O Anúncio da Páscoa na Epifania do Senhor: Memória, História e Teologia do Tempo Litúrgico

O Anúncio da Páscoa na Epifania do Senhor:

Memória, História e Teologia do Tempo Litúrgico

 

No Brasil, a Solenidade da Epifania do Senhor é transferida para o domingo após o seu dia estável, 6 de janeiro. Esse ano, extraordinariamente, não será procrastinada, mas antecipada. É neste momento que a Igreja retoma uma tradição de “venerabilidade” e “antiguidade”: o Anúncio da Páscoa e das Festas Móveis. Realizado após a proclamação do Evangelho (ou em seguida à Oração depois da comunhão, nos Mosteiros beneditinos), o rito não é meramente informativo, mas um lembrete da centralidade da Ressurreição de Cristo em todo o ano litúrgico.

Embora hoje os calendários digitais forneçam datas com precisão milenar, o anúncio mantém seu valor teológico ao manifestar que o mistério da Encarnação, celebrado no Natal, encontra sua plenitude na vitória sobre a morte.

 

Fundamentos Apostólicos e a Convocação da Assembleia

 

A prática de reunir os fiéis para comunicar eventos salvíficos remonta ao dever pastoral dos Apóstolos. O livro dos Atos dos Apóstolos descreve como os Doze convocavam os discípulos para decisões sinodais e para relatar as “grandes coisas que Deus fizera” (cf. At 6,2; 14,27; 15,30). Na Igreja primitiva, figuras como Inácio de Antioquia e Tertuliano mencionam convocações personalizadas, muitas vezes realizadas por “carteiros do Senhor” ou diáconos para anunciar o ágape e as celebrações dos mártires. Gradualmente, essa convocação simples evoluiu. No norte da África e em Roma, bispos como Agostinho e Leão Magno usavam o final das homilias para recordar jejuns e aniversários de mártires. Contudo, o anúncio da Páscoa exigiu uma solenidade distinta devido à complexidade de sua datação.

 

A Controvérsia da Data da Páscoa e o Concílio de Niceia

 

Durante os primeiros séculos, a Igreja enfrentou a crise dos “quartodecimanos”. Enquanto as comunidades da Ásia Menor celebravam a Páscoa em 14 de nisã, independentemente do dia da semana (seguindo o calendário judaico), Roma e o Ocidente defendiam a celebração sempre ao domingo. O Concílio de Niceia (325) resolveu a questão ao estabelecer que a Páscoa deveria ser celebrada de forma unitária em todas as Igrejas: no domingo seguinte à primeira lua cheia após o equinócio da primavera (21 de março). Coube ao patriarca de Alexandria o cálculo técnico dessa data (Comptus), que era então comunicada ao Papa para distribuição global através das chamadas cartas pascais. 

 

Do Egito para o Missal Romano

 

A tradição de realizar o anúncio especificamente no dia da Epifania tem raízes no Egito. Para os cristãos egípcios, a Epifania celebrava tanto o nascimento quanto o batismo de Jesus. Era nesse dia que o bispo de Alexandria enviava as cartas determinando o início da Quaresma e a data da Páscoa. Com a reforma litúrgica do Concílio de Trento, a liturgia romana formalizou o texto intitulado do anúncio. A melodia deste anúncio é inspirada no Precônio Pascal (Exsultet), criando uma ponte melódica e teológica entre a luz do Natal e a luz da Ressurreição.

 

Mudanças na Terceira Edição do Missal Romano no Brasil

A terceira edição típica do Missal Romano, em uso no Brasil desde o Advento de 2023, trouxe atualizações significativas. O antigo título “Publicação das Festas Móveis” foi alterado para “Anúncio da Páscoa e das Festas Móveis”, enfatizando a natureza querigmática do rito. O novo texto destaca que o centro do ano litúrgico é o Tríduo Pascal, além de reafirmar o domingo como a “Páscoa semanal” e mencionar que mesmo nas festas da Virgem Maria e dos santos, a Igreja proclama a Páscoa do Senhor.

 

Teologia e Prática Celebrativa (Ars Celebrandi)

 

A celebração litúrgica é descrita como a “eternidade que irrompe no tempo”. O anúncio integra diversas dimensões da fé:

 

  • Cristocêntrica: Reafirma Jesus como o Senhor do tempo e da história.
  • Penitencial: Embora o novo texto tenha suavizado a menção ao “jejum da sacratíssima Quaresma”, a estrutura ainda aponta para a Quarta-feira de Cinzas como o início da jornada.
  • Escatológica: A doxologia final tem sabor apocalíptico, louvando a Cristo que “era, que é e que há de vir”.

 

Musicalmente, o rito exige uma execução solene. A melodia gregoriana sobe para notas agudas para capturar a atenção da assembleia e “se sobrepor ao barulho da multidão”, antes de descer suavemente para a conclusão.

 

Conclusão

 

O Anúncio da Páscoa na Epifania não é um anacronismo, mas uma afirmação de que toda a vida da Igreja gravita em torno da Ressurreição. Como uma bússola espiritual, ele orienta o povo de Deus através dos ritmos do tempo, transformando a cronologia humana em história de salvação.

 

Para aprofundar:

 

J. Pereira«O anúncio da Páscoa e das festas móveis»Revista de Liturgia 307 (2025) 4-11.

 

Dom Jerônimo Pereira,osb

Monge do Mosteiro de São Bento de Olinda

Presidente da ASLI

 
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