OS PREFÁCIOS DOS DOMINGOS DA QUARESMA
INTRODUÇÃO
Nos anos precedentes, publicamos, aqui no site, estudos sobre as orações que compõem os formulários para as missas dos domingos do Tempo da Quaresma: Coletas[i], Sobre as oferendas[ii], Depois da comunhão[iii] e Sobre o povo[iv]. Esse ano nos ocuparemos dos Prefácios.
Prefácio, uma premissa
O termo prefácio, usado hoje para identificar a primeira parte da Oração Eucarística, é de origem ainda incerta e já foi usado para identificar a inteira Oração Eucarística. Somente com o Sacramentário Gregoriano (séc. VIII), por influência da liturgia galicana, ele passou a ser considerado como uma parte distinta do resto da Oração, que começou a ser designada como “Cânon”[v].
O primeiro autor cristão a usar esse termo como sinônimo de Oração Eucarística foi São Cipriano († 258). O termo deve ser entendido não com o sentido de “introdução” (como o prefácio de um livro), mas de “um anúncio solene” que se faz diante de Deus e da assembleia. É a ação de clamar (dizer em voz alta), diante de alguém (pro) alguma coisa (pro-clam-ação), num movimento e estilo elegantes, nobres e ritmados, de modo solene, por isso sempre dito em voz alta ou cantado (cf. IGMR, 148; 216). Ele é, precisamente, a ação de graças da Oração Eucarística, cuja forma é descritiva, “inspirada” nas orações judaicas de louvor e agradecimento, cujo objetivo é narrar o motivo pelo qual se celebra o memorial: o Mistério Pascal de Cristo (encarnação, morte, ressurreição e glorificação) manifestado na história humana, transformando-a em história da salvação (da criação até a parusia). Rezado pelo presidente da celebração eucarística (cf. IGMR 216), que assume a postura do orante, de braços abertos (cf. IGMR, 148), “em nome de todo o povo santo”, constitui uma verdadeira profissão de fé ao narrar as maravilhas operadas por Deus, em Cristo Jesus, a favor e na vida do seu povo, “de acordo com o dia, a festa ou o tempo” (IGMR, 79a).
A tradição das liturgias romana e ambrosiana conheceu, até o Concílio Vaticano II, um único “cânon”, com uma variedade de prefácios, de acordo com as diversas celebrações do inteiro ano litúrgico. Na liturgia galicana e celta “prefácio” era chamado contestatio (contestação ou constatação, no sentido de solene profissão de fé) ou immolatio (imolação da missa) e, na liturgia hispânica, Illatio (ilação, como estímulo, incentivo para a realização de algo). O Corpus Praefationum cataloga 1674 prefácios, das cinco famílias litúrgicas citadas[vi].
Os prefácios na liturgia romana
O Sacramentário romano mais antigo, o Veronence (séc. VI) continha 267 prefácios, O Gelasianum Vetus (séc. VII), de tradição presbiteral, 54 e o Gregoriano (séc. VIII), de tradição episcopal/papal, 14. No tempo de S. Gregório Magno tinham sido reduzidos a nove, depois foram acrescentados mais cinco: Urbano II (†1099), para obter a proteção da Virgem Maria na cruzada, introduziu, em 1095, o prefácio da Bem-Aventurada Virgem Maria; Bento XV († 1922) acrescentou o de São José e dos Defuntos (1919) e Pio XI († 1939) o de Cristo Rei (1925) e o do Sagrado Coração de Jesus (1929).
O Missal Romano nascido da reforma tridentina, na sua última edição (1962), continha 15 prefácios; a primeira edição típica do mesmo Missal reestruturada pelo Concílio Vaticano II (1970), 81; a segunda (1975), 86; a terceira (2002/8), 95. Missal Romano “brasileiro” tem 21 prefácios a mais que a edição típica latina[vii]. Todos os prefácios receberam um “título” que resume o seu conteúdo. A IGMR, n. 364, afirma que “O grande número de prefácios com que o Missal Romano foi enriquecido tem por objetivo pôr em plena luz os temas da ação de graças na Oração Eucarística e realçar os vários aspectos do mistério da salvação”[viii].
A estrutura típica dos prefácios[ix]
Em todas as tradições litúrgicas ocidentais o prefácio começa com o diálogo inicial (cf. IGMR, 148), constituído por uma fórmula de saudação bíblica: “O Senhor esteja convosco” (cf. Rt 2,4; Lc 1,28), à qual, a versão portuguesa responde com uma proclamação pascal, também de tipo bíblico: “Ele está no meio de nós” (cf. Mt 18,20; 28,20b); por uma exortação de elevação espiritual (Corações ao alto – “Acumulai para vós tesouros no céu, pois onde está o vosso tesouro, ali estará o vosso coração” cf. Mt 6,19-21) e um convite a pronunciar/fazer a ação de graças (Demos graças... cf. Sl 135,1). Aqui já se expressa, em germe, toda a dinâmica da Oração Eucarística: porque o Senhor está no meio de nós (cf. Sf 3,17; Sl 45; Is 7,14; Mt 1,23), podemos afirmar de já termos o nosso coração em Deus, de encontrarmo-nos presentes ao mistério divino e, dessa forma, ratificar a (or)ação do ministro, encorajando-o a lançar-se na grande Oração que resume em si toda a história da salvação. Na tradição romana, o prefácio, depois do diálogo introdutório, articula-se em três partes: o protocolo, o embolismo ou corpo do prefácio e o escatocolo.
O protocolo
Do latim medieval protocollum, o termo protocolo vem do grego πρωτόκολλον, composto de πρῶτος “primeiro” e κόλλα “cola”, termo que na Antiguidade indicava a primeira folha de um rolo de papiro, constituída pela justaposição, por meio de cola, de várias folhas. Em assuntos diplomáticos, trata-se do conjunto de fórmulas iniciais de documentos (invocação, designação do autor e do destinatário, saudações, votos de felicidades etc.) que precedem o texto propriamente dito.
Relativamente invariável, o protocolo tem por objetivo afirmar que a ação de graças (eucaristia) de toda a Igreja é dirigida a Deus Pai, por meio de Jesus Cristo. Trata-se de uma “expressão apocrítica” (do grego άπόκρισις), de resposta, de retomada do discurso, que se liga ao diálogo inicial (Na verdade, é digno e justo...) e serve como resposta definitiva à dinâmica de ascensão iniciada pelo diálogo inicial entre o povo de Deus e o ministro; também de uma expressão de louvor e agradecimento, como explicitação da ação de graças (... dar-vos graças sempre e em todo lugar). Trata-se ainda do vocativo do nome da Pessoa da Trindade à qual se dirige o louvor (...Senhor, Pai Santo – expressão bíblica saída dos lábios de Jesus. Cf. Jo 17,11), às vezes ampliado em forma de aposto (Deus eterno e todo-poderoso). Finalmente, a adição da mediação crística (por Cristo, Senhor nosso), que antecipa a doxologia final.
O embolismo
Do latim tardio embolismus “intercalação”, derivado do grego ἐμβάλλω “inserir” e do latim científico embŏlus, do grego ἔμβολος “aquilo que é inserido”, o embolismo, sempre variável, é a parte central do prefácio. Liga-se ao protocolo e o amplia, de tal modo que resulta como proposição explicativa indicante do motivo pelo qual se propõe a ação de graças (eucaristia): “Na verdade, é digno e justo”... A justiça consiste em restituir, em forma de ação de graças (palavras não são suficientes) o que nos foi dado (a criação, a redenção e a glorificação). À altura de tão grande ato de justiça, todavia, está somente Jesus Cristo, por isso ele é a causa primeira de toda eucaristia. À proposição explicativa, implícita ou explicitamente, conjugam-se, direta ou indiretamente, as expressões referentes às circunstâncias da ação de graças ou à verdade teológica que se encontra no centro do evento celebrado. O desenvolvimento de uma teologia específica (do martírio, do tempo celebrado, de uma determinada categoria de santo etc.) constitui o seu “específico” litúrgico.
O embolismo pode ser de tipo eucológico ou escriturístico. Em ambos os casos, as suas fontes podem ser por contaminação, isto é, influenciado por outra fonte; por transplante, quando se costuram frases literais ou termos de outras fontes; ou por inspiração em fontes antigas. Os escriturísticos, ou de inspiração bíblica, podem ser construídos por “inspiração” em versículos ou “temas” bíblicos ou por “centonização”, reportando versículos.
O escatocolo
A parte conclusiva, o escatocolo, do grego ἔσχατος “último” e κόλλα “cola”, que em diplomática, se refere à parte do documento que compreende as fórmulas finais, como o protocolo, é relativamente invariável. Geralmente, inicia-se com uma conjunção conclusiva (Por isso...). Tem por função concluir o discurso, evidenciando a mediação crística, com as informações laudativas atribuídas aos coros celestes e o convite doxológico à assembleia de unir-se aos anjos e aos santos para a proclamação da glória de Deus Pai, a uma só voz. Finalmente, introduz o Santo, indicando a sua forma (cantada).
Os prefácios da Quaresma
O Missal apresenta dez prefácios destinados ao Tempo da Quaresma. Os cinco primeiros encontram-se nos formulários dominicais. Eles são tipicamente “temáticos”:
I Domingo – A tentação do Senhor (MR, p. 170-171)
II Domingo – A transfiguração do Senhor (MR, p. 178-179)
III Domingo – A samaritana (MR, p. 187)
IV Domingo – O cego de nascença (MR, p. 196)
V Domingo – Lazaro (MR, p. 204-205)
Os prefácios dos III, IV e V domingos são destinados ao Ano A ou às igrejas nas quais se celebram os escrutínios “em preparação ao Batismo dos catecúmenos, que na Vigília Pascal serão admitidos aos sacramentos de Iniciação cristã”.
Na seção das Orações Eucarísticas do Ordinário da Missa encontramos os outros cinco prefácios, agrupados de acordo com o seu uso:
A) Para serem usados principalmente nos domingos, “quando não se deve rezar outro prefácio mais apropriado”:
Prefácio da Quaresma I: O sentido espiritual da Quaresma (MR, p. 459)
Prefácio da Quaresma II: A penitência espiritual (MR, p. 460)
B) Destinados aos dias feriais aos dias de jejum, extra Tempo da Quaresma:
Prefácio da Quaresma III: Os frutos da abstinência (MR, p. 461)
Prefácio da Quaresma IV: Os frutos do jejum (MR, p. 462)
C) De nova composição, isto é, não presente na edição típica latina, procedente do Missal italiano e reservado para os dias feriais:
Prefácio da Quaresma V: O êxodo no deserto quaresmal (MR, p. 463)
Conclusão
Usando o método já aplicado aos outros elementos dos formulários, nos ocuparemos unicamente da primeira série dos prefácios presentes em cada formulário dominical.
Ut in omnibus glorificetur Deus (1Pd 4,11).
Dom Jerônimo Pereira, osb
Monge Beneditino, Mosteiro de São Bento de Olinda
Presidente da ASLI
[i] I Dom: https://www.asli.com.br/artigos/um-caminho-quaresmal-por-meio-das-preces-a-oracao-coleta-do-i-domingo-da-quaresma / II Dom: https://www.asli.com.br/artigos/um-caminho-quaresmal-por-meio-das-preces-a-oracao-coleta-do-ii-domingo-da-quaresma / III Dom: https://www.asli.com.br/artigos/um-caminho-quaresmal-por-meio-das-preces-a-oracao-coleta-do-iii-domingo-da-quaresma / IV Dom: https://www.asli.com.br/artigos/um-caminho-quaresmal-por-meio-das-preces-a-oracao-coleta-do-iv-domingo-da-quaresma / V Dom: https://www.asli.com.br/artigos/um-caminho-quaresmal-por-meio-das-preces-a-oracao-coleta-do-v-domingo-da-quaresma
[ii] Introdução ao estudo: https://www.asli.com.br/artigos/as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-domingos-da-quaresma / I Dom: https://www.asli.com.br/artigos/fac-nos--caelesti-pane-refecti-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-do-i-domingo-da-quaresma /II Dom: https://www.asli.com.br/artigos/haec-hostia--percipientes-domine-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-do-ii-domingo-da-quaresma--parte-i / III Dom: https://www.asli.com.br/artigos/his-sacrificiis--sumentes-pignus-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-iii-domingo-da-quaresma / IV Dom: https://www.asli.com.br/artigos/remedii-sempiterni--deus-qui-illuminas-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-iv-domingo-da-quaresma--i-parte / V Dom: https://www.asli.com.br/artigos/exaudi-nos--quaesumus-omnipotens-deus-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-v-domingo-da-quaresma-parte-1
[iii] I Dom: https://www.asli.com.br/artigos/fac-nos--caelesti-pane-refecti-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-do-i-domingo-da-quaresma / II Dom: https://www.asli.com.br/artigos/haec-hostia--percipientes-domine-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-do-ii-domingo-da-quaresma--parte-ii / III Dom: https://www.asli.com.br/artigos/his-sacrificiis--sumentes-pignus-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-iii-domingo-da-quaresma--ii-parte / IV Dom: https://www.asli.com.br/artigos/remedii-sempiterni--deus-qui-illuminas-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-iv-domingo-da-quaresma--ii-parte / V Dom: https://www.asli.com.br/artigos/exaudi-nos--quaesumus-omnipotens-deus-as-oracoes-sobre-as-oferendas-e-depois-da-comunhao-v-domingo-da-quaresma-parte-2
[iv] I Dom: https://www.asli.com.br/artigos/super-populum-a-oracao-sobre-o-povo-do-i-domingo-da-quaresma / II Dom: https://www.asli.com.br/artigos/benedic-domine-a-oracao-sobre-o-povo-do-ii-domingo-da-quaresma / III Dom: https://www.asli.com.br/artigos/rege-domine--a-oracao-sobre-o-povo-do-iii-domingo-da-quaresma / IV Dom: https://www.asli.com.br/artigos/tuere-domine--a-oracao-sobre-o-povo-do-iv-domingo-da-quaresma / V Dom: https://www.asli.com.br/artigos/benedic-domine-a-oracao-sobre-o-povo-do-v-domingo-da-quaresma
[v] Uma bibliografia básica: E. Lodi, «I prefazi nelle loro strutture e nel loro valore teologico-catechetico», Rivista di Pastorale Liturgica 3 (1965) 457-454; M. Righetti, Manuale di storia della liturgia, vol. 3: L’Eucaristia, Àncora, Milano, 19663, 356-364; J. A. Jungmann, Missarum Sollemnia: origini, liturgia, storia e teologia della Messa romana, Àncora, Milano 2004, 86-100.
[vi] Cf. Corpus Preafationum, ed. E. Moeller (CCL 161 A-D), Brepols, Tvrnholti 1980-1981.
[vii] Para um estudo sobre, cf. J. Pereira Silva, «“Reflexo da sabedoria” e “profetas da sublime beleza de Deus”: Os prefácios para o Comum dos Doutores», Revista de Liturgia 304 (2024) 4-9.
[viii] Cf. A. Dumas, «Les préfaces du nouveau Missel», Ephemerides Liturgicae 85 (1971) 16-28.
[ix] Cf. C. Giraudo, Preghiere eucaristiche per la chiesa di oggi. Riflessioni in margine al commento del canone svizzero-romano, Gregorian University Press – Morcelliana, Roma – Brescia 1993, p.31-69.
