EDUCAR OS SENTIDOS PARA DEUS: UM CAMINHO MISTAGÓGICO NA QUARESMA
Fr. Luis Felipe Marques, OFMConv.
O tempo da Quaresma coloca novamente diante de nós um verdadeiro itinerário sacramental e mistagógico, portador de uma graça singular, de um apelo profundo à conversão e de uma progressão “no conhecimento do mistério de Cristo”. Trata-se de um caminho que nos introduz, de modo progressivo, no Mistério Pascal, convidando-nos a rever a própria existência em todas as suas dimensões à luz da presença de Deus, que nos chama à autenticidade e à renovação interior. Não é apenas uma preparação remota para a Páscoa, mas um processo espiritual que, passo a passo, vai reconfigurando o coração do fiel, segundo a lógica do Evangelho, a ensinando-o a “vencer o fermento da maldade”.
Esse caminho quaresmal constitui um verdadeiro processo de transformação interior. À medida que avançamos rumo à Páscoa, somos convidados a permitir que a graça de Deus ilumine nossas escolhas, purifique intenções e fortaleça propósitos. A Quaresma torna-se, assim, um tempo favorável para reorganizar a vida a partir do essencial, reencontrando o sentido profundo da fé e restaurando a centralidade de Deus no cotidiano.
Como recorda Papa Leão XIV em sua mensagem para a Quaresma de 2026, este é “o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano”. Essas palavras sublinham que a Quaresma não se reduz a práticas externas ou à simples abstinência alimentar, mas se apresenta como ocasião privilegiada de reencontro com o Senhor.
Mais do que um conjunto de observâncias, ela é um itinerário de amadurecimento espiritual. É tempo de regressar ao Senhor com o coração inteiro, deixar-se purificar pela sua misericórdia e reconstruir a própria existência sobre fundamentos sólidos: o amor que edifica, a fé que sustenta e a verdade que liberta. Trata-se de uma conversão integral que alcança pensamentos, linguagens, olhares, afetos, relações e compromissos concretos.
Vivemos imersos no excesso de estímulos, na pressa constante e numa superficialidade que dispersa o coração. Não raramente, experimentamos uma espécie de atrofia interior: vemos, mas não contemplamos; escutamos, mas não acolhemos; tocamos, mas não nos deixamos afetar. Essa anestesia espiritual impede-nos de perceber a realidade como lugar da manifestação de Deus.
A Quaresma apresenta-se, então, como um tempo favorável para reaprender a sentir, falar, olhar, escutar e tocar a vida com atenção renovada. Trata-se de permitir que os sentidos, purificados e reordenados, voltem a ser caminhos de encontro com o Mistério que se comunica no concreto da história.
Assim, o itinerário quaresmal configura-se como uma verdadeira pedagogia espiritual: educa para a sobriedade, purifica os afetos desordenados e reconduz o coração à sua transparência diante de Deus. Trata-se de um caminho de conversão concreta, no qual os sentidos são reordenados e a interioridade é restaurada. Educar os sentidos é realizar um verdadeiro êxodo interior: da dispersão à atenção, do ruído à escuta, do consumo à comunhão, do superficial ao nobre, do excesso à sobriedade, da indiferença à compaixão, do apego ao transitório à busca do que permanece.
A tradição da Igreja sempre reconheceu que, na Escritura e na liturgia, Deus fala, toca, alimenta e Se deixa ver; os sentidos tornam-se, assim, limiares entre o visível e o invisível. Quando purificados pela graça, deixam de ser portas de dispersão e convertem-se em espaços de comunhão, tornando-se autênticos lugares de encontro com o Mistério Pascal que celebramos e que transforma toda a existência.
O itinerário que ora sugerimos encontra inspiração na proposta mistagógica da Diocese do Porto (Portugal) para a Quaresma. A partir dela, recolhemos, de forma breve e integrada, alguns pontos que iluminam a necessária e sempre atual conversão dos sentidos.
Percurso Dominical da Quaresma à Páscoa
O teólogo brasileiro Felipe Koller, em sua proposta quaresmal divulgada nas redes sociais da Associação dos Liturgistas, em 2025, ao refletir sobre as práticas tradicionais deste tempo, ressalta a força transformadora da esmola, da oração e do jejum. A esmola desloca-nos do fechamento em nós mesmos e educa o olhar para reconhecer a necessidade do outro como própria; rompe o individualismo e introduz-nos na dinâmica da comunhão. A oração reconduz-nos ao centro, ao encontro com Deus que habita o mais íntimo do nosso ser; ela pacifica as dispersões e reaviva a consciência filial. O jejum, por sua vez, desperta o corpo da apatia, purifica-nos do excesso de estímulos que nos anestesiam e restitui-nos o sabor simples e verdadeiro do essencial. “Pelo jejum quaresmal, nossos vícios são corrigidos e nosso espírito é elevado”.
A partir dessa tríplice prática, a Quaresma pode ser vivida como um despertar progressivo dos sentidos, que encontra sua plenitude na Páscoa. Não se trata apenas de um esforço ascético, mas de um itinerário de sensibilização espiritual. Os cinco sentidos são convocados e integrados como vias concretas de aprofundamento da fé, pois é por meio deles que acolhemos o mundo e exprimimos nossa resposta crente diante da ação de Deus.
A celebração litúrgica, com a riqueza de seus símbolos, gestos, palavras, sons, silêncios, luzes e perfumes, cria um verdadeiro universo sensível capaz de envolver a pessoa inteira. A superficialidade cede lugar a uma sensibilidade amadurecida; a dispersão transforma-se em atenção orante; a rotina abre espaço ao assombro diante do mistério; os sinais tornam-se símbolos sensíveis de uma realidade admirável. A liturgia revela-se, assim, autêntica escola dos sentidos e pedagogia da fé, na qual o corpo e o espírito caminham juntos rumo à transformação pascal.
Nesse horizonte, cada etapa dominical do caminho quaresmal corresponde a uma abertura específica da sensibilidade humana, iluminada e transfigurada por Cristo. Trata-se de um percurso pedagógico e mistagógico que nos conduz da Quaresma à Páscoa, no qual o Senhor vai progressivamente abrindo nossos sentidos, para que a vida cotidiana se torne espaço de encontro com Deus e, por isso mesmo, experiência de vida nova.
O itinerário pode ser assim contemplado:
- I Domingo da Quaresma – Abertura do coração (síntese e integração dos sentidos)
- II Domingo da Quaresma – Abertura do ouvido (escuta da Palavra)
- III Domingo da Quaresma – Abertura do paladar (fome e sede de Deus)
- IV Domingo da Quaresma – Abertura da visão (a luz que ilumina)
- V Domingo da Quaresma – Abertura do tato (a vida tocada e transformada)
- Semana Santa – Abertura do olfato (o perfume da Ressurreição)
Assim, o itinerário dominical da Quaresma não se reduz a uma simples sucessão de temas, mas configura-se como verdadeira pedagogia espiritual e ação simbólico-ritual. Cada domingo, com sua tonalidade própria, introduz-nos progressivamente no mistério de Cristo, educando nossos sentidos para que, purificados e unificados, se tornem lugares de acolhida e reconhecimento do Mistério.
Ao longo das semanas quaresmais, é o próprio Cristo quem nos forma interiormente; e a Igreja, pela força performativa de sua oração, ensina-nos a crer enquanto nos faz rezar, de modo que, na experiência celebrada, a fé seja assimilada e a verdade professada se torne vida.
Unidos a Cristo e em comunhão com a Igreja, percorremos um caminho que encontra sua plenitude na Páscoa. Ali, com os sentidos despertos e o coração recentrado, tornamo-nos capazes de perceber, celebrar e testemunhar a vida nova que o Ressuscitado derrama sobre o mundo, assumindo-a como princípio de renovação pessoal e eclesial.
A Quaresma como Escola dos Sentidos
No primeiro domingo da Quaresma, a primeira abertura é a do coração, núcleo vital da pessoa, onde se entrelaçam pensamento, afetos e relações. É nesse espaço interior que se decide a orientação da existência; por isso, toda verdadeira conversão começa no íntimo, ali onde Deus fala ao coração e o transforma no silêncio. Abrir o coração significa consentir que a graça alcance as raízes das motivações, cure as feridas ocultas e reorganize a vida a partir do amor que desce do alto.
No segundo domingo, abre-se o ouvido, para que aprendamos a escutar autenticamente a Palavra de Deus. Não basta captar sons ou acumular conteúdos religiosos; é preciso acolher uma Voz que interpela, corrige, consola e recria. A escuta obediente torna-se fundamento de uma fé viva, permitindo que a Palavra modele o pensamento, purifique os desejos e oriente as escolhas concretas, transformando a existência em resposta confiante à iniciativa divina.
No terceiro domingo, somos conduzidos à abertura do gosto e do paladar, sentidos que evocam a fome e a sede mais profundas. Eles nos ajudam a reconhecer que todo desejo humano aponta para uma plenitude maior. Ao recuperar o sabor do essencial, libertamo-nos do excesso que dispersa o coração e redescobrimos nossa dependência vital de Deus, fonte que sacia toda sede e dá sentido a toda busca.
No quarto domingo, a abertura da visão convida-nos a acolher a luz que permite contemplar a realidade com os olhos de Cristo. Não se trata apenas de ver exteriormente, mas de discernir, nos acontecimentos e nas pessoas, os sinais discretos da presença divina. A fé ilumina inclusive o que parece obscuro ou contraditório, oferecendo um olhar transfigurado que reconhece, no cotidiano, a ação silenciosa de Deus.
No quinto domingo, a abertura do tato introduz-nos na experiência da proximidade e da compaixão. Tocar e deixar-se tocar significa aceitar a própria vulnerabilidade, aproximar-se da vida ferida e permitir que o sofrimento do outro nos comova e nos transforme. É a encarnação concreta da caridade: uma fé que se faz gesto, cuidado e presença solidária.
Por fim, na Semana Santa, somos convidados à abertura do olfato — sentido discreto, mas profundamente simbólico, ligado à memória e à presença invisível. Ele evoca o perfume da vida nova que brota da Páscoa, sinal da Ressurreição que Cristo difunde no mundo e que, silenciosamente, renova todas as coisas. O “bom odor” de Cristo permanece como promessa e missão, chamando-nos a irradiar, na história, a fragrância do Evangelho.
Em Jesus Cristo, o invisível tornou-se sensível, visível e vivível. O Filho de Deus assumiu a carne humana e, com ela, os sentidos, fazendo deles lugar de revelação do Pai. Ele nos fala, nos toca, nos alimenta, deixa-Se contemplar e, ressuscitado, permanece presente, espalhando no mundo o bom odor da vida nova. Por isso, os sentidos não são obstáculo à fé, mas verdadeiras portas de acesso ao mistério: é através deles que a vida se dá e que Deus pode ser reconhecido.
A cada sentido corresponde uma modalidade própria de relação com o mistério: a audição, como fé que nasce da escuta obediente da Palavra; o gosto e o paladar, como expressão do desejo de Deus e da consciência de nossa dependência vital d’Ele; a visão, como olhar interior que aprende a ver com os olhos de Cristo; o tato, como proximidade compassiva e vulnerabilidade assumida; e o olfato, como memória viva da presença invisível e anúncio da Ressurreição.
Em cada Domingo, articulam-se Palavra proclamada, celebração litúrgica e vida concreta, ajudando a comunidade a caminhar unida rumo à Páscoa nesse processo de abertura progressiva dos sentidos. Uma antiga invocação litúrgica exprime com beleza essa súplica: Accende lumen sensibus — “ilumina os nossos sentidos”. Educar os sentidos é educar o próprio sentido da fé; é aprender a reconhecer Deus onde Ele já está presente.
Num tempo marcado pela atrofia sensorial e pela dispersão interior, somos chamados a reaprender a ver, a escutar, a tocar, a saborear e a perceber, tornando-nos disponíveis ao Deus que nos fala, nos toca, nos alimenta, nos ilumina e nos chama à vida nova. Viver a Quaresma como caminho integral de conversão significa permitir que Cristo abra progressivamente os nossos sentidos e os transfigure pela sua Páscoa. Assim, a vida cotidiana torna-se lugar de encontro com Deus e experiência concreta de vida nova, vida pascal. E então poderemos repetir, com o apóstolo São João, aquilo que constitui o núcleo do testemunho cristão: “O que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que contemplámos acerca do Verbo da Vida, é isso que vos anunciamos” (1Jo 1,1-3).
Da Quaresma à Plenitude Pascal
Abrir o coração significa permitir que todas as dimensões da pessoa sejam harmonizadas a partir desse centro vital. É deixar que a agressividade e os impulsos desordenados sejam pacificados por um bem maior; que a inteligência e a vontade se coloquem a serviço da verdade, em vez de pretender dominá-la; que a imaginação e os sentimentos se deixem educar pelo ritmo interior da graça. Quando o coração se abre, a pessoa reencontra unidade interior e passa a viver não por fragmentos, mas a partir de um princípio integrador que é o próprio amor de Deus.
Abrir os ouvidos é reaprender a escutar. “Escutai-O”, proclama o Pai no alto do monte da Transfiguração. A escuta é exigente, porque Deus muitas vezes se manifesta na discrição do silêncio. Escutar é mais do que captar sons: é inclinar-se para o outro, acolher o dito e o não dito, reconhecer-se chamado. A fé nasce da escuta e amadurece na obediência confiante. O discípulo é aquele que escuta; por isso, a audição torna-se o sentido da alteridade e da relação amorosa, pela qual nos abrimos à iniciativa de Deus.
Abrir o paladar é redescobrir o sabor. O gosto simboliza o desejo e a intimidade. Num tempo de consumo apressado, corremos o risco de acumular experiências sem verdadeiramente saboreá-las. A vida espiritual, porém, não se nutre de quantidade, mas de profundidade. A fome e a sede presentes no Evangelho revelam que o coração humano deseja mais do que pão ou água: deseja o próprio Deus. Ele não se possui como um objeto; experimenta-se como presença que se saboreia e que transforma por dentro, devolvendo-nos o gosto pelo essencial.
Abrir os olhos é passar do olhar superficial à contemplação. Crer é também aprender a ver — não apenas ver Jesus, mas ver com os olhos de Jesus. O olhar precisa ser purificado do domínio, da pressa e da distração. Ver espiritualmente é habitar a realidade com assombro e discernimento, reconhecendo nela um lugar de revelação. Na tradição bíblica, fé e visão caminham juntas: quem crê aprende a ver mais profundamente e a reconhecer, mesmo nas sombras, a luz que não se apaga.
Abrir as mãos e os braços é entrar na lógica do tato. O tato é o sentido da proximidade, da encarnação e da compaixão. Só quem se deixa tocar pode verdadeiramente tocar. Um cristianismo sem tato torna-se abstrato e desencarnado. Jesus toca a carne ferida da humanidade e deixa-se tocar por ela; do seu corpo irradia uma força que cura e restitui a vida. Tocar a carne sofredora de Cristo nos pobres, nos doentes e nos esquecidos é condição para uma fé concreta, que se traduz em gestos de cuidado e solidariedade.
Abrir o olfato, por fim, é aprender a “sentir” a Páscoa. O perfume é presença invisível que permanece mesmo quando não se vê a fonte; está ligado à memória, ao amor e à esperança. Em Betânia, Jesus é ungido com perfume precioso, antecipando o mistério da sua entrega; na manhã pascal, as mulheres levam aromas ao sepulcro, mas encontram a vida nova. O olfato torna-se, assim, sentido pascal por excelência: anuncia uma presença que já não se vê com os olhos, mas se reconhece pela fé.
Toda a Semana Santa envolve intensamente os sentidos: a Palavra proclamada, os óleos, o incenso, a luz do círio, o silêncio profundo, os beijos, o som festivo dos sinos, as cores e os perfumes. Se na Quaresma educamos os sentidos na sobriedade e na escuta, é para desembocar na plenitude pascal, onde todos eles são convocados a celebrar a vitória da Vida.
Se formos capazes de percorrer esse caminho de transfiguração dos sentidos e de redescobrir o verdadeiro significado da Quaresma, transformando-a num autêntico itinerário mistagógico de vida nova, estaremos mais preparados — interiormente despertos e espiritualmente sensíveis — para celebrar a Páscoa de modo renovado e fecundo.
A boa notícia que precisa atravessar os nossos sentidos, descer ao mais profundo do coração e iluminar toda a existência é esta: Cristo ressuscitou. Se essa verdade for verdadeiramente acolhida, nada em nós permanecerá igual, pois a vida pascal não é apenas celebrada — é vivida e testemunhada.
Viver a Páscoa é deixar-se impregnar pela presença viva do Ressuscitado, acolher em nós a força do seu Corpo glorioso, que continua a agir na história e na Igreja. É permitir que essa vida nova nos atravesse, nos purifique e nos transforme, para que também nós nos tornemos sinal vivo e sensível da Páscoa no mundo.
“Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz” (Papa Leão XIV)..
