ano Litúrgico se encontra radicado na vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. O cerne da espiritualidade do Ano Litúrgico é realidade presente e agente/atuante na história da salvação: redenção do gênero humano. Assim, o Ano Litúrgico é obra do Espírito Santo e da Igreja, esposa de Cristo. O que o Ano Litúrgico faz é presentificar o Mistério Pascal nos 365/366 dias do ano civil.
O modo pelo qual espiritualidade do Ano Litúrgico se manifesta é bem ampla e verdadeiramente mistagógica. Um conjunto de tempos e símbolos são articulados a fim de conduzir a comunidade ao coração do Mistério. Ela pode ser tratada a partir de quatro pilares: o Cristocentrismo; a Páscoa; as Sagradas Escrituras e os Sacramentos (cf. Marsili, 2009, p. 693-701). Cristocentrismo: Jesus Cristo é o centro e razão da fé da cristã. Em sua Pessoa está fundamentada toda a atividade da Igreja e por conseguinte, da Liturgia também; Páscoa: A Páscoa acontece em toda e qualquer Liturgia. Não celebramos uma outra realidade e nem acreditamos em nenhum outro fato que esteja separado da Páscoa do Senhor, nela está a nossa vida, pois, a Páscoa é Jesus Cristo Ressuscitado dos mortos; Sagradas Escrituras: A Liturgia da Igreja é composta, por assim dizer, de dois momentos, Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística. A Palavra comunicada, ou seja, o próprio Verbo de Deus Pai, se torna Eucaristia, Presença Real e Verdadeira que anima e fortalece a vida eclesial; Sacramentos: Os Sacramentos são os sinais sensíveis da graça de Deus, neles se encontra a graça divina que nos é comunicada por Jesus Cristo, o próprio São Leão Magno já afirmava em seu século que o que era da vida do Senhor passa a ser visível nos Sacramentos. A mistagogia do Ano Litúrgico pode ainda ser percebida e vivenciada a partir dos ritos e preces que os livros litúrgicos custodiam.
2- A Mistagogia nos ritos
O rito litúrgico não possui um fim em si mesmo. A beleza e a força do rito e das preces litúrgicas se encontram no fato de que o rito e as eucologias comunicam a Páscoa do Ressuscitado e são ações d’Ele e eclesiais, ou seja, são realizados pela Igreja, unida em oração que é o corpo místico do Senhor. Neste sentido, o rito é capaz de modificar nosso cotidiano, nos ajudando a perceber e diferenciar o banal e fútil daquilo que possui verdadeiramente vida.
A força vital dos ritos litúrgicos e a sua atividade mistagógica acontecem por serem ação de Jesus Cristo que se dá, revelando-se como o Ressuscitado, o Mistagogo, em outras palavras, como Aqueles que nos introduz em Si mesmo. O rito funciona como uma espécie de pericorése, isto é, um movimento da Trindade que nos faz adentrar ao Mistério celebrado. O rito, é o terreno fértil onde acontece a relação com o evento pascal presentificado e com a vida cristã.
Como sabemos, mistagogia é a arte de conduzir ao Mistério, contudo, podemos “trocar” a palavra conduzir por educar, assim, a mistagogia se torna a arte de educar ao Mistério. Essa “troca” pode mudar nossa compreensão da Liturgia e a visão que temos hodiernamente da atividade litúrgica da Igreja. Educar ao Mistério é formar para a Liturgia de maneira ativa, frutuosa e consciente, como nos pode o Concílio Vaticano II, pois, “a participação plena na Liturgia, portanto, é aquela que conduz ao transcendente, levando o orante à experiência do Mistério” (Costa, 2005, p. 84). A este respeito, Andrea Grillo, nos adverte:
Educar para esta “participação ao ato” é o modo primeiro, e último, com o qual a Igreja se deixa dar forma pela Palavra e pelo Sacramento, na forma específica de uma ação simbólico-ritual, mediante a qual descobre ser fons et culmen exatamente porque sabe abrir e abrir-se para uma fons que a precede e para um culmen que a supera (2018, p. 36).
A Liturgia nos educa pelo fato de que é ação de Jesus Cristo. Ele é quem a realiza em seu corpo místico que é a Igreja. Neste viés, os ritos e preces são para a comunidade cristã vias seguras e férteis de educação na fé, onde o Mistagogo/Educador é o próprio Senhor que se dá a nós na Palavra e na Eucaristia. Os ritos se tornam um convite para se manter o coração e a mente inteiramente voltados para Deus, isto é, um convite para viver sempre, diariamente a Páscoa, que é um encontro de amor com o Crucificado/Ressuscitado, Aquele que dá sentido a existência humana, visto que, “a participação sacramental na Páscoa nos faz viver em Páscoa” (Marques, 2023, p. 116).
O rito possui ainda uma característica fortemente comunicativa pelo modo como está disposto e é celebrado pela comunidade eclesial dos batizados. Nos comunicando algo levando-nos por um itinerário interior de transformação mistagógica que se dá a acontecer desde o momento em que somos acolhidos, passando pela Liturgia da Palavra até o momento da comunhão eucarística. Assim,
O rito litúrgico é também o modo de viver a fé cristã em sentido global, inclusive de sobreviver num ambiente hostil [...] O rito de uma Igreja se identifica com ela e vem a ser seu centro vital, sua escola teológica, sua catequese da fé e da moral cristã, o depósito de sua memória histórica e inclusive seu principal sinal de identidade como povo (Martín, 2022, p. 130 e 131).
É ainda verdade que o rito possui rubricas, e estas servem para nos ajudar a melhor celebrá-lo. As rubricas do rito litúrgico nos recordam que o verdadeiro protagonista do ato celebrativo é Jesus Cristo. A função das rubricas é ajudar na boa execução do rito e exige para tanto, a fidelidade da parte de quem preside e da comunidade celebrante na sua observância, o que implica num gesto de liberdade efetiva e espiritual sobre algo da qual a comunidade participa e comunga, mas da qual ela não é proprietária exclusiva.
Sendo o rito capaz de nos comunicar o divino mediante a abertura de nosso coração e mente, a celebração litúrgica torna-se o meio principal de se dialogar com o Pai que em Jesus Cristo se comunica conosco. A Liturgia é por natureza locus theologicus, ou seja, lugar teológico do encontro de Deus com o homem e do homem com Deus. Tal encontro constitui o fim a que deseja chegar a mistagogia, visto que, esta é também a celebração da troca de dons e da união do Criador com sua criatura e “a Liturgia nos garante a possibilidade desse encontro” (Desiderio Desideravi, n. 11). Neste sentido,
O rito litúrgico explica o diálogo permanente entre Deus e o Seu povo: Deus os reúne porque tem algo a comunicar e as pessoas, movidas por esse chamado, são provocadas a responder ao dom oferecido com o ato de fé e o cântico de louvor. A Liturgia expressa esta maravilhosa troca: é, portanto, um evento comunicativo porque realiza-se o diálogo entre Deus e o homem (Conferência Episcopal Italiana, n. 60).
O rito é essencialmente ativo, assim como as preces (não simplesmente narrativo). Desse modo, se torna claro para a comunidade sacerdotal que a Liturgia é ação. Ação de Jesus Cristo que, na força do Espírito, alcança e salva através dos ritos e preces, pelo fato que esses se constituem como um itinerário espiritual que deve ser percorrido por todos aqueles que celebram, repetindo o que fez Jesus e se tornando como Ele. Ritos e preces, são recursos humanos que Deus usa para se chegar ao coração da comunidade tornando presente o evento salvífico da Páscoa do Senhor no hoje da história humana.
3- A mistagogia nas preces
As preces litúrgicas compõem os ritos das diversas celebrações e sacramentos da Igreja possuem um caráter fortemente mistagógico. Como a mistagogia é a arte de conduzir ao Mistério, as preces na Liturgia executam também esse mesmo serviço, ou seja, nos conduzem ao Mistério por meio da oração que a comunidade eclesial eleva ao Pai. Deste modo, a eucologia/preces que compõem os ritos não são palavras mortas e secas, como pode ser pensado por alguém que não experiencia as palavras da Liturgia. As preces litúrgicas são um, “caminho, percurso, trajetória de adesão, crescimento, aperfeiçoamento; é participação nos ritos e celebrações litúrgicas de forma ativa e consciente”, afirma o franciscano conventual Frei Luis Felipe Marques (2023, p. 22). As preces na Liturgia direcionam a comunidade ao Pai, que ouve em Jesus Cristo e que realiza tudo mediante invocação dos fiéis epiclética para que o Espírito atue. Logo,
A dinâmica da interiorização deve, portanto, estar no coração da Liturgia, porquanto, se os textos e os gestos da Liturgia não chegam a ser interiorizados por quem participa da Liturgia, estes textos e gestos não se tornam alimento do cristão, não formam sua identidade profunda de cristão (Boselli, 2019, p. 157).
A Liturgia possui uma verdadeira abundância de preces. Como que uma contínua primavera a exalar beleza, cor e sabor para quem dela se aproxima, as preces são sempre vivas, como um rio a correr que sempre renova as suas águas e leva vida ao povo por onde passa. Os ritos e preces formam espiritual e eticamente a comunidade, ajudando a melhor celebrar cada Liturgia e a viver a vida cotidiana, visto que, “a Liturgia, com efeito, realmente, faz a história da salvação preenchendo todo o tempo do Mistério de Cristo” (Marsili, 2010, p. 597).
Já no século V, encontramos eucologias que eram rezadas na Eucaristia e que depois passam a ser chamadas de Oração Eucarística. As do Ocidente: de Hipólito de Roma, de Ambrósio de Milão, até as do rito Galicano, Hispânico, Celta e Romano. Também temos as Anáforas do Oriente: de São João Crisóstomo, Teodoro de Mopsuéstia, São Basílio, São Cirilo, São Marcos, São Gregório, de Nosso Senhor, da Bem-Aventurada Virgem Maria, e as do rito Arménio, entre muitas outras (cf. Antologia Litúrgica, 2015, p. 244-1345). No século VII, os primeiros “Sacramentários” começam a ser organizados. São eles: o Sacramentário Veronense ou Leonino, o Sacramentário Gelasiano Antigo e o Sacramentário Gregoriano Hadriano. No século seguinte o Sacramentário Gelasiano é reeditado e ainda no século VIII, junto as obras de São Germano de Paris temos o Missal de Bóbbio. No mesmo século encontramos também o Missal Gótico que era uma coleção de orações presidenciais de meados do século VIII (Antologia Litúrgica, 2015, p. 1599). Nestes Sacramentários estão muitas das Coletas, oração sobre as oferendas e pós-Comunhão que rezamos na Terceira edição do Missal Romano.
Em todo esse apanhado eucológico percebe-se um grande e longo acumulado de tradição litúrgica que sustém a caminhada eclesial rumo ao Mistério ao longo do Ano Litúrgico. Também se percebe que todo o rito da celebração Eucarística é composto por diversas preces, tendo três delas em especial que marcam o início, o meio e o fim da celebração, além do prefácio que faz “mergulhar” espiritualmente no Mistério que é celebrado por meio de algum aspecto da vida do Senhor, da Virgem Maria ou dos santos. Logo, emerge como consequente e razoável afirmar que “o método mistagógico é o melhor caminho de condução para o Mistério da Eucaristia” (Marques, 2023, p. 23).
A oração coleta, que se localiza no início da celebração eucarística, é composta por quatro partes, a anaclesi, que é a invocação inicial ao Pai (Ó Deus; Senhor Todo Poderoso), ou seja, nesta primeira parte temos os atributos dados a Deus pela comunidade. A segunda parte é a anamnesi, ou como conhecemos, a memória. Nesta parte se encontra uma referência de Deus Pai que age na história da salvação, seguindo, a terceira parte da coleta chamamos de epiclese, isto é, aqui, fazemos um pedido/súplica. A última parte da coleta é a doxologia, ou seja, a glorificação que a comunidade dá a Trindade Santa.
A oração coleta encerra os ritos que nos preparam para a escuta Palavra de Deus. Vivê-la mistagogicamente é predispor a acolher o Senhor, que, por meio do Seu Filho, deseja se comunicar conosco, e, pelo Espírito, ajuda-nos a viver as implicações da Eucaristia que estamos celebrando (Pereira, et al, 2023. p. 55).
Depois apresentação das ofertas, temos a oração sobre as oferendas. Esta breve eucologia, como todas as outras na Liturgia, possui um caráter fortemente mistagógico, pois, é esta prece que começa a nos introduzir na Oração Eucarística, deste modo,
Fazendo referência aos dons do pão e do vinho apresentados no altar, essa oração realça a relação entre as oferendas, a Oração Eucarística e a comunhão, pondo em destaque a oferta do povo sacerdotal que, unindo ao sacrifício de Cristo, oferece e se oferece. No pão e no vinho, apresentamos-lhe a oblação da nossa vida, a fim de que seja transformada pelo Espírito no sacrifício de Cristo (Pereira, et al, 2023, 105).
Uma outra prece eucológica que possui uma marca profundamente mistagógica dentro do rito Eucarístico é o prefácio. A palavra prefácio provém do latim praefari, que significar proclamar. O prefácio é, então, a proclamação que o presbítero, em nome da assembleia dos batizados realiza da glorificação de Deus. Assim, “o prefácio da Oração Eucarística é a ocasião sublime para entender qual a teologia do Mistério que envolve tudo o que estamos fazendo” (Marques, 2023, p. 117). Composto por um invitatório inicial, seguido de uma aclamação a Deus eterno e todo poderoso, “o prefácio tem, então, um caráter primordialmente narrativo e nele se dá a ação de graças ao Pai pela criação e pela sua presença operante na história da salvação, especialmente na Páscoa de Cristo” (Ferrari, 2022, p. 61). Por último, preparando a grande aclamação do sanctus, somos convidados a engrandecer ao Pai, unindo nossa voz a dos anjos e santos para rezar ou cantar.
Já a eucologia de pós-Comunhão, é a oração eclesial que a Igreja em comunidade formando um só corpo e um só sangue realiza, deste modo, “a Igreja em oração pede que o Sacramento gere frutos em nós e a graça da fidelidade aos dons recebidos” (Pereira, et al, 2023, p. 133).
Por último: o silêncio no ato celebrativo do rito e no decorrer das preces eucológicas se torna parte integrante e necessária para que a Liturgia encontre eco em nossas vidas. A ausência do silêncio em nossas Liturgias se torna prejudicial para a experiência Pascal do Senhor que acontece em toda Ação Sagrada e sem a qual a vida cristã será como um corpo sem vida. Em nossos dias necessitamos de “um silêncio profundo que não apenas contempla o Mistério ouvido na Palavra, mas que vivencia o Mistério penetrado no coração. É a acolhida da vida de Cristo, a participação no banquete eterno, a festa das núpcias do Cordeiro” (Marques, 2023, p. 157). Muito embora o silêncio não constitua um fim em si mesmo, sua eficácia muito corrobora para que a comunidade sacerdotal melhor celebre e vivencie os Mistérios cridos.
Conclusão
Sabemos que a Liturgia é ação de Jesus Cristo, por isso, ao celebrá-la, a comunidade eclesial adentra no Mistério que a abraça. O desafio para cada batizado se encontra justamente no vivenciar esta ação no pós-Liturgia, ou seja, na vida diária, visto que, Liturgia e vida nunca devem estar separadas, mas sempre em continua união, pois, em uma à outra se dá a acontecer. Nesta união de nossa vida com a Liturgia que celebramos acontece a atividade mistagógica. Somos conduzidos não a uma contemplação míope da fé, antes, a termos o olhar alargado para contemplar o mundo com olhos de Jesus Cristo.
Assim, ritos e preces são verdadeiros tesouros da Igreja que atravessaram séculos e foram testemunhas de todo o desenvolvimento da Liturgia no decorrer dos tempos nos mostrando que a Liturgia não se acorrenta em nenhum tempo e por nenhum rubricismo estéreo. Os tempos são testemunhas fiéis do desenvolvimento histórico espiritual de cada época e das rubricas que, quando fielmente observadas levam-nos a estar no nosso verdadeiro lugar e deixar que o Cristo Jesus, o Mistagogo por excelência, seja aquele que deve aparecer no ato celebrativo.
Quando celebramos a Liturgia, meditando e se permitindo ser alcançados pelo Mistério a que cada rito e prece desejam nos conduzir somos reeducados na fé que nasce e se sustenta na escuta atenta e dócil da Palavra, mas também da oração litúrgica. Sem os ritos e preces de cada tempo litúrgico a mistagogia não caminha e nem nos introduz no Mistério de Cristo Jesus, visto que, para tal atividade é necessário além da Palavra do Senhor, as orações da Igreja.
A mistagogia do Ano Litúrgico não constitui um fim em si mesma e nem é a solução completa de todos os problemas que envolvem a Liturgia, entretanto, sua atividade, já testemunhada pelos Padres dos primeiros séculos, produz abundantes frutos na caminhada eclesial. Em nossos dias, levando em conta os tempos, mudanças, contextos e pluralidades em que estamos, podemos ainda saborear os bons frutos da mistagogia na celebração litúrgica, basta que nos abramos ao que celebramos.
Referencias
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*Natural do Ceará. Frade professo na Ordem dos Carmelitas desde 2017. Membro da Província Carmelitana Pernambucana. Licenciado em Filosofia pela FAFICA de Caruaru. Graduado em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil, do Instituto de Espiritualidade Tito Brandsma e da Academia Marial de Aparecida.
