O “Advento”: um tempo “curioso”
II – Um tempo que “não termina”
Se observarmos de perto, quando se trata do Advento, são quase que exclusivamente as mudanças na estrutura das celebrações a revelarem e a deixarem claro a um membro distraído de uma assembleia litúrgica que um dos “tempos fortes” do ciclo litúrgico está começando. Em seus aspectos mais externos, a transição do Tempo Comum para o Advento é evidente, por exemplo, no uso da cor roxa ou na simplicidade das decorações.
Aproximando-nos daqueles elementos mais importantes e, portanto, que merecem maior atenção, as mudanças se manifestam principalmente no sistema de leituras, tanto da Missa quanto do Ofício, e nos hinos do Ofício.
Na Missa e no Ofício das Leituras passa-se do sistema de leitura contínua para o sistema de leitura antológica/temática de textos bíblicos selecionados.
Nos Ofícios matutinos (Laudes), vespertinos (Vésperas) e das Leituras, passa-se de uma variedade numérica de hinos que correspondem a cada dia e Hora, a uma repetitividade quase monótona (cf. IGLH 173).
Avdvento: um começo “diferente” e um fim que não “termina”
O número 40 das Normas Universais do Ano Liúrgico rezam o seguinte:
O Tempo do Advento começa com as I Vésperas do domingo que cai no dia 30 de novembro ou no domingo que lhe fica mais próximo, terminando antes das I Vésperas do Natal do Senhor.
Todavia, o Advento se distingue dos outros tempos fortes por dois motivos, um relacionado com o seu começo, entendido como ponto inicial, e outro com o seu fim, entendido como a conclusão.
Um começo “diferente”
De fato, a transição do Tempo Comum para o Tempo do Advento, a partir da perspectiva do Lecionário, e até mesmo do oracional e do “Antifonário da Missa” é praticamente imperceptível. Embora seja verdade que uma série de “novos acontecimentos” se desenrolam durante as semanas do Advento, também é verdade que as últimas semanas do Tempo Comum já estão intimamente ligadas à espiritualidade da vinda do Senhor, o seu Advento.
Na Eucaristia, os Evangelhos dos dois últimos domingos do Ano Litúrgico, em todos os três ciclos, e aqueles lidos nas missas feriais durante as duas últimas semanas do Tempo Comum, são textos que estão imbuídos de significado escatológico. O mesmo se deve à Solenidade de Cristo Rei, cujo significado de “fim da era presente” é claro nos textos dos três ciclos dominicais.
As leituras escatológicas de Daniel, que encontramos nas Missa feriais dos anos ímpares e no Ofício das Leituras dos anos pares, do Livro do Apocalipse, nas Missa dos anos pares, e do anúncio da destruição de Jerusalém, segundo a narrativa dos profetas Ezequiel e Jeremias, que a profetizaram ou choraram sobre suas ruínas, no Ofício das Leituras dos anos pares e ímpares, respectivamente, já nos colocam no contexto dos últimos tempos e da vinda do Senhor.
Por outro lado, historicamente, a própria numeração das semanas do Advento tem variado, mesmo em tempos recentes. Vejamos: a liturgia ambrosiana e hispânica iniciam o Advento duas semanas antes da liturgia romana, isto é, elas têm seis semanas de Advento; quanto a nós, embora tenhamos quatro domingos em que se usa o roxo, em relação ao conteúdo “adventístico” mencionado nos textos, talvez se deva dizer, como observamos no parágrafo anterior, que o Advento, em toda a sua carga de significado, começa, de fato, nas últimas semanas do Tempo Comum. Seria ese, por acaso, um resquicio de um Advento romano de tipo gelasiano, superado por aquele de tipo gregoriano de quatro semanas e que foi conservado pelos antigos Capitulari Evangeliorum chegando até o Missal Romano de 1962? Pois, de fato, o Dominica XXIV et última post Pentecosten, tinha como evangelho Mt 24,15-35. Infelizmente, não temos como responder a tal hipótese nesse espaço.
Um fim que não “termina”
Quanto à conclusão do Advento, em certo sentido, pode-se pelo menos dizer que é o único ciclo que não se fecha verdadeiramente. Poderíamos dizer que o Natal, em vez de conclui-lo, intensifica-o com as festas do próprias do Natal e da Epifania, a presença e manifestação mais plena do Advento, a Parusia, ou Epifania do Senhor. A Quaresma encontra o seu arremate com a Noa da Quinta-feira Santa e, na noite desse dia, começa o Tríduo Pascal. Os cinquenta dias da Páscoa têm seu início e fim festivos e solenes na Vigília Pascal e no Domingo de Pentecostes, respectivamente. O Advento, por outro lado, em seu significado de “parusia” (presença) e/ou “epifania” (manifestação), se intensifica, mas não desaparece à medida em que o tempo do Natal se aproxima e se torna um fenômeno. Com o nascimento do Senhor, sua presença (parusia) se torna mais intensa e sua manifestação (epifania) mais clara.
Recordemos, por exemplo, como as leituras mais típicas do Advento, aquelas de Isaías, continuam a ser lidas mesmo durante o tempo do Natal, ou como uma das principais festas deste ciclo seja chamada de Epifania, que, como sabemos, é a palavra grega que a tradição latina traduziu como Adventus. O magnífico Introito da Missa do Dia da Epifania é uma clara indicação da identidade temática que faz com que o Advento não encontre o seu “fim” na conclusão do Tempo do Advento, mas tão somente no Natal: “Eis que vem o Senhor dos senhores” (Ml 3,1). Em latim: “Ecce advenit dominator Dominus”.
Dom Jerônimo Pereira, osb
Monje do Mosteiro de São Bento de Olinda
Presidente da ASLI
