HOMILIA, PARA QUE?

HOMILIA, PARA QUE?
Pe. Márcio Pimentel
 
No tempo do Natal, as celebrações nos convocam a darmos atenção ao dinamismo “kerigmático” da fé cristã. Assim como os anjos aos pastores, a Igreja ao mundo anuncia a luminosa salvação do Verbo Encarnado. Pareceu-nos, então, interessante propor algumas palavras sobre a pregação litúrgica. Não o faremos “de uma vez”; o assunto é denso e os argumentos são extensos. Então, a sugestão é apresentar alguns apontamentos sobre a questão no giro de alguns “ensaios”, aqui no espaço que a Asli nos concede, como contribuição para, quem sabe, um saboroso debate.
Estamos colhendo nos dias de hoje os frutos maduros da reforma litúrgica encomendada por ordem conciliar, por uma absoluta maioria de votantes no Sínodo Ecumênico da Igreja Católica de rito romano, que durou de 1962 a 1965. No intuito de ver renovada a comunidade dos fiéis, a primeira providência foi cuidar de suas raízes, isto é, da vida litúrgico-sacramental dos discípulos e discípulas de Jesus. Como bem afirmara São Paulo VI, a oração é a primeira obrigação dos cristãos e cristãs. É pela participação no diálogo fervoroso com o Deus da Aliança que se haure o autêntico espírito cristão.
Dentre as muitas necessidades constatadas pelos bispos nas dioceses do mundo inteiro e, ainda, dos vários centros de estudo universitários e da cúria romana, despontou a importância da pregação, especialmente aquela que se oferece à comunidade orante, ou seja, a homilia. Uma vez degenerada em sermão moralizante, era imprescindível que a Igreja recuperasse uma de suas mais eminentes formas de anúncio do Evangelho. Não se deve esquecer que a pregação sempre teve lugar de destaque no que concerne à vida eclesial, em particular, no começo da experiência eclesial em torno da figura de Jesus de Nazaré. A confissão de fé, sem dúvidas, tomou forma e as diversas Igrejas foram se estruturando a partir do anúncio potente da Palavra de Deus, sobretudo quando ouvida, tocada e comungada nas assembleias litúrgicas. Sua importância era tal que se lê nas inúmeras contribuições que chegaram na fase “ante-preparatória” do Concílio, o desejo argumentado de que a homilia fosse não apenas recomendada, mas tida como obrigatória no culto ritual.
Sessenta anos depois, faz-nos bem olhar para a prática homilética em nossas comunidades no intuito de verificar se, de fato, aquilo que o Concílio apontou como “valde commendatur”, ou seja, recomendada com veemência. Aqui, uma primeira observação é necessária: a pregação em contexto litúrgico não é tão só apropriada e, então, “muito” indicada ou aconselhada. O advérbio de intensidade “valde” implica a dimensão de vigor, de força – e por isso é algumas traduções encontraremos a expressão “fortemente recomendada”. Mas é preciso salientar que exatamente a “força” institucional da recomendação. Sacrosanctum Concilium está normatizando a reforma dos ritos e aquilo que nela se lê não pode ser considerado com mera sugestão. Estamos falando de uma Constitutio, que na tipologia dos documentos pontifícios goza do mais alto grau de importância, e mais ainda, uma Constitutio Conciliaris. Outro aspecto importante, é que o verbo latino commendare, normalmente traduzido por “recomendar”, possui um valor semântico mais preciso e autoritativo. Essa palavra está relacionada à missão da Igreja que é de anunciar e realizar a salvação que nos foi oferecida em Cristo, por seu Mistério Pascal (cf. SC 6). Assim, commendare seria melhor compreendido como um verbo que indica o dinamismo pelo qual o Senhor confiou à sua Igreja e esta aos seus ministros o anúncio do Evangelho e a iminência do seu Reinado. Integra o dinamismo traditio-reditio, que marca não apenas a iniciação aos mistérios, mas a vida dos que foram iniciados. 
A homilia no quadro da celebração litúrgica encontra-se em um momento “estratégico” pois nela entrecruzam-se proposta e resposta, anúncio e cumprimento da Palavra de Deus. Nesse sentido, é imprescindível inculcar o aspecto prioritariamente litúrgico, diga-se ritual, da homilia. O Diretório Homilético publicado pelo Dicastério do Culto Divino é muito claro ao afirmar que uma das lacunas mais evidentes da prática homilética é relativa à sua qualidade celebrativa. Ao que parece, embora os inúmeros subsídios para a preparação da pregação tenham contribuído para desconstruir uma perspectiva puramente moralizante ou doutrinal da homilia, dotando-lhe de aparência e conteúdo mais bíblico, ainda se desconsidera a sua característica intrinsecamente ritual. Lê-se, no Diretório:
A reforma litúrgica pós-conciliar tornou possível à pregação na Missa a partir de uma mais rica seleção de textos bíblicos. Mas o que dizer sobre eles? Na prática, o homiliasta, muitas vezes responde a essa pergunta consultando os comentários bíblicos para dar um certo background às leituras, e oferecer uma espécie de aplicação moral geral. O que às vezes falta é a sensibilidade sobre a natureza peculiar da homilia como parte integrante da celebração eucarística. (DH, n. 16)
 Essa observação deve trazer-nos preocupação, sobretudo num tempo em que alguns setores da Igreja insistem em repristinar elementos e costumes pré-conciliares, que não se limitam aos paramentos, mas incidem diretamente na mentalidade ainda pouco formada segundo os ditames do Concílio e, sobretudo, em conformidade com a lex orandivigente na Igreja, aquela presente nos livros litúrgicos da reforma litúrgica, aprovados pela Sé Apostólica e em uso atualmente. Aqui e ali retornam (se é que haviam desaparecido) pregações em parte ou completamente alheias ao mistério celebrado, tornando a oração litúrgica um mero background para um discurso por vezes centrado na moral e costumes. Mas isso não é uma “enfermidade” que se nota apenas em personagens aos quais se possa rotular “tradicionalistas”. Também na mente de alguns chamados “progressistas”, não é de hoje que a homilia é empregada como veículo para assuntos que são dissonantes  daquilo que a Igreja confia aos seus ministros, quando ao serviço da Palavra de Deus.
Em todo caso, já passou da hora de superarmos uma compreensão extremamente redutiva da homilia, dado seu significado para o nosso povo, que costuma qualificar uma celebração como boa ou ruim a depender do conteúdo da pregação. Embora seja um critério insuficiente, nota-se, no entanto, o valor que a pregação litúrgica tem no coração dos fiéis, o que exige de nós uma análise mais cuidadosa. E é a isso que procuraremos nos dedicar a partir deste pequeno ensaio.

 
Indique a um amigo