O “Advento”: um tempo “curioso”
III – Um tempo sem “características exclusivas”
Nos anos 80, cantava-se muito durantes as Missas e as novenas de Natal uma música que definia o cerne da espiritualidade do Tempo do Advento:
Tempo de esperança e de viver.
Tempo de ser novo e renascer.
Eis que uma criança já se anuncia.
Dentro de Maria, o céu conosco está.
Tempo de esperança e de alegria.
Vamos esperar que o Senhor virá.
O Libertador já vem.
Como esperava o povo hebreu,
O Senhor do povo não se esqueceu.
Hoje o povo espera de coração
Por um mundo novo bem mais irmão
Este canto fala sobre o tempo do Advento como um Tempo litúrgico cujo centro da mensagem estão, em primeiro lugar, a esperança e a renovação. Refere-se à esperança do povo hebreu pela vinda do Messias e à esperança atual por um mundo mais fraterno.
A esperança cristã
A vida cristã que vivemos no tempo presente se fundamenta na fé, na esperança e na caridade. No nosso dia que não conhecerá ocaso, a fé e a esperança não terão mais lugar. Como nos ensina São Paulo (cf. 1Cor 13,13), na Jerusalém do céu não precisaremos mais esperar por nada nem por ninguém, porque possuiremos tudo. Contudo, nessa nossa atual peregrinação, a esperança é um dos pilares essenciais da vida cristã; do momento presente, tanto da Igreja na sua totalidade, quanto de cada um dos seus membros. O Advento se presta a relembrar, reavivar, fomentar e fazer experimentar essa necessidade persistente.
A esperança cristã, todavia, não pode ser nivelada ou confundida com a confiança. Ela é uma virtude teologal, uma expectativa ativa e segura do cumprimento das promessas de Deus. Ela, orientada para Jesus Cristo e a vida eterna, caminha pari passu com o empenho e a paciência.
A confiança é um conceito mais amplo, que pode ser interpessoal, isto é: confiar em uma pessoa, em si mesmo ou em uma ideia, podendo existir até mesmo sem a esperança. É verdade que ela, além de horizontal (entre pessoas), pode ser também vertical (em Deus), mas a esperança cristã é sempre vertical e definida: é a esperança no Deus de Jesus Cristo.
Confiar na ajuda de Deus é certamente necessário, mas é diferente de “esperançar”. “Esperançar” não se funda na confiança “na ajuda do Senhor”, mas no Senhor que ajuda. A certeza de que ele nos trará os dons de Deus, a confiança que depositamos nele e em suas ações, é parte do que o Novo Testamento chama de fé. Temos fé no Senhor, já disse alguém, assim como um doente tem fé em seu médico; isto é, um enfermo confia que, com seu conhecimento, o médico lhe trará a cura. A fé descrita no Novo Testamento é fundamentalmente a fé confiante; mas toda a vida cristã não pode ser resumida a essa fé confiante. O cristão tem como fundamento de sua vida a fé confiante, a esperança de que o Senhor virá e a caridade com que o ama acima de tudo. Essas são as três virtudes teologais, o fundamento de toda a vida cristã durante a peregrinação terrena. Mas essa “fé confiante” não deve ser confundida com a “espera pelo Senhor”. A confiança, portanto, pertence mais à fé e, em todo caso, não pode ser confundida com a esperança.
A esperança cristã é muito semelhante à de Israel, cujo reino foi arrasado pelo cativeiro babilônico. Israel aguardava e orava pela chegada iminente de um novo Messias, ou Cristo, um novo rei ungido para governar o destino de Israel. A esperança cristã difere apenas na pessoa e no reino que aguardamos, não em sua natureza. Em nosso contexto, portanto, esperar não é sinônimo de confiar.
Quando confundimos esperança com confiança corremos o risco de transformar o Advento num tempo de “esperanças”, fazendo das diversas “esperanças humanas” o tema da espiritualidade do Advento, caindo num horizontalismo, que é tanto mais perigoso quanto menos transcendente for. Esta expectativa de que Deus nos concederá bens, saúde, progresso, sucesso nisso ou naquilo, bens visíveis etc. é certamente mais fácil do que esperar pela vinda do Senhor. A chamada “teologia da prosperidade” segue esses caminos. Todas esas coisas, associadas à libertação das injustiças, da pobreza, da fome, das formas humas de escravidão, são certamente boas; desejá-las, esperá-las e lutar por elas é confiar na ajuda de Deus; mas a esperança cristã em si, a espiritualidade enfatizada no Advento, espera e pede algo ainda melhor: o próprio Senhor, não os seus dons.
Toda a liturgia é liturgia de esperança cristã
Vale destacar que diariamente, em todos os Tempos litúrgicos, a esperança cristã (a espera da vinda do Senhor) encontra um lugar central. Basta recordar-nos as suas expressões comuns presentes na liturgia diária, que nossos lábios repetem, talvez quase inconscientemente: “Venha [a nós] o vosso Reino”, “Vinde, Senhor Jesus”, “Enquanto esperamos a sua vinda gloriosa”, “Bendito o que vem em nome do Senhor” etc. Fato é que um cristão deixaria de ser cristão se não esperasse e orasse pela vinda do Senhor, o Messias, o Cristo, e por sua presença cada vez maior no mundo. Por isso, a liturgia cristã repete diferentes expressões de esperança todos os dias, não apenas durante o Advento. Logo, a esperança cristã não se configura como característica singular e exclusiva, distintiva do Tempo do Advento. Mas essas expressões nem sempre são vividas com a intensidade que deveriam ao longo de todo o Ano Litúrgico. Então… o Advento é uma boa oportunidade para reacendê-las.
Um tempo sem “características exclusivas”
Ao afirmarmos que o Advento não tem o privilégio de exclusividade no que diz respeito à espiritualidade da esperança cristã, reiteramos que a espiritualidade do Advento é comum a todos os ciclos litúrgicos. Na verdade, a espiritualidade do Advento é comum a toda a vida cristã. É característica principal deste tempo a expectativa da vinda do Senhor e a experiência de sua presença, todavia, a sua “particularidade” é ser um tempo para enfatizar a esperança cristã. No entanto, a esperança não pode ser reduzida a algumas semanas. A esperança, juntamente com a fé e a caridade, é um dos pilares essenciais da vida cristã em seu desenrolar. Sem esperança, não há possibilidade de vida cristã, nem nas semanas que antecedem o Natal, nem em qualquer outro tempo do ano litúrgico.
Característica do Advento é nutrir, ou aumentar, o nosso amor ou desejo pela vinda do Senhor, amar o “seu Advento”, como diz o apóstolo. Esta é a atitude espiritual que levou Paulo a dizer: “Aguardo ansiosamente a coroa da justiça, que o Senhor dará, não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda” (non solum autem mihi sed et omnibus, qui diligunt adventum eius: 2Tim 4,8).
O que caracteriza o Advento, portanto, não é tanto a esperança da vinda do Senhor em si, mas a ênfase nela. Certamente, como a esperança da vinda do Senhor sempre foi um elemento essencial de cada dia da vida cristã, a Antiguidade não sentiu a necessidade de introduzir um tempo específico onde ela (a esperança na sua vinda) ficasse restrita. O Advento vivencia-se em todas as celebrações, e talvez ainda mais intensamente na celebração da noite pascal. Como recordou alguém, na noite de Páscoa, quando cantamos os louvores ao círio pascal (Precônio pascal), oramos ao Senhor para que nossa chama “arda sem se extinguir, e que a estrela da manhã a encontre acesa, enquanto vigiamos, aguardando, o Cristo ressuscitado que emerge do túmulo” – Flammas eius lúcifer matutinus invéniat: Ille, inquam, lúcifer qui nescit occásum: Christus Fílius tuus, qui regréssus ab ínferis – “e um dia voltará, sol triunfal”.
Dom Jerônimo Pereira, osb
Monge do Mosteiro de São Bento de Olinda
Presidente da ASLI
