De Samaritana: O prefácio do III Domingo da Quaresma

De Samaritana

O prefácio do III domingo da Quaresma

 

O prefácio do III Domingo da Quaresma tem como título “A Samaritana”. Apresentamos o texto latino, como se encontra na edição típica do Missal (MR2008) seguido das traduções da segunda (MR1992) e da terceira edição (MR2023) para uso da Igreja no Brasil: 

 

MR2008, p. 228.

Qui, dum aquae sibi petiit potum a Samaritana praeberi, iam in ea fidei donum ipse creaverat, et ita eius fidem sitire dignatus est, ut ignem in illa divini amoris accenderet.

Unde et nos tibi gratias agimus, et tuas virtutes cum Angelis praedicamus, dicentes

 

MR1992, p. 197.

Ao pedir à Samaritana que lhe desse de beber, Jesus lhe dava o dom de crer. E, saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor.

Por essa razão, vos servem todas as criaturas, com justiça...

 

MR2023, p. 187.

Ao pedir à Samaritana que lhe desse de beber, Jesus suscitava nela o dom da fé; e tão grande era sua sede pela fé dessa mulher, que acendeu nela o fogo do vosso amor.

Por isso, vos servem todas as criaturas, com justiça....

 

Com relação ao uso de prefácio nesse domingo uma rubrica no missal adverte que “Quando não for proclamado o Evangelho da Samaritana, diz-se o Prefácio da Quaresma I ou II” e indica as páginas onde se encontram os respectivos prefácios.

 

Observações preliminares

 

            Observa-se, antes de tudo, uma leve mudança de tradução tanto no protocolo quanto no escatocolo, obviamente feita com o objetivo de aproximar mais o texto brasileiro ao texto latino: 

 

Protocolo:

MR1992: “... é digno e necessário”

MR2023: “... é digno e justo”

Escatocolo:

MR1992: “Por essa razão, vos servem...”.

MR2023: “Por isso, vos servem...”.

 

Tradução literal: “E, portanto, com os poderes do céu na terra, nós continuamente vos celebramos, clamando à vossa majestade sem fim...”

 

            O embolismo, mantendo a forma, foi melhorado, sobretudo pela substituição do verbo “dar” pelo verbo “suscitar” e da locução substantiva “dom de crer” por “dom da fé”. O discurso foi ajustado para um modo direto, explicando melhor que era o Senhor a ter sede da fé da mulher e esclarecendo o tipo de amor lhe foi “aceso”, no lugar de “acrescentado”

 

MR1992:

Jesus lhe dava o dom de crer. E, saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor.

MR2023:

Jesus suscitava nela o dom da fé; e tão grande era sua sede pela fé dessa mulher, que acendeu nela o fogo do vosso amor.

 

Fontes

 

            O prefácio do III Domingo da Quaresma, como os dois anteriores, é de nova composição. Apareceu pela primeira vez no Missal Romano edição típica latina de 1970 (p. 192-193), dela passou para a segunda edição, de 1975 (p. 192-193), chegando, sem alterações, até a atual. 

            Trata-se, na verdade, de uma releitura de dois outros prefácios, um de tradição romana, vindo do Suplemento ao Sacrametário Gregoriano, e outro de tradição hispânica[1]:

 

GrSup 1566 (feria VI heb III in Quadragesima):

 

Qui ad insinuandum humilitatis suae mysterium, fatigatus resedit ad puteum. Qui muliere samaritana aquae sibi petiitporrigi potum, qui in ea creauerat fidei donumEt ita eius sitire dignatus est fidemut dum ab ea aquam peteret, in ea ignemdiuini amoris acce(n)deret...

 

(Aquele que, para insinuar o mistério de sua humildade, sentou-se cansado junto ao poço. Aquele que pediu água à mulher samaritana para que ela lhe desse de beber, aquele que havia criado nela o dom da fé. E assim se dignou a fazer com que sua fé tivesse sede, de modo que, enquanto ela lhe pedia água, o fogo do amor divino se acendeu nela...)

 

Liber Mozarabicus Sacramentorum 358 (Missa de muliere Samaritana. II Domin. de Quadragesima):

 

Qui ad salvationem humani generis… fortius est hominibus. Ideoque per humilitatem veniens eripere mundum a potestate tenebrarum, sedit et sitivit, quando aquam mulieri petivit… Sitivit aquam, et exegit fidem ab ea. In ea quippe muliere fidemquam quaesivit, quamque petivit, exegit... Ille iam qui in ea creaverat fidei donum, ipse poscebat aquae sibi ab ea porrigi potum… 

 

(Aquele que, para a salvação da raça humana... é mais forte que os homens. E, portanto, vindo em humildade para resgatar o mundo do poder das trevas, sentou-se e teve sede, quando pediu água à mulher... Ele teve sede de água e exigiu fé dela. Pois naquela mulher ele exigiu a fé que buscava e que pedia... Aquele que já havia criado nela o dom da fé, Ele mesmo exigiu que lhe fosse dada água para beber...)

 

            A expressão fidei donum (dom da fé) é bíblica, vem de dois textos, um do Antigo testamento (Sb 3,14) e outro de uma carta paulina (Ef 2, 8): 

 

Et spado, qui non operatus est per manus suas iniquitatem nec cogitavit adversus Dominum nequissima, dabitur enim illi fidei donumelectum, et sors in templo Domini acceptissima.

E ao eunuco, que não cometeu iniquidade com as suas mãos, nem planejou coisas perversas contra o Senhor, pois a ele será dado o dom da fé, e uma parte muito agradável no templo do Senhor.

 

Gratia enim estis salvati per fidem; et hoc non ex vobis, Dei donum est:

 

Pois é pela graça que vocês foram salvos, mediante a ; e isso não vem de vocês, é domde Deus.

 

            A proximidade entre o substantivo fogo (ignem) e o verbo acender (accendat) remete ao texto de Lc 12,49:

 

Ignem veni mittere in terram et quid volo? Si iam accensus esset! 

Vim para lançar fogo sobre a terra, e o que mais quero? Que ele já esteja aceso!

 

A evolução do texto em língua portuguesa para o Brasil revela um esforço de maior fidelidade ao original latino (editio typica 2008), buscando recuperar matizes teológicos que haviam sido simplificados em traduções anteriores.

Elemento

MR1992

MR2023

 

Protocolo

“é digno e necessário” 

“é digno e justo”

Retorno ao dignum et iustum, enfatizando a justiça da louvação.

Ação de Jesus

“lhe dava o dom de crer”

“suscitava nela o dom da fé” 

O verbo “suscitar” traduz melhor a natureza latente da graça.

A sede de Cristo

“saciada sua sede de fé”

“tão grande era sua sede pela fé” 

Recupera o modo direto: o Senhor é o sujeito que ativamente deseja.

Efeito final

“acrescentou o fogo do amor”

“acendeu nela o fogo do vosso amor”

O verbo accenderet (acender) é mais dinâmico que o mero “acrescentar”.

 

Análise

 

Para a análise do Embolismo propomos uma tradução mais literal do texto, organizando-o em três frases:

 

\1\ Aquele que, quando pedia água para si, uma samaritana lhe deu (ofereceu-lhe) de beber. \2\ Ele mesmo já criara nela o dom da fé. \3\ E assim, dignou-se ele a ter sede da sua fé para que acendesse nela a chama do amor divino.

 

\1\. Aquele que, quando pedia água para si, uma samaritana lhe deu (ofereceu-lhe) de beber.

 

O texto baseia-se na “ironia joanina, e no conceito de “intercâmbio”. Jesus, o Criador, apresenta-se como criatura necessitada (petiit potum). A “sede” de Cristo não é apenas biológica, mas o desejo da salvação daquela mulher. Como observa a exegese moderna, Jesus “pede para poder dar”. Ao pedir água, ele quebra barreiras sociais e religiosas para oferecer a “água viva”.

 

\2\ Ele mesmo já criara nela o dom da fé. \

 

O texto está construído sobre uma sucessão de orações e de tempos verbais que revelam a precedência da ação divina. O uso do pretérito mais-que-perfeito do indicativo (creaverat) é a chave teológica. Enquanto Jesus “pedia” (petiit), o pretérito perfeito/histórico a água, ele “já havia criado” (iam creaverat) no interior da mulher o dom da fé. Ora, isso abate qualquer tipo de (neo)pelagianismo. A sede de Jesus não é o que provoca a fé, mas o que a revela. Antes mesmo do diálogo começar, a Graça já estava operando na Samaritana. Deus não responde a um mérito da mulher; ele cria nela a capacidade de responder ao seu pedido.

A afirmação iam... creaverat (já criara) sublinha a dinâmica da Graça Preveniente. Ou seja, a lex orandi da Igreja nos ensina que Deus não espera que “tenhamos” fé para buscá-lo; ele cria em nós a capacidade de crer para que possamos desejá-lo. A fé é “dom gratuito”, não geração humana: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto e descem do Pai das luzes” (Tg 1,17)O prefácio destaca que, antes mesmo dela responder, Ele já havia criado nela o dom da fé (iam in ea fidei donum ipse creaverat). Isso ecoa a primazia da graça.

Os Padres da Igreja leram este episódio como o esponsalício de Cristo com a Humanidade, representada pela Samaritana. Fonte principal desta teologia é Santo Agostinho. Para ele, Jesus tinha sede da fé daquela mulher. “Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher”[2].

 

\3\ E assim, dignou-se ele a ter sede da sua fé para que acendesse nela a chama do amor divino.

 

O verbo dignari (dignar-se) rege o infinitivo sitire (ter sede), aplicando o conceito de “dignidade” (honra) a uma necessidade biológica (sede). Nessa estrutura textual ocorre o que os gregos chamam de Synkatabasis (συγκατάβασις)condescendência, literalmente “descer com/junto”: um conceito teológico que descreve a condescendência, adaptação ou “abaixamento” de Deus ao nível humano para se revelar. Representa a condescendência onde Deus se adapta à limitação humana, permitindo a comunicação da verdade divina de forma compreensível. A “sede” de Deus é uma escolha livre por amor. Ele se faz “indigente” da fé que ele mesmo deu à Samaritana para elevá-la à sua dignidade. Trata-se do paradoxo do Onipotente, onde há uma “humilhação” voluntária (dignatus est), ou seja, o absoluto “se digna” ter sede do relativo. A sede de Cristo é o ponto de encontro entre a indigência humana e a misericórdia divina.

O prefácio joga com dois elementos naturais “aparentemente” contraditórios: água e fogo. Sendo destinado para os Domingos do A e para uso nas igrejas onde se tem catecúmenos, trata-se de uma catequese catecumenal em vista da celebração dos sacramentos da iniciação à vida cristã. Na celebração dos sacramentos da iniciação à vida Cristã, o Batismo é o sacramento da água e a Confirmação é o sacramento do fogo, um dos símbolos do Espírito Santo. O prefácio narra essa transição: Jesus começa pedindo água e termina acendendo um fogo. Para o catecúmeno, o batismo é a purificação do passado, da vida velha, enquanto a vida nova é o “incêndio” da caridade.

Esse contraste é um recurso clássico da retórica latina: a água que Jesus pede torna-se o fogo que Ele acende. Como observa São Gregório Magno, o desejo de Deus é um fogo que purifica a mente de pensamentos carnais e gera uma nova sede, desta vez de águas vivas.

Este é o ponto culminante da oração. O prefácio opera uma transmutação de elementos que reflete a economia sacramental. Naturalmente, a água apaga o fogo. Na teologia deste prefácio, a “sede de água” de Cristo é o que “acende o fogo divino” na mulher. Encontramo-nos diante de um paradoxo: ao saciar a sede de Cristo com a sua fé, a mulher é consumida por um incêndio de caridade.

 

Conclusão

 

O fogo mencionado no prefácio (ignem accenderet) possui uma função catártica no escrutínio. Ele consome a memória culpada. A Samaritana não é mais definida por seu passado, mas por seu encontro presente com o Messias.

Para o catecúmeno e para o fiel, o prefácio De Samaritana ensina que a busca humana por Deus é, em última análise, uma resposta à busca prévia de Deus pelo homem. O rito do escrutínio não é um exame intelectual, mas um “desentupimento” do poço da alma para que a água da fé possa jorrar e tornar-se chama de amor.

A expressão iam creaverat em relação à fé é iluminante para quem está prestes a ser batizado. O prefácio afirma que a fé já havia sido criada na Samaritana antes do pedido da água. Isso justifica por que os catecúmenos já são chamados de “eleitos”. A Igreja reconhece que o fogo do amor divino (ignem divini amoris) já começou a arder neles durante o catecumenato. O batismo na Vigília Pascal será a “selagem” desse fogo que o prefácio descreve como já iniciado no encontro pessoal. O batismo é uma água que acende um fogo.

Os Escrutínios, celebrados nesse 3º e nos 4º e 5º domingos da Quaresma, são ritos de purificação (água) e iluminação (fogo) para os catecúmenos. Ora, o prefácio diz iam in ea fidei donum ipse creaverat (já criara nela o dom da fé) e é, exatamente, isso o que a Igreja celebra durante o escrutínio, o reconhecimento de que, embora o candidato tenha pecados e limitações, a graça de Deus já plantou nele a fé. O Escrutínio não é um tribunal de julgamento, mas um “desentupimento” do poço da alma, para que a água da fé, já presente, possa jorrar.

 

Dom Jerônimo Pereira, osb

Monge beneditino do Mosteiro de São Bento de Olinda

Presidente da ASLI

 



[1] Cf. A. Dumas, «Les Préfaces du nouveau Missel», Ephemerides Liturgicae 85 (1971) 23, n. 13.

[2] Santo AgostinhoIn Evangelium Ioannis Tractatus, XV, 11: “Desiderabat enim bibere fidem ipsius”, ed. J.-P. Migne (PL 35), Migne, Paris 1841, 1514.

 
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