NEM CRIATIVIDADE DESORDENADA, NEM RIGIDEZ ESTÉRIL: A VERDADEIRA ARTE DE CELEBRAR
Fr. Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
Aprender a usar corretamente os livros litúrgicos e a ler as rubricas a partir de sua teologia mistagógica revela-se especialmente necessário em tempos de forte polarização. Não é adequado, de um lado, sustentar que “tudo pode” na liturgia para agradar o povo, nem, de outro, defender que “nada pode” em nome de uma interpretação rígida das rubricas. O uso saudável do livro litúrgico, distante tanto do improviso arbitrário quanto do rubricismo performático, restitui aos sujeitos da celebração, sobretudo à assembleia celebrante, o seu lugar próprio, evitando o uso equivocado (ab-uso) da liturgia.
Após as celebrações da Semana Santa e do Tríduo Pascal, ainda inebriados pela força e pela beleza dos ritos e marcados pelo cansaço próprio de um serviço generoso, vale a pena algumas interrogações. Não raro, já nas proximidades dessas celebrações, difunde-se, de modo até jocoso, a expectativa de assistir, sobretudo nas redes sociais, a um verdadeiro “espetáculo” de arbitrariedades, criatividades e gostos estéticos que se distanciam de uma liturgia autêntica, saudável e plenamente católica.
Sim, antes de tudo, é importante recuperar o termo “católico” em seu sentido mais próprio, isto é, de universalidade. Isso nos permite reconhecer um sério equívoco eclesial: muitas práticas difundidas como litúrgicas, na realidade, não o são. Aquilo que aparenta ser católico, frequentemente não é; elementos apresentados como pertencentes à Tradição carecem de fundamento; ritos tidos como antigos revelam-se, na verdade, expressões de uma superficialidade tipicamente moderna e de uma emotividade fragilizada; e, ainda, não são raras as expressões, palavras e até homilias que, sob o pretexto de uma suposta pastoralidade, acabam por ferir a verdade da própria doutrina.
Assim, somos convidados a nos interrogar: as palavras que proferimos, os gestos que realizamos, as vestes sagradas que revestimos e os ritos que celebramos são, de fato, as palavras, os gestos e os ritos de Cristo e da Igreja? A liturgia que vivemos é um espaço verdadeiramente aberto a Ele ou, ao contrário, um espaço ocupado por nós mesmos e pelas patologias que nos habitam? O tempo que dedicamos é ocasião para que Cristo se manifeste e se revele, ou acaba se tornando um momento em que falamos de nós mesmos? O rito que seguimos e as formas que adotamos são verdadeiramente católicos, isto é, estão em comunhão com a Igreja local e universal? Além disso, a liturgia que celebramos, na sua ordem e sequência ritual, torna-se também fonte de ordem em nossas relações com os outros? E, mais profundamente, ela gera ordem em nosso interior ou apenas evidencia a desordem que ainda carregamos?
Há uma distinção real entre a mera emoção estética e o autêntico sentido espiritual. O que, de fato, significa celebrar uma liturgia “bela”? Seria apenas corresponder ao gosto das pessoas? E, mais profundamente, o que significa amar a Tradição e respeitar a organicidade histórica da liturgia? A liturgia não pode ser um produto a ser consumido, nem um “supermercado” da fé. Do mesmo modo, defender a Tradição não se reduz a um apego vigilante a elementos do passado - vestes, palavras ou gestos - que, isolados de seu sentido, já não exprimem o universal da fé. A celebração litúrgica, assim como a própria Tradição, é a experiência viva e fecunda do Espírito Santo que atua hoje e agora, tornando presente, na Igreja, o mistério de Cristo.
Diante disso, torna-se indispensável perguntar quais são os critérios autênticos da beleza litúrgica, os quais brotam da própria natureza do mistério celebrado e da Tradição viva da Igreja. Tais critérios, certamente, ultrapassam as preferências individuais, as modas passageiras e as lógicas consumistas.
Os gestos litúrgicos, por sua vez, não podem ser considerados superficiais, nem confundidos com superstição ou reduzidos a uma mera execução prática de um rito. Tampouco podem ser instrumentalizados para expressar gostos pessoais e subjetividades, em detrimento do sentido comunitário da fé, nem utilizados em nome de uma suposta defesa de uma “Tradição” que, na realidade, não se sustenta.
Desse modo, para superar as polarizações e as diversas formas de subjetivismo criativo, o caminho mais seguro passa por uma relação equilibrada e fiel com os livros litúrgicos. Nesse horizonte, as rubricas garantem a objetividade do rito, resguardando-o de arbitrariedades e assegurando sua continuidade na vida histórica e eclesial da Igreja.
Convém reafirmar, como recorda Desiderio Desideravi (n. 23), que a atenção às rubricas impede que se prive a assembleia daquilo que lhe é devido por direito: o mistério pascal celebrado segundo a forma ritual estabelecida pela Igreja. Assim, as rubricas exercem um papel decisivo na salvaguarda da alteridade do mistério celebrado, evitando que a liturgia se reduza à expressão de uma subjetividade individual, reducionista e desmedida.
Os livros litúrgicos do rito romano (ordo - ritual) contêm os textos próprios para que cada celebração sacramental seja eficaz na sua essência. Os textos eucológicos exprimem o nosso louvor a Deus (orações, prefácios, preces eucarísticas, bênçãos, entre outros), enquanto as rubricas orientam o modo de celebrar cada rito e as fórmulas, mesmo com algumas variantes, atestam a organicidade da Tradição. Por isso, não devem ser compreendidas como antigas descrições minuciosas e meramente cerimoniais, destinadas apenas a evitar erros ou “defeitos” nas celebrações. O ordo litúrgico, como bem expressa o Pe. Goffredo Boselli, é a fé da Igreja manifestada na simplicidade de um gesto, na nobreza de um movimento, na dignidade de uma postura, na sobriedade e no discernimento da palavra proclamada, rezada ou cantada.
Em outras palavras, no ordo litúrgico encontramos tanto a linguagem verbal quanto a não verbal, por meio das quais, com palavras e gestos (sinais e símbolos), expressamos a nossa oração ao Senhor e o nosso diálogo com Ele. As introduções gerais de cada livro, em estreita relação com as rubricas, manifestam o valor teológico, bíblico e pastoral das celebrações, oferecendo também orientações de caráter “metodológico”, isto é, sobre o modo de celebrar. Não há liturgia sem indicações, isto é, sem as orientações da Igreja, realidade já testemunhada pelos textos litúrgicos mais antigos. A beleza da liturgia nasce precisamente dessa ordem, que gera unidade e se expressa na comunhão.
Por isso, as páginas iniciais dos livros litúrgicos, bem como as rubricas, não devem ser ignoradas como se fossem introduções cansativas ou repetições estéreis. Ao contrário, constituem textos oficiais e indispensáveis para compreender o que se celebra, quem celebra e como se celebra, com dignidade e em comunhão com toda a Igreja. Desconsiderá-las seria como querer preparar até mesmo um prato simples sem conhecer o essencial da receita e a riqueza dos ingredientes que lhe dão forma e sentido.
Nesse horizonte, como recorda a Nota Doutrinal Gestis Verbisque (n. 27), torna-se cada vez mais urgente amadurecer uma verdadeira arte de celebrar que, evitando tanto o rigor de um rubricismo estéril quanto a dispersão de uma criatividade desordenada, conduza a uma disciplina a ser acolhida como caminho de autêntico discipulado.
Não se trata de aderir a um protocolo de boas maneiras litúrgicas, mas de assumir uma “disciplina”, no sentido proposto por Romano Guardini: uma forma que, vivida com autenticidade, nos educa interiormente e nos faz verdadeiramente humanos. São gestos e palavras que ordenam o nosso mundo interior, gerando sentimentos, atitudes e comportamentos conformes ao mistério celebrado. Não se trata de um ideal abstrato ao qual buscamos nos adaptar, mas de uma ação concreta que envolve a pessoa inteira, na unidade de alma e corpo, e a introduz, de modo vivo, no mistério de Cristo celebrado na Igreja.
