De transfiguratione Domini - O prefácio do II domingo da Quaresma

De transfiguratione Domini

O prefácio do II domingo da Quaresma

 

O prefácio do II Domingo da Quaresma tem como título “A transfiguração do Senhor”. Apresentamos o texto latino, como se encontra na edição típica do Missal (MR2008) seguido das traduções da segunda (MR1992) e da terceira edição (MR2023) para uso da Igreja no Brasil: 

 

MR2008, p. 218-219.

Vere dignum et iustum est...

Qui, propria morte praenuntiata discipulis, in monte sancto suam eis aperuit claritatem,

ut per passionem, etiam lege prophetisque testantibus, ad gloriam resurrectionis perveniri constaret.

Et ideo cum caelorum virtutibus in terris te iugiter celebramus, maiestati tuae sine fine clamantes…

 

MR1992, p. 188-189.

Na verdade, é justo e necessário...

Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o seu esplendor. E com o testemunho da Lei e dos Profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela Paixão e Cruz, chegará à glória da ressurreição.

E, enquanto esperamos a realização plena de vossas promessas, com os anjos e com todos os santos nós vos aclamamos...

 

MR2023, p. 178-179.

Na verdade, é digno e justo...

Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o seu esplendor, e com o testemunho da Lei e dos Profetas nos ensina que, pela paixão, chegará à glória da ressurreição.

Por isso, com as forças celestiais, vos celebramos sempre aqui na terra e proclamamos sem cessar a vossa grandeza...

 

Observações preliminares

 

            Observa-se, antes de tudo, uma leve mudança de tradução tanto no protocolo quanto no escatocolo, obviamente feita com o objetivo de aproximar mais o texto brasileiro ao texto latino: 

 

Protocolo:

MR1992: “... é digno e necessário”

MR2023: “... é digno e justo”

Escatocolo:

MR1992: “E, enquanto esperamos a realização plena de vossas promessas, com os anjos e com todos os santos nós vos aclamamos...”

MR2023: “Por isso, com as forças celestiais, vos celebramos sempre aqui na terra e proclamamos sem cessar a vossa grandeza...”

Tradução literal: “E, portanto, com os poderes do céu na terra, nós continuamente vos celebramos, clamando à vossa majestade sem fim...”

 

            O embolismo teve a forma melhorada, passou-se de duas frases para um discurso direto, simplesmente substituindo o ponto final por uma virgula; o substantivo “paixão” passou a ser escrito em minúsculo, e duas interpolações não existentes no texto latino foram retirados: 

 

MR1992:

E com o testemunho da Lei e dos Profetas, [simbolizados em Moisés e Elias], nos ensina que, pela [P]aixão [e Cruz], chegará

MR2023:

e com o testemunho da Lei e dos Profetas nos ensina que, pela [p]aixão, chegará

 

Fontes

 

            O prefácio do II Domingo da Quaresma é de nova composição. Apareceu pela primeira vez no Missal Romano edição típica latina de 1970 (p. 192-193), dela passou para a segunda edição, de 1975 (p. 192-193), chegando, sem alterações, até a atual. 

Para a apresentação das fontes e dos principais temas, propomos uma tradução mais literal do Embolismo, que se apresenta dividida em quatro blocos temáticos:

 

\1\ Ele, anunciando antecipadamente a sua própria morte aos seus discípulos, \2\ abriu-lhes a sua claridade no monte santo, \3\ para que, como testemunham a lei e os profetas, \4\ ficasse evidente que ele chegaria, pela paixão, à glória da ressurreição.

 

            O primeiro bloco (\1\) espelha o texto de Mt 16,21 e dos seus paralelos Mc 8,31 e Lc, 9,21:

 

Desde então (da confissão de fé de Pedro), Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morte e ressuscitaria ao terceiro dia.

 

            O segundo bloco (\2) faz referência ao evento da transfiguração, também narrado pelos sinóticos (cf. Mt 9,1-13; Mc 9,1-13; Lc 9,28-36) e o terceiro (\3\) às passagens de Lc 24,25-27 e Hb 2,9:

 

24. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e acharam-no assim como as mulheres tinham dito, mas a ele mesmo não viram. 25. Jesus lhes disse: “Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! 26. Porventura, não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória? 27. E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras.

 

9. Mas aquele que fora colocado por pouco tempo abaixo dos anjos, Jesus, nós o vemos, por sua Paixão e morte, coroado de glória e de honra. Assim, pela graça de Deus, a sua morte aproveita a todos os homens.

 

            A expressão “a lei e os profetas” (lege prophetisque) os compiladores recuperaram de um antigo prefácio tomado do Suplemento de Bento de Aniane (GrSup 1567): 

 

Qui ieiunii quadragesimalis observationem in moyse et helia dedicasti, et in unigenito filio tuo legis et prophetarumnostrorumqu omnium domino exornasti…

 

            Teriam os tradutores brasileiros diante dos olhos esse texto quando na segunda edição (1992) introduziram a citação explicita dos nomes de Moisés e de Elias? Não o sabemos, mas seria, certamente, uma boa hipótese, ou mesmo justificativa para mantê-lo, visto que essa foi a fonte dos compiladores[1].

 

... aeterne Deus: qui jejunii Quadragesimalis observationem in Moyse et Elia dedicasti, et in Unigenito Filio tuo, legis et prophetarum nostroque omnium Domino exornasti.

 

            No quarto e último bloco (\4\) a expressão “chegaria à glória da ressurreição” (ad gloriam resurrectionis perveniri), vem, certamente, da Coleta do IV Domingo do Advento, que resume, de modo admirável o discurso do prefácio que estamos estudando

 

Grátiam tuam, quaésumus, Dómine, méntibus nostris infúnde, ut qui, Angelo nuntiánte,Christi Fílii tui incarnatiónem cognóvimus, per passiónem eius et crucem ad resurrectiónis glóriam perducámur.

Infundi, Senhor, a vossa graça em nossos corações para que, conhecendo pela anunciação do anjo a encarnação de Jesus Cristo, vosso Filho, cheguemos, por sua paixão e cruz, à glória da ressurreição.

 

MR2008, 141; MR2002, 141; MR1975, 132; MR1970, 132; MR1962, 2333; MR1570, 21. 42. 62. 83. 101. 134. 153. 2514. 3904Bruylants 575; Corpus orationum IV 2748

 

Teriam os tradutores brasileiros diante dos olhos esse texto quando na segunda edição (1992) introduziram a o substantivo “cruz”, juntamente com o “paixão”, como na Coleta do Advento? Não o sabemos, mas seria, certamente, outra boa hipótese, ou mesmo justificativa para mantê-lo.

 

Análise

 

O prefácio coloca em evidência a pedagogia divina. A Transfiguração não é um evento isolado, mas uma espécie de “ensaio” da ressurreição que tem como fim fortalecer os discípulos.

 

\1\. Ele, anunciando antecipadamente a sua própria morte aos seus discípulos

 

O texto inicia com uma oração subordinada relativa (\1\ Qui: Aquele ou Ele), característica do estilo litúrgico romano, que acumula ações para descrever a identidade do sujeito-Cristo, razão fundamental da ação de graças da Igreja. A força do verbo latino praenuntiare (anunciar antecipadamente) indica que a paixão não foi um acidente, mas um desígnio aceito e comunicado (o atesta o prefácio do IV Dom. do Advento). O uso de própria enfatiza que a morte pertence a ele, trata-se de sua entrega voluntária. A morte que está para afrontar não é um evento passivo, mas praenuntiataum desígnio soberano comunicado pedagogicamente, como ele mesmo atesta em João 10,18: “Ninguém tira a minha vida; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para entregá-la e também para reavê-la”. Assim, a liturgia une imediatamente a glória do monte ao anúncio da Cruz. No contexto quaresmal/batismal, este prefácio explica a razão da Transfiguração: evitar o escândalo da cruz.

No Ano C, na narrativa da Transfiguração segundo Lucas, encontra-se um detalhe crucial que o prefácio retoma, isto é, o tema da conversa de Jesus com Moisés e Elias: “Os quais apareceram com glória, e falavam da sua morte, a qual havia de cumprir-se em Jerusalém” (Lc 9, 31). O texto grego diz que estavam conversando sobre o seu êxodo (τὴν ἔξοδον αὐτοῦ). O texto latino traduz esse “êxodo” como morte pré-anunciada. Enquanto o grego usa uma metáfora bíblica que evoca o termo páscoa “de passagem” (cf. Jo 13,1), o latim é direto e sacrifical, indicando a Páscoa “como sacrifício”. Essas duas tradições encontram na Transfiguração uma síntese: ela serve para aceitar a morte como o novo e definitivo êxodo para a libertação do novo povo.

 

\2\ abriu-lhes a sua claridade no monte santo

 

O verbo latino aperire significa “abrir”, mas também “desvelar”, “desnudar”, e ainda, “dar início”, “inaugurar”. A escolha da tradução brasileira “mostrar”, parece empobrecer a força desse verbo. “Abrir” dá a possibilidade de entrada, ao passo que mostrar implica quase que absolutamente a possibilidade da não participação por envolvimento, exceto visual. Abrir é o verbo usado pelos discípulos de Emaús para expressar como o Ressuscitado os introduzira no conhecimento de si por meio das Escrituras: “Porventura, não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava e quando nos abria (aperieret) as Escrituras?”. O objeto direto dessa abertura é a glória (claritas) de Cristo. Sim, essa expressão também indica que a sua glória não foi “fabricada” no monte, mas que estava escondida sob o “véu” da carne humana (velum carnis). O termo claritas é a tradução latina para o grego doxa (δόξα), evocando o brilho radiante que emana da divindade.

Os Evangelhos, para darem significado à realidade do “descortinar-se” da glória do Filho Unigênito, que ele tinha com o Pai do antes que o mundo existisse (cf. Jo 17,5), usam a expressão grega “metamorfose” (μετεμορφώθη – metamorphōthē), que indica uma mudança de forma externa, o que foca na mudança visual (rosto brilhante como o sol, vestes brancas). O texto litúrgico latino, ao preferir o termo claritas eleva o evento de um fenômeno visual para uma realidade ontológica. Cristo não apenas “mudou de aparência”, mas permitiu que a sua glória divina brilhasse através da sua humanidade. Abrindo-a permitiu-nos, no seu corpo, cruzar o limiar que um tempo separava humanidade e divindade.

 

\3\ [para que], como testemunham a lei e os profetas

 

Nos Evangelhos, Moisés e Elias aparecem “conversando” com Jesus. A liturgia transforma essa “conversa” numtestemunho jurídico. No direito romano, o testemunho valida um fato. O verbo testari (testemunhar) coloca Moisés e Elias não como figuras decorativas, mas como testemunhas jurídicas e históricas que validam a identidade de Jesus Ao dizer que a Lei e os Profetas “testemunham” (testantibus), a liturgia afirma que a Paixão não é um erro de percurso, mas algo “certificado” por toda a história da salvação. Se Moisés (Lei) e Elias (Profetas) concordam com a Cruz, o discípulo não tem razão para duvidar. A presença desses dois profetas, fundamentais na história de Israel, sobre o monte confirma que o plano de Deus é um só, da Antiga à Nova Aliança.

 

\4\ para que [...] ficasse evidente que ele chegaria, pela paixão, à glória da ressurreição.

 

O texto latino apresenta uma densidade sintática típica do cursus romano. A oração relativa é articulada em três blocos semânticos fundamentais. O primeiro é o da teofania da “claritas”, que é a manifestação do “ser de Deus” (forma Dei) sob a forma de servo (forma servi – \2\). O segundo é o da finalidade mistagógica: pela paixão à gloria da ressurreição (Ut per passionem... ad gloriam resurrectionis). A conjunção final ut (para que) introduz a razão do evento, terceiro bloco: a fixação de uma certeza teológica sobre a necessidade da via crucis. O uso do verbo impessoal constaret(ficasse estabelecido, fosse evidente) seguido pelo infinitivo passivo perveniri (ser chegado) cria uma estrutura de conclusão lógica. Não é apenas uma possibilidade; é uma constante estabelecida pela economia da salvação. 

Ut... Constaret” (Para que ficasse claro): Os Evangelhos narram o medo e a confusão dos discípulos, por um lado, Pedro queria fazer tendas, por outro, não entendiam o que era “ressuscitar dos mortos”. A liturgia interpreta o evento com a sabedoria de quem já conhece e já experimenta a Ressurreição. O uso de constaret (ficasse estabelecido/evidente) mostra que a Transfiguração foi uma ferramenta didática intencional de Jesus para que, no futuro, a Igreja compreendesse a lógica pascal: pela escuridão da cruz ao esplendor da luz (per crucem ad lucem). 

Os dois últimos, como constatamos acima, tem seu fundamento no mistério da encarnação (cf. Pref. IV Dom. Adv).

 

Conclusão

 

A fonte patrística primária deste texto é o pensamento de São Leão Magno. Em uma sua homilia sobre a Transfiguração, afirma que o objetivo do monte foi “remover do coração dos discípulos o escândalo da cruz” (crucis scandalum – Sermo 51). Para os Padres, a santa Montanha é um antídoto contra o desespero do Calvário. A estrutura da oração da Igreja coloca a “morte preanunciada” (morte praenuntiata) antes da “claridade revelada” (claritatem aperuit). Teologicamente, isso indica que a Transfiguração é uma resposta ao anúncio da Paixão. Cristo revela quem ele é para que os discípulos suportem o que ele se tornará no Calvário. A teologia central aqui é a Cristologia Pascal. A lex orandicombate qualquer gnosticismo que queira a glória sem o sacrifício. A glória da ressurreição não é um “plano B”, mas o destino que passa, obrigatoriamente, pela entrega total. Cristo manifesta sua divindade para mostrar que a sua humanidade, que será pregada na cruz, é a mesma que reina na luz.

A presença de Moisés e Elias testemunha da conformidade da Nova com a Antiga Aliança, como observa Santo Agostinho: “O Novo Testamento está escondido no Antigo, e o Antigo é revelado no Novo”[2]. A dimensão do testemunho é muito bem evidenciada, além do Pai (o céu) e os Apóstolos (os vivos), Moisés e Elias (os mortos). Isso prova que Cristo é o Senhor de vivos e mortos, e que a sua Paixão (o caminho) é validada por todas as esferas da existência.

Enquanto a Oração Coleta acentua a experiência da escuta (audire), o prefácio desenvolve a da visão (videre/aperuire). Esta tensão dialética resolve-se na Oração depois da comunhão, onde o fiel, tendo ouvido a Palavra e visto o Mistério, recebe o penhor da glória (pignus gloriae).

Para a Igreja em oração no II Domingo da Quaresma a mensagem é de esperança fundamentada: Na caminhada quaresmal, que é um tempo de deserto e penitência, o II Domingo se coloca como uma “parada no oásis”. Somos convidados a olhar para o fim (a Glória) para suportar o meio (a Quaresma/Paixão). Espiritualmente, o prefácio sugere que nossas próprias “paixões” e sofrimentos, quando vividos em Cristo e testificados pela Palavra de Deus, não são um fim em si mesmos, mas o caminho para a nossa própria transfiguração.

 

Dom Jerônimo Pereira, osb

Monge beneditino do Mosteiro de São Bento de Olinda

Presidente da ASLI



[1] Cf. A. Dumas, «Les Préfaces du nouveau Missel», Ephemerides Liturgicae 85 (1971) 23, n. 12.

[2] Cfr. S. Agostinho, De catechizandis rudibus, IV, 8, ed. J.-P. Migne (PL 40), Migne, Paris 1841, 315.

 
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