De tentatione Domini
O prefácio do I domingo da Quaresma
O prefácio do I Domingo da Quaresma tem como título “A tentação do Senhor”. Apresentamos o texto latino, como se encontra na edição típica do Missal (MR2008) seguido das traduções da segunda (MR1992) e da terceira edição (MR2023) para uso da Igreja no Brasil:
MR2008, p. 206-207.
Vere dignum... per Christum Dominum nostrum.
Qui quadraginta diebus, terrenis abstinens alimentis, formam huius observantiae ieiunio dedicavit, et, omnes evertens antiqui serpentis insidias, fermetum malitiae nos docuit superare, ut, paschale mysterium dignis mentibus celebrantes, ad pascha demum perpetuum transeamus.
MR1992, p. 181-182
Na verdade, é digno e necessário... por Cristo, nosso Senhor.
Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a observância quaresmal.
Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade.
Celebrando agora o mistério pascal, nós nos preparamos para a Páscoa definitiva.
Enquanto esperamos a plenitude eterna, com os anjos e todos os santos, nós vos aclamamos...
MR2023, 170-171.
Na verdade, é digno e justo... por Cristo nosso Senhor.
Jejuando quarenta dias, Jesus consagrou a observância quaresmal e, desarmando as ciladas da antiga serpente, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade, para que, pela digna celebração do mistério pascal, passemos, um dia, à Páscoa eterna.
Por isso, hoje e sempre, com a multidão dos anjos e dos santos, com um hino de louvor, nós vos aclamamos...
Observações preliminares
Observa-se, antes de tudo, uma leve mudança de tradução tanto no protocolo quanto no escatocolo, obviamente feita com o objetivo de aproximar mais o texto brasileiro ao texto latino:
Protocolo: | MR1992: “... é digno e necessário” MR2023: “... é digno e justo” |
Escatocolo: | MR1992: “Enquanto esperamos a plenitude eterna, com os anjos e todos os santos, nós vos aclamamos...” MR2023: “Por isso, hoje e sempre, com a multidão dos anjos e dos santos, com um hino de louvor, nós vos aclamamos...” |
O embolismo teve a forma melhorada, passando de quatro frases para um discurso direto por meio da conjunção coordenativa aditiva “e” e da locução conjuntiva subordinativa final (para que); foi “purificado” de uma interpolação não existente no texto latino (no deserto) e teve o texto “melhorado” para estar nais próximo ao original:
MR2008: | ... antiqui serpentis... paschale mysterium dignis mentibus celebrantes... transeamus. |
MR1992: | ...antigo inimigo... Celebrando agora o mistério pascal... preparamos |
MR2023: | ... antiga serpente... digna celebração do mistério pascal, passemos. |
Fontes
O prefácio do I Domingo da Quaresma é de nova composição. Apareceu pela primeira vez no Missal Romano edição típica latina de 1970 (p. 184-185), dela passou para a segunda edição, de 1975 (p. 184-185), chegando incólume até a atual. Apenas a primeira frase do prefácio, que vem dos sacramentários gelasianos galicanizado do século VIII (Gell[1]; Ang 301[2]; SanGall[3]: LIII. In Quadragésima. Statio ad sanctum Iohannem ad Lateranis), cuja versão idêntica encontra-se suplemento de Bento de Aniane ao Gregoriano (Sup 1547), foi mantida em uma nova forma literária.
Supl 1547 | Qui continuatis quadraginta diebus et noctibus hoc ieiunium non... |
MR1970 | Qui quadraginta diebus, terrenis abstinens alimentis, formam huius observantiae ieuinio |
Para a construção do corpo do Embolismo os compiladores recorreram à linguagem de Leão Magno, o papa liturgista por excelência (Sermão 55, 5 [PL 54] 325C) e de Pedro Crisólogo (Sermão 13 [PL 52] 227B):
Amplectamur itaque, dilectissimi, purificatis mentibus atque corporibus, salutis nostrae mirabile sacramentum, et ab omni fermento malitiae veteris emundati, Pascha Domini cum digna observantia celebremos: ut regente nos Spiritu sancto, a caritate Christi nullis tentationibus separemur, qui in sanguine suo pacificans omnia, et in altitudinem paternae gloriae se recepit, et humilitatem sibi servientium non reliquit, cui est honor et gloria in saecula saeculorum. Amen.
Portanto, amados, com mentes e corpos purificados, abracemos o maravilhoso sacramento da nossa salvação e, livres de todo o fermento da maldade antiga, celebremos a Páscoa do Senhor com digna observância: para que, sob o controle do Espírito Santo, não sejamos separados por nenhuma tentação do amor de Cristo, que, tendo feito a paz com todas as coisas em seu sangue, recebeu a si mesmo na altura da sua glória paterna e não abandonou a humildade daqueles que o servem, a quem sejam dadas honra e glória para todo o sempre. Amém.
At vos, fratres, qui sequi vultus in hoc Quadragesimae ieiunii Dominici formam, pugnaturus vos, sicut praediximus, contra vitiorum turmas...
Mas vós, irmãos, que seguis a forma deste jejum quaresmal do Senhor, lutareis, como já dissemos, contra as hordas dos vícios...
Análise
Para a análise das fontes e dos principais temas, propomos uma tradução, sob certos aspectos, mais literal, que se apresenta dividida em cinco blocos temáticos:
\1\Aquele que (Qui), abstendo-se de alimentos terrenos por quarenta dias, consagrou com o seu jejum o modelo desta observância (formam huius observantiae) e, \2\subvertendo todas as ciladas da antiga serpente (antiqui serpentis), \3\ensinou-nos a vencer o fermento da malícia (fermentum malitiae), para que, \4\celebrando o mistério pascal com dignas disposições (dignis mentibus), \5\ passemos, por fim, à Páscoa eterna (pascha demum perpetuum).
\1\. Aquele que, abstendo-se de alimentos terrenos...
O texto latino começa com o sujeito relativo Qui – que traduzimos “Aquele que”, ou “O qual”, ou “Quem” ou mesmo “Ele que” – que retoma o antecedente final do Protocolo (por nosso Senhor Jesus Cristo), e funciona como uma expressão estrutural de ligação, transformando todo o Prefácio num discurso unitário direto, evitando a quebra interna, como se intui da tradução oficial, que separa muito radicalmente o Protocolo do Embolismo. O uso do pronome relativo referente a Cristo é comum em textos litúrgicos e faz parte do gênio romano.
A primeira frase do Embolismo refere-se ao período de retiro de Jesus no deserto antes de iniciar seu ministério público, texto lido sempre no I Domingo da Quaresma de todos os anos (A: Mt 4,1-11; B: Mc 1,12-15; C: Lc 4,1-13). Jesus é apresentado como o novo Moisés que antes de comunicar ao povo a aliança se coloca em jejum por quarenta dias (cf. Ex 34,28).
Significativa é a expressão latina “formam huius observantiae” que preferimos traduzir como “modelo desta observância”. De fato, o termo formam aqui não pode ser entendido simplesmente como “forma”, mas como o protótipo ou o exemplo estabelecido. Ou ainda como uma fôrma que dá forma. Jesus consagrou a prática quaresmal tornando-se, ele mesmo, o modelo (e modelador) que os fiéis agora seguem. Isso quer dizer que Jesus é o modelo/modelador da vida cristã em todas as circunstâncias. O termo “observantia”, que traduzimos literalmente como “observância”, aparece aqui definindo o período quaresmal. O verbo “dedicavit” expressa o conceito de que Cristo “consagrou” o tempo através do seu próprio ato.
Santo Agostinho adverte que o jejum de quarenta dias de Cristo não foi por necessidade, mas para nos dar o exemplo(forma), por isso liga o jejum à justiça e à vitória sobre os desejos da carne, espelhando a frase que corresponderia para os crentes a abstenção dos “alimentos terrenos” (terrenis abstinens alimentis. Cf. Sermão 210: Sobre a Quaresma). “Forma” também é entendida pelo Bispo de Hipona como configuração:
Nosso progresso se realiza através da tentação. Ninguém se conhece antes de ser provado, nem pode ser corado se não vencer, nem pode vencer sem ter combatido, nem lhe é possível lutar se não tiver inimigo e tentação. [...] Cristo quis prefigurar-nos a nós, que somos seu corpo, em seu próprio corpo, no qual ele já morreu, ressuscitou, subiu ao céu, a fim de que aonde subiu a Cabeça em primeiro lugar, confiem os membros que hão de segui-lo. Por conseguinte, ele figurou-nos em si quando quis ser tentado por Satanás (cf. Mt 4,1). Acabamos de ler no evangelho que Jesus Cristo Senhor era tentado pelo diabo no deserto. De fato, Cristo era tentado pelo diabo. Em Cristo, porém, tu é que eras tentado, porque de ti Cristo assumiu uma carne, e de si te deu a salvação; de ti recebeu a morte, de si te concedeu a vida; de ti aceitou as injúrias, de si te comunicou honras; portanto de ti adveio-lhe a tentação, de si deu-te a vitória. Se nele nós fomos tentados, nele superamos o diabo (Comentário aos Salmos [Enarrationes in Psalmos 51-100] 60,3)
\2\. subvertendo todas as ciladas da antiga serpente
O termo “antiga serpente” é uma identificação direta do diabo, demonstrando que o início da queda da humanidade aponta para a vitória de Cristo. O fato bíblico é evocado como tipo na primeira leitura do Ano A (Gn 2,7-9.3,1-7), a narrativa da serpente no Éden e, embora não se leiam os versículos sucessivos, a promessa de que sua cabeça seria esmagada pela descendência da mulher. O termo volta em Ap 12,9: “Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro” e Ap 20,2: “Ele apanhou o Dragão, a primitiva Serpente, que é o Demônio e Satanás, e o acorrentou por mil anos”. “Ciladas” (insidias) é o termo jurídico-militar clássico para armadilhas. Como o texto do Prefácio é de inspiração gelasiana/gregoriana, a influência de São Leão Magno, intencionalmente acolhida pelos compiladores, é direta. Ele, um dos pais da liturgia romana pura, é o Padre da Igreja que mais enfatizou a Quaresma como um tempo de combate espiritual contra a “antiga serpente”. Para ele a Quaresma é o momento em que o povo de Deus se prepara para as festas pascais vencendo as insidias (ciladas) do demônio. O papa liturgista utiliza exatamente a lógica de que a vitória de Cristo no deserto ontem é a nossa vitória hoje (cf. Sermão 39, Sobre a Quaresma I [PL 54] 263-267), como Santo Agostinho, no texto citado acima. Embora anterior, Ireneu de Lião (séc. II) fornece a base teológica para a expressão antiqui serpentis ao desenvolver a doutrina da recapitulação, onde Cristo refaz o caminho de Adão para corrigir sua queda. Assim o bispo de Lião explica como Cristo, ao ser tentado no deserto e jejuar, “amarrou o homem forte” (a serpente) que havia enganado a humanidade, libertando-a das suas insídias (cf. Contra as heresias, IV,21,3).
\3\. ensinou-nos a vencer o fermento da malícia
A metáfora do fermento é utilizada na Bíblia para descrever uma influência, geralmente negativa, que se espalha e corrompe toda a massa. Jesus a usa para ilustrar que o Reino dos Céus age de forma silenciosa, interna e progressiva, mas com poder transformador abrangente (cf. Mateus 13,33), como também para alertar contra perniciosas doutrinas: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus” (Mt 16,6). A expressão fermento malitiae, que também se traduz por “fermento da maldade”, vem de 1Cor 5,7-8: “Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois a festa, não com o velho fermento nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães não fermentados de pureza e de verdade. A ambiguidade do termo fermento revela a sua força simbólica, daí essencialidade de não usar um termo equivalente.
\4\. celebrando o mistério pascal com disposições dignas
Embora mens se traduza, de fato, como “mente”, no contexto litúrgico brasileiro encontra-se traduzido como “coração”, “espírito” ou “vida”, mas para maior fidelidade ao sentido lexical do texto original do texto “disposições” parece indicar melhor a intenção dos compiladores, porque comunga com todos os pedidos feitos nos outros elementos eucológicos do formulário. Os missais de língua francesa e inglesa traduzem por: “celebrar dignamente”, enquanto o espanhol e o italiano “celebrar com espírito renovado”. A nossa compreensão se aproxima mais dos dois últimos.
\5\. passemos, por fim, à Páscoa eterna
O conceito de “Páscoa”, que vem do hebraico Pesach, significa “passagem”. O texto projeta a celebração ritual concreta da comunidade (hodie) para a realidade definitiva no Reino de Deus. Certamente a “versão” de 1992 era mais acertada, segundo esse princípio. Com o advérbio demum reforça-se a ideia de “finalmente” ou “por fim”, indicando a transição da celebração temporal para a realidade eterna. A doutrina contida nesta oração foi cristalizada em documentos que regem a vida litúrgica e a ascese cristã. A Constituição Sacrosanctum Concilium 109 e 110 recorda que os dois caracteres da Quaresma, o batismal e o penitencial, tem como fim preparar os fiéis para a celebração mistério pascal. Também o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia (2002) reafirma que a ascese quaresmal não é um fim em si mesma, mas uma “passagem” (transeamus) para a renovação da vida em Cristo.
Conclusão
O Prefácio I da Quaresma é uma composição centonizada, organizado como um mosaico. De nova composição, ele recolhe material eucológico antigo, tipicamente romano-franco, fazendo-o dialogar com a sagrada Escritura, a partir de um vocabulário tipicamente patrístico.
O pano de fundo é Cristológico. A dinâmica do discurso direto revelado na intercessão entre o Protocolo e o Embolismo segue a mesma lógica na passagem desse último ao Escatocolo: “Por isso (por essa razão), hoje e sempre com a multidão...”; coloca a figura do Filho que se torna modelo para o peregrinar quaresmal da Igreja, apontando que de páscoa em páscoa a Igreja está se encaminhando, com e como Cristo, à Páscoa definitiva.
Quando afirmou que a reforma é irreversível, o Papa Francisco estava dizendo que os pastores não podem, em sã consciência, privar os fiéis de um tesouro tão grande como um prefácio desse em nome de ideologias. Seria dar aos filhos pedra no lugar de pão, e serpentes em vez de peixe.
[1] Liber Sacramentorum Gellonensis, ed. A. Dumas (CCL 159A). Turnholti: Brepols 1981.
[2] Liber sacramentorum Engolismensis, ed. P. Saint-Roch (CCL 159C). Turnhout: Brepols 1987.
[3] Das fränkische Sacramentarium Gelasianum in alamannsicher Überlieferung (Codex Sangall. No. 348, ed. C. Mohlberg. Münster Westfalen: Aschendorff 1938.