DO CENÁCULO AO COTIDIANO: MISTAGOGIA, TRADIÇÃO E SINODALIDADE NO REINÍCIO DO TEMPO COMUM
Por: Pe. Me. José Adalberto Salvini
Presbítero da Diocese de Jaboticabal. Mestre em Teologia Dogmática com Especialização em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (SP). Membro da ASLI (Associação de Liturgistas do Brasil). Membro da Comissão Pastoral para a Liturgia do Regional Sul 1 da CNBB.
RESUMO
O artigo analisa a retomada do Tempo Comum a partir do nexo teológico entre a Solenidade de Pentecostes e a Memória de Maria, Mãe da Igreja. Investigam-se a transição eucológica e a raiz conceitual do memorial bíblico (zikkaron / anamnese), sob o método mistagógico patrístico e escolástico. Em diálogo com o Magistério contemporâneo — destacando a Carta Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV —, as recentes Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026–2032) aprovadas na 62ª Assembleia Geral da CNBB e a sociologia da modernidade tardia, propõe-se uma práxis pastoral sinodal. Esta atuação é estruturada em torno dos eixos da Comunhão, Participação e Missão, configurando-se como uma "tenda que se alarga e se projeta ao encontro" para responder aos desafios da desumanização e do isolamento digital. O itinerário fundamenta-se no Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA), na Carta Apostólica Desiderio Desideravi e na eclesiologia do Documento de Puebla, transmutando a liturgia do altar em culto existencial.
Palavras-chave: Teologia Litúrgica; Mistagogia; CNBB (DGAE 2026–2032); Desiderio Desideravi; Magnifica Humanitas; Puebla.
ABSTRACT
This article analyzes the resumption of Ordinary Time based on the theological nexus between the Solemnity of Pentecost and the Memorial of Mary, Mother of the Church. It investigates the euchological transition and the conceptual roots of the biblical memorial (zikkaron / anamnesis) under the patristic and scholastic mystagogical method. In dialogue with the contemporary Magisterium — highlighting Pope Leo XIV's Encyclical Letter Magnifica Humanitas —, the recent General Guidelines for Evangelizing Action in Brazil (DGAE 2026–2032) approved at the 62nd CNBB General Assembly, and late modernity sociology, a synodal pastoral praxis is proposed. This action is structured around the axes of Communion, Participation, and Mission, shaping itself as a "tent that widens and projects itself toward the encounter" to respond to the challenges of dehumanization and digital isolation. The itinerary is grounded in the Rite of Christian Initiation of Adults (RCIA), the Apostolic Letter Desiderio Desideravi, and the ecclesiology of the Puebla Document, transmuting the liturgy of the altar into existential worship.
Keywords: Liturgical Theology; Mystagogy; CNBB (DGAE 2026–2032); Desiderio Desideravi; Magnifica Humanitas; Puebla.
1. INTRODUÇÃO E O DINAMISMO DO TEMPO COMUM
A retomada do Tempo Comum, na segunda-feira após a Solenidade de Pentecostes, não constitui um hiato espiritual, mas o desdobramento natural do dinamismo pascal. A transição eucológica conduz a comunidade cristã a atualizar a graça salvífica no tecido da história humana. Como recordava o Papa Leão XIII na Encíclica Divinum Illud Munus (1897), o Espírito Santo é o princípio vital que edifica a Igreja: o Cristo a concebeu e o Espírito a manifestou solenemente ao mundo no cenáculo.
A liturgia recusa a instrumentalização cênica; ela se valida como o locus teológico onde o mistério pascal é assimilado de forma consciente e frutuosa. Ao ingressar no ciclo ordinário, o fiel é provocado a transitar da ascese quaresmal e da exultação pascal para a santificação do cotidiano.
Inaugurar este percurso sob a Memória Obrigatória de Maria, Mãe da Igreja, corrobora esta verdade: ela que perseverou em oração com o colégio apostólico guia os batizados na transformação da liturgia do altar (sacrifício ritual) em culto da vida cotidiana (sacrifício existencial).
2. FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICO-LITÚRGICA E O APORTE DA TRADIÇÃO
A mistagogia litúrgica apoia-se na correlação íntima entre as duas missas da Solenidade de Pentecostes (Vigília e Dia), cujas leituras dão suporte teológico ao envio missionário:
A Antítese de Babel (Gn 11,1-9 vs. At 2,1-11): Gênesis expõe a fragmentação gerada pela autossuficiência e pelo totalitarismo cultural de Babel. Em contrapartida, Atos dos Apóstolos apresenta o Espírito que unifica as diversidades sem anular as identidades locais; os povos compreendem os prodígios de Deus em suas próprias línguas nativas.
O Sopro da Nova Criação (Jo 7,37-39; Jo 20,19-23): O hálito de Cristo sobre os discípulos recapitula o sopro vital de Gênesis 2,7. O Espírito Santo, qual água viva que brota do lado aberto do Crucificado-Ressuscitado, é comunicado como princípio de paz e mandato de reconciliação.
A Harmonia no Corpo Eclesial (1Cor 12,3b-7.12-13): Paulo adverte que a unidade da Igreja repousa na pluralidade de carismas voltados ao bem comum, refutando tanto o individualismo quanto a uniformidade rígida.
Em síntese, a tessitura bíblica de Pentecostes desenha um arco teológico que vai da dispersão egocêntrica de Babel à recapitulação cósmica em Cristo pelo Espírito. Esse dinamismo opera a transição perfeita entre a primeira e a nova criação: a força criadora da ruah (רוּחַ) divina que pairava sobre o caos primordial (Gn 1,2) e o fôlego vital — a nishmat chaim (נִשְׁמַת חַיִּים) — soprado nas narinas do homem de barro (Gn 2,7) culminam e se plenificam no sopro (πνεῦμα) do Ressuscitado sobre o colégio apostólico (Jo 20,22). Não se trata de uma mera cronologia salvífica, mas de uma ação pneumatológica contínua que cura as patologias da linguagem e do isolamento: o Espírito recria a humanidade decaída e unifica as fraturas de Babel por meio da sinfonia de carismas descrita por Paulo. Desse modo, o Pentecostes estabelece o fundamento teológico-litúrgico para o Tempo Comum, demonstrando que a efusão do Espírito não é um êxtase místico isolado, mas a força permanente que capacita a Igreja a transitar do mistério celebrado no altar para a práxis quotidiana da história.
A Transição Eucológica: Da Efusão à Práxis
Esse arco teológico-bíblico encontra sua expressão imediata no dinamismo eucológico que sela a transição de Pentecostes para o Tempo Comum. A liturgia romana opera essa passagem não como uma ruptura estética, mas como uma transmutação da graça celebrada em força operativa. A análise das orações coletas e dos prefácios do vértice pascal revela que a oração da Igreja (lex orandi) estrutura a consciência viva do fiel (lex credendi) para o retorno ao ciclo ordinário.
Na Solenidade de Pentecostes, a oração coleta clama ao Pai que, santificando a sua Igreja inteira em todos os povos e nações, derrame "por toda a extensão do mundo os dons do vosso Espírito Santo" e realize agora, no coração dos que creem, as maravilhas que operou no início da pregação do Evangelho. Há uma clara tensão de abertura cósmica. Todavia, ao amanhecer da segunda-feira do Tempo Comum, a eucologia sofre um deslocamento de perspectiva: o foco migra do evento histórico e extático da descida do Espírito para a assimilação interior e ética de seus frutos. As coletas das primeiras semanas do Tempo Comum abandonam o vocabulário do fogo e do vento para suplicar a firmeza na fé, a retidão nas ações e a capacidade de discernir a vontade divina em meio às contingências históricas.
Essa engenharia litúrgica demonstra que a transição eucológica não esvazia o mistério, mas o encarna. O Prefácio de Pentecostes celebra o Espírito que "reuniu as diversas línguas na profissão de uma só fé”; as orações do Tempo Comum, por sua vez, pedem que essa unidade se desdobre em caridade social e santificação do trabalho. Portanto, a mutação dos textos litúrgicos educa a comunidade eclesial a compreender que o Tempo Comum não é o esvaziamento do Espírito, mas o período de sua colheita mais profunda: o momento em que a força pneumática colhida no Cenáculo é testada e manifestada na paciência, na fidelidade e no anúncio silencioso do Reino na história humana.
O Testemunho Patrístico e Escolástico
Esse dinamismo criador do Espírito, que atua como sopro de vida e regeneração, encontra perfeita ressonância nos grandes luminares da Tradição eclesial. São Cirilo de Jerusalém, em suas Catequeses Mistagógicas, asseverava aos neófitos que a ação litúrgica não se reduz a uma simbologia externa, mas introduz o batizado na dimensão ontológica da nova criação: pela efusão pneumática, os elementos visíveis do óleo e da água tornam-se impregnados pelo poder divino. Para Cirilo, o itinerário mistagógico consiste precisamente in abrir os olhos da alma para discernir a eficácia invisível do Espírito por trás dos véus sacramentais do rito.
Na tradição ocidental, Santo Ambrósio de Milão, na obra De Mysteriis, exortava o rebanho a compreender que na ação litúrgica é o próprio Cristo ressuscitado quem se faz presente e opera por meio dos sinais: "Não olhes apenas para as coisas que se veem, mas para as que não se veem, pois as que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas". Aprofundando a dimensão eclesiológica desse mesmo Sopro divino, Santo Agostinho de Hipona formulou a clássica analogia em seus Sermões: "O que a alma é para o corpo do homem, o Espírito Santo o é para o Corpo de Cristo, que é a Igreja". É a presença interior da ruah eclesial que realiza no Corpo a comunhão viva dos santos, curando definitivamente a dispersão e a incompreensão que a soberba de Babel havia gerado na história.
Na Idade Média, a síntese teológica de São Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, sistematizou essa economia sacramental ao demonstrar que a graça não é um conceito abstrato, mas um hábito sobrenatural infundido pelo Espírito que cura e aperfeiçoa as potências da alma humana. Tomás ensina que a Eucaristia constitui o Consummatio — a perfeição e o ápice — de todos os sacramentos, pois ao nos unir substancialmente à Cabeça do Corpo, capacita o cristão, pela caridade infusa, a transitar do mistério celebrado à ação ética e justa no mundo concreto. Essa perspectiva tomista encontra sua recepção eclesiológica definitiva na Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 11) do Concílio Vaticano II, ao proclamar o Sacrifício Eucarístico como o culmen et fons — fonte e ápice — de toda a via cristã e da evangelização. É na participação desse mistério fontal que os fiéis e neófitos haurem a força pneumática necessária para transmutar o rito em culto existencial, fazendo da própria vida uma extensão da oferenda do altar.
[ Cinzas da Penitência ]
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[ Sopro e Fogo de Pentecostes ]
(Cirilo, Ambrósio, Agostinho, Tomás)
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[ Testemunho no Tempo Comum (Sal e Luz) ]
3. A RETOMADA DA MISTAGOGIA NO SÉCULO XX E XXI
O século XX testemunhou o florescimento da teologia litúrgica a partir do retorno às fontes primordiais. O monge beneditino Odo Casel resgatou o conceito de Teologia dos Mistérios (Mysterientheologie), demonstrando que a ação litúrgica recusa a mera recordação histórica ou o memorialismo psicológico. Em vez disso, ela opera a presentificação do evento salvífico hic et nunc (aqui e agora). Esse conceito teológico de presentificação deita suas raízes no coração do pensamento bíblico, resgatando a categoria hebraica de zikkaron (זִכָּרוֹן), que a Septuaginta e o Novo Testamento traduziram pelo termo grego anamnese (ἀνάμνησις). Em ambas as matrizes linguísticas, o memorial não evoca uma ausência, mas torna o ato salvífico do passado dinamicamente contemporâneo de quem o celebra. O Tempo Comum consolida-se, portanto, como o tempo da permanência no mistério permanentemente atualizado de Cristo na história.
Em uma linha estritamente existencial, Romano Guardini, em O Espírito da Liturgia, advertia sobre a necessidade de educar o homem moderno para o ato litúrgico. Guardini sustentava que a liturgia exige uma séria disciplina da alma, onde o símbolo recupera sua força expressiva contra o intelectualismo estéril e o racionalismo mundano. A essa disposição confere-se o nome de “inteireza do ser” – corpo, mente e coração em docilidade à ação pneumática que acontece no rito —, pois a liturgia é, antes de tudo, opus Trinitatis que encontra sua plena eficácia no encontro do Criador com a criatura redimida pela graça efetivada no seio da comunidade celebrante.
Essa intuição culminou no magistério do Papa Bento XVI. Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis (2007), o pontífice teólogo reafirmou o nexo intrínseco entre mistagogia e celebração frutuosa. Bento XVI ensina que a melhor catequese mistagógica é a própria liturgia bem celebrada (ars celebrandi), onde a beleza do rito atrai o ser humano para o mistério trinitário.
Recentemente, o Papa Francisco, na Carta Apostólica Desiderio Desideravi (2022), coroou este itinerário ao alertar contra o perigo do funcionalismo e do subjetivismo na liturgia — desvios que alimentam as tentações contemporâneas do gnosticismo e do neopelagianismo. O pontífice predecessor asseverava que a liturgia não deve ser instrumentalizada como um palco, mas compreendida como o lugar teológico onde se realiza concretamente o desejo de Cristo de comer a Páscoa com a humanidade. Para Francisco, a superação tanto do desleixo pastoral quanto do formalismo rígido exige a recuperação da capacidade de viver a ação litúrgica em sua totalidade, garantindo que o povo de Deus seja verdadeiramente formado pela e na celebração (cf. FRANCISCO, 2022, n. 16-21).
4. IMPLICAÇÕES ÉTICAS E ECLESIAIS NA SOCIEDADE DO ISOLAMENTO DIGITAL
A Igreja desenvolve sua ação evangelizadora em uma conjuntura sociocultural complexa. À "sociedade líquida" de Zygmunt Bauman — caracterizada pela volatilidade institucional e pela fragilidade dos vínculos — soma-se o diagnóstico do filósofo contemporâneo Byung-Chul Han sobre a "sociedade do cansaço" e a "infocracia". Han demonstra que o excesso de conectividade digital e o imperativo da autoeficácia geram um isolamento radical: as pessoas estão hiperconectadas, mas desprovidas de proximidade real, alteridade e escuta profunda. Esse cenário configura uma reedição de Babel, onde o ruído de dados e o narcisismo das telas inviabilizam o verdadeiro encontro humano.
É precisamente nesse horizonte de mutação civilizacional que se insere o Magistério vivo da Igreja através da Carta Encíclica Magnifica Humanitas (2026), do Papa Leão XIV. Ao propor uma firme salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, o Sumo Pontífice adverte sobre o risco de transformar o ser humano em um "consumidor passivo de pensamentos não pensados" e dados sem sentido ético, destituídos de pertença, amor e abertura ao mistério existencial. Frente a essa tendência tecnocrática de redução da alteridade a meros algoritmos e simulações digitais, a pastoral litúrgica e mistagógica assume as notas da sinodalidade de maneira ampliada e intrinsecamente pastoral. A comunidade eclesial reconfigura-se, conforme as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026–2032) da CNBB, como a "tenda do encontro" — uma estrutura cujas estacas mantêm-se firmes na Tradição, mas cujas lonas se expandem de forma flexível e generosa para acolher as diversas e complexas realidades afetadas pela desumanização contemporânea
I. Comunhão: A Antítese do Isolamento na Mesa da Fraternidade
Na sociedade descrita por Han e denunciada na Magnifica Humanitas, onde o outro é eliminado em função do espelho do "eu" digital, a Comunhão eclesial cura o individualismo ao ancorar a fraternidade no sacramento da Eucaristia. A Mesa da Palavra e do Pão não é um refúgio intimista, mas o lugar onde a comunidade se constitui como corpo orgânico contra o descarte afetivo, a exclusão social e a redução algorítmica da dignidade.
Viver a comunhão na "tenda alargada" significa que o espaço celebrativo e paroquial torna-se um ambiente de hospitalidade incondicional. Ali, os que sofrem a solidão das periferias existenciais, os fragmentados pelos sistemas digitais e os marginalizados da cultura do desempenho encontram uma pátria espiritual. A comunhão eucarística estende-se, necessariamente, na comensalidade cotidiana: partilhar o pão do altar exige partilhar a mesa da vida, rompendo as bolhas virtuais e ideológicas por meio de um amor que acolhe a presença real e física do irmão.
II. Participação: Da Passividade Cultual ao Protagonismo Eclesial
A participação ativa rompe a lógica mercantil da sociedade técnica, que tende a transformar os fiéis em meros "consumidores de produtos anônimos" ou espectadores passivos de um palco sagrado. Estimulada pelo método mistagógico, a participação convida cada batizado e, de modo especial, os neófitos a redescobrirem sua dignidade régia, profética e sacerdotal por meio da ministerialidade.
Alargar a tenda no pilar da participação exige a superação definitiva do clericalismo e da atonia cultual. A Igreja se manifesta como uma comunidade "corresponsável", em plena consonância com o discernimento para uma Igreja Sinodal preconizado no novo texto das diretrizes nacionais da CNBB. Os carismas e dons trazidos pelas diversas realidades humanas são integrados em harmonia na vida eclesial. Contra a passividade denunciada por Leão XIV, participar na tenda sinodal significa que todos têm voz, lugar e múnus. Não se trata apenas de executar funções litúrgicas, mas de envolver-se no discernimento comunitário e na construção de estruturas paroquiais flexíveis.
III. Missão: A Liturgia Existencial que Transforma as Periferias
A Missão constitui o transbordamento da graça celebrada; ela se estabelece na continuidade ontológica da própria missão do Filho, conforme o mandato explícito do Evangelho da Solenidade de Pentecostes: "Como o Pai me enviou, também eu vos envio" (Jo 20,21). A exegese do texto joanino revela a profundidade desse envio ao alternar os verbos gregos: enquanto a missão do Filho pelo Pai é expressa por apostello (ἀποστέλλω), denotando um envio de caráter permanente e plenipotenciário, o envio da Igreja por Cristo opera-se por pempo (πέμπω), sinalizando o prolongamento dinâmico desse mesmo movimento na história. Esse mandato, portanto, não é uma mera delegação jurídica, mas a transposição irrestrita da "liturgia do altar" para a "liturgia da existência", onde o corpo eclesial é inserido na dinâmica mesma da missio Dei para efetivar a obra redentora. Contra o cansaço existencial e a automatização da vida, o Espírito de Pentecostes impulsiona a Igreja a ir além das suas fronteiras físicas. Ser "sal e luz" na sociedade contemporânea exige uma atuação ética pautada pela justiça social, pelo cuidado com a Casa Comum e pela defesa da verdade humana frente às opacidades tecnológicas.
Na dinâmica da tenda que se expande, a missão desinstala a comunidade de um fechamento autorreferencial. Sob a ótica do "Povo de Deus em missão" exposto pelas DGAE, os fiéis e neófitos são enviados como testemunhas vivas desse envio original nas universidades, nos locais de trabalho e nas complexas redes digitais. O testemunho cristão valida-se quando a comunidade se faz presente onde a identidade unívoca e irrepetível do ser humano está mais ameaçada, oferecendo o bálsamo da misericórdia e a primazia do coração sobre a máquina.
5. DIRETRIZES DA CNBB E A MISTAGOGIA DOS NEÓFITOS
Para concretizar as exigências da Iniciação à Vida Cristã (IVC) na realidade eclesial brasileira, o Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA) atua em perfeita simbiose com as orientações do episcopado nacional. A Introdução Geral do RICA lembra que a mistagogia é o tempo em que os neófitos, "com a ajuda da comunidade, obtêm uma mais plena e frutuosa inteligência dos mistérios através das leituras e, sobretudo, da recepção dos sacramentos" (RICA, n. 37).
O Documento 107 da CNBB (Iniciação à Vida Cristã) ratifica que a mistagogia não pode ser tratada como um apêndice opcional. Ela é a etapa de consolidação onde a fé celebrada se traduz em engajamento comunitário. Essa tese ganha força de lei pastoral no Capítulo 5 das novas DGAE (2026–2032), que elenca explicitamente a Iniciação à Vida Cristã e a Liturgia como "Caminhos da Missão" fundamentais e indissociáveis. O Tempo Comum torna-se, assim, o espaço prático para que os neófitos vivam a dinâmica da tenda: todos devem encontrar na comunidade paroquial não apenas um lugar de acolhida litúrgica, mas sentido e envio na missão.
Propõem-se, desse modo, as seguintes orientações práticas:
· Aos liturgistas e homiletas: Evitar jargões excessivamente rebuscados que distanciem a assembleia do mistério celebrado. A homilia no ambão deve conectar a Palavra proclamada às realidades concretas do povo, aplicando o princípio da Desiderio Desideravi: deixar-se guiar pela primazia da graça que o rito manifesta.
· À articulação da IVC paroquial: Conduzir os neófitos ao engajamento ativo em pastorais, ministérios e movimentos sociais da paróquia durante o Tempo Comum. Conforme orienta o RICA (n. 38) e o novo planejamento da CNBB, este período deve ligar a experiência interior dos sacramentos à prática da caridade e da ecologia integral, impedindo que a fé seja reduzida a um bem de consumo individualista.
· Ao acompanhamento comunitário: Criar espaços paroquiais de escuta e partilha de vida para os novos membros. A comunidade eclesial, assumindo a identidade de "tenda do encontro" referendada na 62ª Assembleia Geral, deve acolher os neófitos não como espectadores de uma engrenagem eclesiástica pronta, mas como sujeitos ativos e copatrimoniais de uma Igreja em contínua saída missionária.
6. CONCLUSÃO
A retomada do Tempo Comum, longe de figurar como um rebaixamento da tensão mística da Páscoa, revela-se como o espaço teológico e existencial por excelência para a consolidação da Iniciação à Vida Cristã. Ao articular o sopro pneumatológico de Pentecostes com a presença materna de Maria, Mãe da Igreja, a liturgia oferece o antídoto eclesial contra as patologias do individualismo líquido, do cansaço digital e da desumanização algorítmica denunciada na encíclica Magnifica Humanitas.
A mistagogia dos neófitos, salvaguardada pela herança patrístico-escolástica e revigorada pela primazia da graça resgatada na Desiderio Desideravi, encontra nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB (DGAE 2026–2032) a sua tradução prática. Edifica-se uma comunidade sob a identidade de uma "tenda do encontro", onde o rito se transmuta em hospitalidade e o altar se desdobra em compromisso social. Essa transição marca o amadurecimento do fiel que transpõe o Tempo da Purificação e da Iluminação quaresmal para ingressar em uma práxis cristã pós-mistagógica, desdobrando a experiência sacramental em testemunho profético no coração do mundo.
Conclui-se, portanto, em estrita fidelidade à constituição Sacrosanctum Concilium (n. 14, 48), que o múnus dos liturgistas, pastores e homiletas na contemporaneidade excede a mera execução técnica ou o rigorismo formal do rito. A Igreja exige dos fiéis uma participação plena, consciente, ativa e frutuosa, para que não assistam ao mistério da fé como estranhos ou espectadores mudos, mas dele participem intimamente, engajados com a “inteireza do ser” – corpo, mente e coração.
Essa imersão ritual realiza a promessa de Jesus à Samaritana, inaugurando o autêntico "culto em espírito e verdade" (Jo 4,23-24), que supera os limites geográficos do templo para abraçar a totalidade da história humana. Ao cruzar o umbral do ciclo ordinário com as estacas fincadas na Tradição e as lonas abertas às realidades periféricas, a liturgia plasma um profundo culto existencial. Essa perspectiva encontra perfeita consonância no Documento Final de Puebla, ao asseverar que a ação litúrgica não se esgota no templo, mas coroa e comporta um compromisso com a realidade humana (CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO, 1979, n. 918). Este dinamismo articula indissoluvelmente a dimensão ontológica da nova criatura — vivificada pelo sopro da ruah divina —, a dimensão ritual da celebração eclesial como opus Trinitatis e a dimensão ética da caridade cotidiana. Fortalecida pelo Espírito e sob o manto de Maria, a comunidade cumpre seu mandato sinodal, respondendo ao apelo eterno: “Com a força do Alto, seremos vossas testemunhas, Senhor”.
REFERÊNCIAS
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CASEL, Odo. O Mistério do Culto Cristão. São Paulo: Loyola, 2011.
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CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO, 3., 1979, Puebla. Evangelização no presente e no futuro da América Latina: conclusões de Puebla. Texto oficial da C.N.B.B. Apresentação de João Batista Libânio. 4. ed. São Paulo: Loyola, 1979.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026–2032). Documento aprovado na 62ª Assembleia Geral da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2026.
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