Missa Pro custodia creationis
(Para a proteção/cuidado da criação)
Na manhã desta quinta-feira, 3 de julho de 2025, às 10h (horário italiano), na Sala de Imprensa da Santa Sé, realizou-se uma coletiva onde foi apresentado o formulário da Missa Pro custodia creationis (Pelo cuidado da criação), que será adicionada na terceira edição do Missal Romano, entre as Missas pro variis necessitatibus vel ad diversa (Para Diversas Necessidades ou Circunstâncias), na sessão II Pro circumstantiis Publicis (Pelas circunstâncias da vida pública), com uso regido pela Instrução Geral do Missal Romano, capítulo VII (A escolha da Missa e suas partes: n. 352-385) e por suas próprias rubricas. No Missal brasileiro, a supracitada sessão encontra-se entre as páginas 1095-1128. Intervieram na coletiva Sua Eminência, o Cardeal Michael Czerny, S.I., Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, e Sua Excelência, Dom Vittorio Francesco Viola, O.F.M., Secretário do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Antes da conferência foram distribuídos aos jornalistas os seguintes documentos: o Decreto de formulario et lectionibus adhibendis in Missa “pro custodia creationis”, em latim, texto original, e uma tradução de cortesia em italiano e inglês; o Formulário em latim, com a tradução de cortesia em italiano e inglês; as indicações das leituras, com o texto por extenso em italiano e os discursos do Cardeal e do Dom Viola. Aos liturgistas e teólogos, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral deu a possibilidade do acesso a toda a documentação traduzida nas diversas línguas. A proibição de uma divulgação prévia estava em vigor até o horário do início da coletiva, de tal modo que tudo pode ser acessado em português por meio do seguinte endereço: https://www.humandevelopment.va/pt/news/2025/missa-pro-custodia-creationis-decreto-papa-leone-xiv.html
Essa nota pretende, a partir das fontes à disposição, colocar uma primeira luz sobre o tema. Porque se trata de uma nota, não se tem a pretensão de exaurir o conteúdo, e a linguagem será tipicamente sumária. Seguiremos o método indicado por Sacrosanctum Concilium 23, sobretudo na primeira parte, que estabelece a necessidade de, mantendo a tradição, abrir caminhos para um “legítimo progresso”. Tal “legítimo progresso”, todavia, deve ser precedido sempre (praecedat semper) de uma “acurada investigação teológica, histórica e pastoral” (accurata investigatio theologica, historica, pastoralis).
Explicatio vocabulorum
O termo “criação” (creatio) tem duplo sentido. Significa tanto o ato de criar quanto o seu resultado. Na perspectiva bíblico-teológica se faz mister a distinção aplicativa. Como ato, ela faz parte do “mistério divino”, implica necessariamente a referência direta ao Criador; como resultado (o mundo criado), o termo coloca a obra em relação de dependência com o Criador. É o mistério da criação que nos recorda a origem e a sacralidade/sacramentalidade do mundo criado. A interdependência dos sentidos não pode ofuscar a primazia: o mistério da criação vem primeiro, tanto histórica, quanto teologicamente. Em outras palavras: é o mistério especulado pela Teologia que inspira a celebração litúrgica e não a Ecologia (a ciência ecológica) ou a Climatologia.
“Ó beleza tão antiga...” o passado remoto da Missa Pro custodia creationis
Na tradição cristã oriental, desde o século V, reportando-se a uma tradição “dos antigos”, o dia 10 de setembro é celebrado liturgicamente como o dia da criação, o dia em que Deus iniciou a criação do céu e da terra, quando todas as coisas vieram à luz por meio de Jesus Cristo (cf. Jo 1,3). Com cálculos feitos a partir da Septuaginta, o calendário bizantino, utilizado pelo Patriarcado Ecumênico do século VII ao XVIII, estabelecia que o mundo foi criado no dia 10 de setembro de 5509 a.C. O termo “início da criação do mundo” não deve ser interpretado, obviamente, em sentido temporal. Apesar das muitas adaptações no calendário, a Igreja Ortodoxa e as Igrejas Católicas Bizantinas, mantêm essa data como o “início” do Ano Litúrgico. A criação não é vista como um passado remoto, mas um ato contínuo de amor divino, obra da Trindade.
“... e tão nova” o passado próximo da Missa Pro custodia creationis
Mais próximo a nós, precisamente no ano de 1989, o Patriarcado Ecumênico instituiu a Jornada Mundial de Oração pela (em favor da) criação (o mundo criado), fixando como data o tradicional 10 de setembro. O clima do Grande Jubileu de 2000 fez com que o Conselho das Conferências Episcopais Europeias incentivasse e acolhesse o convite para a Jornada de Oração. Em 1997 apareceu a primeira referência “ocidental” à “Festa da Criação”. Em 2006, a Conferência Episcopal Italiana decidiu celebrar anualmente a Jornada pela criação no dia 10 de setembro, seguindo o exemplo da Conferência Episcopal das Filipinas que tinha começado a celebrar três anos antes (2003).
No dia 18 de junho de 2015, o Metropolita Iōannīs Zīzioulas, então titular da metropolita de Pérgamo e Adramittio, do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla († 2023), durante a coletiva de imprensa sobre a Laudato Si’, sugeriu: “Não poderia esse dia se tornar uma data de oração para todos os cristãos?”. O Papa Francisco aceitou prontamente a sugestão e, no dia 6 de agosto do mesmo ano, instituiu na Igreja Católica a “Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação”, escrevendo anualmente mensagens oficiais para o Dia.
Uma “festa” para celebrar o Criador
De muitas partes do mundo, nos anos 90, pediu-se às autoridades competentes a instituição de uma festa litúrgica para o Pai . Cantalamessa sugeriu que se chamasse ao “Pai criador” e, contemporaneamente, fosse uma “festa da criação”, sublinhando que essa deveria ser uma decisão de todas as Igrejas cristãs . A coincidência do jubileu dos 1700 anos do Concílio de Niceia (325) e do Jubileu ordinário (2025) motivou o nascimento oficial dessa festa comum. Em março de 2024, numa conferência ecumênica em Assis conformou-se que as vearias Igrejas instituiriam em 2025 a nova festa.
Segundo a perspectiva do rito romano – um seminário
Como resposta ao processo ecumênico global para que as Igrejas ocidentais instituíssem conjuntamente “uma nova festa litúrgica sobre o mistério da Criação”, inspirada na antiga tradição do calendário litúrgico bizantino, entre os dias 6 e 7 de dezembro de 2024, a Igreja Católica de rito romano, promoveu em Assis, um Seminário internacional de estudos, intitulado “A festa do Mistério da Criação em Cristo. Uma análise histórica, teológica e pastoral a partir da perspectiva católica romana” . Participaram do Seminário teólogos de várias disciplinas, especialmente liturgistas, quatro Conferências Episcopais continentais, entre as quais o CELAM, cerca de 30 Conferências Episcopais nacionais, três dicastérios do Vaticano (Culto Divino, Unidade dos Cristãos e Desenvolvimento Humano). Embora centrado sobre o tema da liturgia, o Seminário usou o método interdisciplinar, com muitas áreas teológicas representadas. Discutiram no Seminário o Instituto de Liturgia Pastoral de Santa Justina de Pádua, o Instituto de Liturgia, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, o Instituto Litúrgico da Katholieke Universiteit Louvain, o Centro Notre Dame para a Liturgia, da Universidade de Notre Dame e o Pontifício Instituto Litúrgico de Roma, o “Santo Anselmo”. Além deles intervieram a Faculdade de Teologia, da Pontifícia Universidade Lateranense, o Instituto de Estudos Ecumênicos São Bernardino, da Pontifícia Universidade Antonianum, a Aliança Laudato Si’, das Pontifícias Universidades de Roma, o Instituto de pesquisa Laudato Si’, da Universidade de Oxford, além do Pro Civitate Cristiana e o Instituto Universitário Sophia.
Programa
Limitamo-nos aqui a indicar o programa do Seminário com os respectivos preletores. Antes de tudo, os ecumenistas contextualizaram o diálogo introduzindo o processo ecumênico dessa nova festa e delineando algumas motivações que encorajavam a Igreja Católica a tomar parte à iniciativa. Intervieram, pelo Conselho Mundial das Igrejas o bispo luterano alemão Dom Heinrich Bedford-Strohm, o professor Simone Morandini, pelo Instituto de Estudos Ecumênicos São Bernardino e a professora Kimberly Belcher, pela Universidade de Notre Dame.
A análise histórica foi articulada em dois tempos. O primeiro tempo ocupou-se da “História do Dia da Criação”. A professora Lesya Sabada, da Eparquia católica ucraniana de Saskatoon e St. Thomas More College, ocupou-se da história antiga, discorrendo até a inovação de 1989. Para a história mais recente, o Cardeal Matteo Zuppi testemunhou a experiência da Conferência Episcopal Italiana e o bispo Dom Rex Ramírez discorreu sobre a experiência filipina. Para a fase do pós 2015 o Cardeal Jaime Spengler, em nome do CELAM e a irmã (religiosa africana) Maalifa Poreku, representando a União Internacional das Superioras Gerais, composta por cerca de 2000 Congregações religiosas femininas, com mais de 600.000 irmãs. O segundo tempo ocupou-se de “O passado e o presente do ‘criado’ e da criação na liturgia”. Interviram as teólogas Teresa Berger, da Universidade de Yale e Elena Massimi, FMA, do Instituto de Liturgia Pastoral de Santa Justina de Pádua.
A análise teológica era dividida em três blocos. O primeiro ocupou-se “Da Teologia Dogmática”. A professora Alenka Arko, da Universidade de Lubljana, discorreu sobre o tema da “Dimensão cristológica da criação na Bíblia e na patrística” e o bispo Dom Ignazio Sanna, emérito da Pontifícia Academia de Teologia, falou da “Dimensão trinitária-cristológica da criação em S. Tomás de Aquino”. No segundo bloco – Da Teologia Litúrgica – os professores Basilius Groen, do Pontifício Instituto Oriental, e Luigi Girardi, do Instituto de Liturgia Pastoral de Santa Justina de Pádua, ocuparam-se do tema “Criação e ano litúrgico: perspectivas do oriente e do ocidente”. Das “Potenciais definições (teológico-litúrgicos) da festa” ocuparam-se os professores Christopher Irvene, do Instituto Litúrgico Mirfield e Catherine Vincie, RSHM, que ensinou no Instituto de Teologia “dell’Aquinate”. O terceiro e último bloco ocupou-se “Da Teologia aplicada”. Sobre as questões relativas ao grau e a data da festa ocupou-se o professor Timothy Brunk, da Universidade de Villanova; o professor Joris Geldhof, do Instituto Litúrgico da Univeridade de Louvain do tema das fontes presentes no Missal Romano para um possível formulário e a professora Lisa Hancock, metodista, consultora para os “Textos Comuns” tratou da “Análise de opções para o lecionário”.
A análise pastoral teve quatro intervenções. A professora María Lía Zervino, do Movimento Laudato Si’ e da União Mundial das Organizações Femininas Católicas, tratou do tema “Revelar o papel formativo da liturgia”; o padre James Bhagwan, da Conferência das Igrejas do Pacífico, trabalhou o tema “Afrontar a crise ecológica: lex orandi, lex credendi, lex vivendi”; o tema “Responder à ameaça do ‘cientificismo’” foi abordado pela professora Janet Soskice, da Universidade de Cambridge e Duke University; finalmente, Shawna Nemesia Rebello, do Don Bosco Green Alliance, afrontou o tema “Ajudar o acompanhamento e a evangelização dos jovens”.
A última parte do programa, confiada aos professores Angelo Lameri, da Pontifícia Universidade Salesiana e Pietro Angelo Muroni, da Pontifícia Universidade Urbaniana, ocupou-se de um “Estudo comparativo das últimas ‘novas festas’”: Sagrada Família (1921); Solenidade de Cristo Rei (1925); Batismo do Senhor (1955); São José operário (1955); Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eteno Sacerdote (2012); Maria, Mãe da Igreja (2018) e Bem-Aventurada Virgem Maria de Loreto (2019).
Algumas conclusões
Os membros do Seminário elaboraram algumas conclusões a nível especulativo, obviamente, visto que a decisão é de competência exclusiva da Santa Sé.
Duas perguntas guiaram o debate: 1. O Dia da Criação deveria se tornar uma festa litúrgica no rito romano ou deveria permanecer somente um “costume” não litúrgico? 2. Se sim, deveria ser uma instituição no Calendário Romano Geral ou deveria ser uma festa “facultativa” (como Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eteno Sacerdote) que as Conferências Episcopais poderiam livremente adotar? Quais classificação e data seriam mais apropriadas?
Como resultado, a grande maioria (92%) achou que seria oportuno que esse Dia se torne uma festa litúrgica no rito romano; a maioria (66%) achou que deveria ser classificada com o grau de solenidade, celebrada num domingo; a escolha sucessiva (13%) seria uma festa facultativa que as Conferências Episcopais poderiam adotar. Advertiu-se ainda a necessidade de escutar mais vozes diferentes, sobretudo, do hemisfério Sul, “o lugar onde reside a extragrande maioria dos católicos”.
Finalmente apareceram cinco critérios para qualquer nova festa litúrgica: 1. Encarnar um mistério teológico central (critério preliminar, necessário, mas não suficiente); 2. Ser iluminada (mais especificamente) pelo mistério de Cristo (critério crucial); 3. Ser iluminada pelo Mistério Pascal (critério crucial); 4. Ser enraizada numa antiga tradição litúrgica (critério desejado) e 5. Ter um precedente na piedade popular (critério desejável). Sugeriram-se ainda propostas de títulos: “Festa do mistério de Cristo Criador”; “Festa do mistério da criação em Cristo Jesus”, “Festa da Criação em Cristo”; “Festa do Deus Criador e da Criação”.
Nos momentos finais do Seminário, na sessão que se ocupou dos “Próximos passos”, entre as “Perguntas abertas para uma ulterior reflexão”, tratou-se da possibilidade da criação de um formulário de missa “Para as Diversas Necessidades” “para ser utilizado no contexto do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação”, que ajudaria a sedimentar o tema enquanto se pensaria à possibilidade concreta da festa litúrgica, ou não.
O formulário apresentado
Ao quanto parece, a última proposta do Seminário foi levada em consideração. Para uma olhada complessiva do formulário, usamos o texto original com a tradução portuguesa disponível no site supracitado, que certamente será “abrasileirada”, se necessário, pela CETEL.
O Decreto de aprovação da parte do Papa Leão XIV emanado pelo Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (Prot N. 283/24), assinado pelo Cardeal Prefeito do Dicastério, Artur Roche e pelo Secretário Dom Vitório Francisco Viola, OFM, tem como data o dia 8 de junho de 2025.
O Documento se abre com uma citação bíblica veterotestamentária (cf. Pr 31,31; Dn 3,57) e uma referência agostiniana (Confissões, XIII, 33). Discorre sobre o mistério da criação que “culmina em Cristo e do mistério de Cristo recebe a luz decisiva” e necessária para a sua compreensão, e recorda a exortação escriturística do louvor à Trindade pela criação como sinal da sua benevolência. Referindo-se à Laudato Si’ n. lembra que essa mesma maravilhosa obra da Trindade está sendo ameaçada e que, por esse motivo, se considera oportuno esse formulário de Missa. A esse ponto cita textualmente um trecho da homilia do Papa Bento XVI, na Missa de “Corpus Christi”, de 15 de junho de 2006: “Na Eucaristia ‘o mundo, que saiu das mãos de Deus, retorna a Ele em alegria e plena adoração: no Pão eucarístico a criação é endereçada à divinização, na direção das núpcias sagradas, na direção da unificação com o próprio Criador”. Tudo se conclui com as formalidades burocráticas de todos os decretos, nomeando o Papa que aprova o formulário juntamente com o lecionário e ordena que seja divulgado.
MISSA PRO CUSTODIA CREATIONIS
Ant. ad introitum Ps 18 (19), 2
Cæli enárrant glóriam Dei,
et ópera mánuum eius annúntiat firmaméntum.
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Os céus proclamam a glória de Deus
e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
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Collecta
Pater,
qui in Christo, primogénito omnis creatúræ, (cf. Cl 1,15-16)
univérsa ad exsisténtiam vocásti, (cf. Dominum et vivificantem, 34)
præsta, quǽsumus, ut, dóciles Spíritus tui spiráculo vitæ, (cf. Gn 2,7)
ópera mánuum tuárum in caritáte custodiámus (cf. Gn 2,15; Sl 8,7) .
Per Dóminum.
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Deus nosso Pai,
que em Cristo, o Primogénito de toda a criatura;
chamastes à existência todas as coisas,
fazei que, dóceis ao sopro vital do vosso Espírito,
cuidemos com amor a obra das vossas mãos.
Por nosso Senhor Jesus Cristo,
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Super oblata
Súscipe, Pater,
hos fructus terræ nostrarúmque mánuum:
pérfice in eis opus creatiónis tuæ
ut, a Spíritu Sancto transformáti,
cibus et potus vitæ ætérnæ pro nobis fiant (cf. Jo 6,54-55) .
Per Chirstum
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Recebei, Pai santo,
estes frutos da terra e do nosso trabalho:
aperfeiçoai neles a obra da vossa criação,
para que, transformados pelo Espírito Santo,
se tornem para nós alimento de vida eterna.
Por Cristo nosso Senhor.
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Ant. ad communionem Ps 97 (98), 3
Vidérunt omnes términi terræ
salutáre Dei nostri.
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Todos os confins da terra viram
a salvação do nosso Deus.
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Post communionem
Sacraméntum unitátis quod accépimus, Pater, (cf. Agostinho, Com. Evan. João 26,13)
communiónem tecum áugeat fratribúsque
ut, novos cælos et terram novam exspectántes, (cf. 2Pd 3,13)
conveniénter una cum ómnibus creatúris vívere discámus. (cf. Laudato Si’, 66)
Per Christum.
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O sacramento de unidade que recebemos, ó Pai,
aumente em nós a comunhão convosco e com os irmãos,
para que, esperando os novos céus e da nova terra,
aprendamos a viver em harmonia com todas as criaturas.
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LECTIONES BIBLICÆ
Leitura AT
Salmo Responsorial
Leitura NT
Salmo Responsorial
Aleluia
Evangelho Sb 13,1-9
Sl 18,2-3.4-5 – R. (2a) Os céus proclamam a glória de Deus
Cl 1,15-20
Sl 103, 1-2a.5-6.10.12.24.35c – R (31b) O Senhor se alegre nas suas obras
Sl 24,10
1Cro 29,11d.12b
Mt 6,24-34
Mt 8,23-27
A apresentação do formulário
Durante a apresentação dessa manhã, o Cardeal Michael Czerny, S.I., depois de contextualizar o lugar do formulário dentro do Missal, recordou que nas últimas décadas os papas (João Paulo II e Francisco) têm afirmado “a recíproca responsabilidade entre o ser humano e a natureza”, sublinhando que o formulário em questão tem como fim “render graças a Deus nosso Criador e pedir para que aprendamos a tomar cuidado do Seu dom”. sublinhou ainda que o Papa Leão usará o formulário pela primeira vez semana que vem, em Castel Gandolfo e concluiu dizendo eu “Com essa Missa, a Igreja oferece um apoio litúrgico, espiritual e comunitário para o cuidado que todos nós devemos ter para com a natureza, a nossa casa comum. Tal serviço é verdadeiramente um grande ato de fé, esperança e caridade. Essa Missa é motivo de alegria. Renova a nossa gratidão, reforça a nossa fé e nos convida a responder com cuidado e amor, um sentimento sempre crescente de estupor, respeito e responsabilidade. Chama-nos a sermos fiéis administradores daquilo que Deus nos confiou nas nossas escolhas cotidianas e nas políticas públicas, assim como na oração, no culto e no modo com o qual vivemos no mundo”.
O Secretário, Dom Vittorio Francesco Viola, começou recordando a Encíclica Laudato Si’(24 maio 2015), à qual fez constantes referências, que chamou a atenção de crentes e não crentes ao tema do cuidado com a casa comum, retomado na Exortação Laudade Deum (4 outubro 2023). Depois desenvolveu brevemente o tema da criação na liturgia “em particular, na memória anual da Páscoa, cada domingo, em cada celebração eucarística (por exemplo na apresentação dos dons), nas Rogações, nas Quatro Têmporas e em cada sacramento”. Depois passou a apresentar de modo muito sintético o formulário e o lecionário, recordando que ele nasce e se inspira “na correta hermenêutica bíblica à qual Papa Francisco nos chama. No n. 67 da Laudato Si’, se lê: «...Enquanto «cultivar» quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, “guardar” significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isto implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza»”. Segundo o Secretário, os textos do lecionário “Representam, de certa forma, um ‘desafio’ e uma oportunidade para pôr em prática aquela hermenêutica correta dos textos bíblicos, na ausência da qual – como sublinhou a LS 67 – se poderia acabar por sustentar posições não coerentes com os dados da Revelação, como, por exemplo, a atitude que a LS 69 define como ‘antropocentrismo desviante’”.
Finalmente, concluiu dizendo que “a Missa pro custodia creationis acolhe algumas das principais instâncias contidas na LS e as expressa em forma de oração no quadro teológico que a encíclica relança. Os textos eucológicos que compõem este formulário são um bom antídoto contra uma certa leitura
da LS que corre o risco de reduzir a profundidade do seu conteúdo a uma “ecologia superficial ou aparente” (LS 59) distante daquela “ecologia integral” amplamente descrita e motivada no texto (ver LS cap. IV)”.
Depois da exposição de ambos, responderam-se as perguntas dos jornalistas presentes. De uma festa litúrgica, todavia, não se falou nada.
Conclusões pontuais abertas
Consideramos que a publicação desse formulário de missa seja primeiro grande passo para a instituição da festa litúrgica do mistério da Criação. Serve para amadurecer a discussão litúrgico-teológica. Esse também é o primeiro passo para provocar aquela unidade celebrativa da fé em Deus [Pai Criador], de acordo com a profissão de fé de Niceia:
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis...
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo... Por ele todas as coisas foram feitas...
Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida...
Ao contrário do que muitos poderiam crer, trata-se de uma dinâmica teológico-celebrativa profundamente enraizada na tradição litúrgica da Igreja “Católica”, portanto, privada de invencionismos. Entre outras coisas, o formulário e a proposta da festa, como vimos, não constitui uma novidade/invenção “franciscana” (do Papa Francisco), mas de um processo de mais de 25 anos. Pode-se afirmar que esse formulário “concebido” durante pontificado de João Paulo II, “amadurecido” durante o pontificado de Bento XVI, preparado no pontificado de Papa Francisco e “parido”, dado à luz, no pontificado de Leão XIV.
A promulgação desse formulário também confirma a dimensão evangélica da temática das últimas Campanhas da Fraternidade promovidas pela CNBB. É um convite aos estudiosos darem também razões históricas “tradicionais” aos temas que, como visto, são caros à mais venerável tradição da catolicidade da Igreja. Finalmente, o tema da “conversão ecológica integral”, pertencendo agora plenamente ao “depositum liturgiae”, portanto, exercitando o papel devido à lex orandi, na sua relação direta de “princípio principiante” da lex credendi, servirá como indicador formativo dos crentes que professam a sua fé na Trindade Criadora e na Igreja, “uma, santa e católica”, como primeira responsável de lutar pela preservação da Criação. Isso nos abre novas perspectivas para o tema Amazônia.
Dom Jerônimo Pereira, OSB
Presidente da ASLI
Roma, 3 de julho de 2025
Festa de São Tomé, Apóstolo
1. Cf. J. GALOT, Fêter le Père, Mame, Paris 1993.
2. Cf. R. CANTALAMESSA, Un inno di silenzio. Meditazioni sul Padre, Messaggero, Padova 1999, 194-195.
3.www.bit.ly/materiali-seminario2024
4. “Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda a Criação. Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele”.
5. 34. «O Espírito de Deus», que segundo a descrição bíblica da criação, «adejava sobre as águas», indica o mesmo «Espírito que perscruta as profundezas de Deus»: perscruta as profundezas do Pai e do Verbo-Filho no mistério da criação. Não é somente a testemunha direta do seu recíproco amor, do qual deriva a criação, mas Ele próprio é esse Amor. Ele mesmo, como Amor, é o eterno Dom incriado. N'Ele está a fonte e o início de toda a boa dádiva para as criaturas. O testemunho do princípio, que encontramos em toda a Revelação, começando pelo Livro do Génesis, é unânime quanto a este ponto. Criar quer dizer chamar do nada à existência; portanto, criar quer dizer doar a existência. E se o mundo visível foi criado para o homem, é ao homem, portanto, que o mundo é doado.
6. “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente”.
7. “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para cultivar o solo e o guardar” / “Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo.”
8. “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida”.
9. “O corpo de Cristo não pode viver senão pelo Espírito de Cristo. É o que diz o Apóstolo quando nos fala deste pão: Porque há um só pão, nós, embora muitos, somos um só corpo (1 Cor 10,17). Mistério de amor! Símbolo de unidade! Vínculo de caridade! Quem deseja viver tem onde morar, tem o que é preciso para viver. Que venha, que creia, que se torne parte do Corpo, e será vivificado. Que não desdenhe pertencer à companhia dos membros, que não seja um membro infectado que deva ser amputado, que não seja um membro deformado que deva ser envergonhado”.
10. “Nós, porém, segundo sua promessa, esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça”.
11. “As narrações da criação no livro do Génesis... sugerem que a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas. Este fato distorceu também a natureza do mandato de «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28) e de a «cultivar e guardar» (cf.Gn 2, 15). Como resultado, a relação originariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se num conflito (cf.Gn 3, 17-19). Por isso, é significativo que a harmonia vivida por São Francisco de Assis com todas as criaturas tenha sido interpretada como uma sanação daquela ruptura. Dizia São Boaventura que, através da reconciliação universal com todas as criaturas, Francisco voltara de alguma forma ao estado de inocência original. Longe deste modelo, o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza”.
