De Lazaro
O prefácio do V domingo da Quaresma
O prefácio do V Domingo da Quaresma tem como título “Lázaro”. Apresentamos o texto latino, como se encontra na edição típica do Missal (MR2008) seguido das traduções da segunda (MR1992) e da terceira edição (MR2023) para uso da Igreja no Brasil:
MR2008, p. 255-256
Ipse enim verus homo Lazarum flevit amicum, et Deus aeternus e tumulo suscitavit,
qui, humani generis miseratus, ad novam vitam sacris mysteriis nos adducit.
Per quem maiestatem tuam adorat exercitus Angelorum, ante conspectum tuum in acternitate laetantium. Cum quibus et nostras voces ut admitti iubeas, deprecamur,
socia exsultatione dicentes:
MR1992, p. 212-213
Verdadeiro homem, Jesus chorou o amigo Lázaro. Deus vivo e eterno, ele o ressuscitou, tirando-o do túmulo. Compadecendo-se da humanidade, que jaz na morte do pecado, por seus sagrados mistérios ele nos eleva ao Reino da vida nova.
Enquanto esperamos a glória eterna, com os anjos e com todos os santos, nós vos aclamamos, cantando...
MR2023, p. 204-205
Sendo ele verdadeiro homem, chorou o amigo Lázaro e, Deus eterno, do túmulo o tirou.
Compadecido da humanidade, leva-nos à vida nova pelos mistérios pascais.
Enquanto esperamos a glória eterna, com os anjos e com todos os santos, nós vos aclamamos, cantando...
Observações preliminares
Observa-se, antes de tudo, uma leve mudança de tradução no protocolo. Quanto ao escatocolo, deve-se observar, antes de tudo, que a tradução de 2023, simplesmente, repete a de 1992, que se apresenta bem distante do texto latino. Talvez para evitar o termo exército, que poderia ser traduzido por multidão
Protocolo: | MR1992: “... é digno e necessário” MR2023: “... é digno e justo” |
Escatocolo: | MR2008: Per quem maiestatem tuam adorat exercitus Angelorum, ante conspectum tuum in acternitate laetantium. Cum quibus et nostras voces ut admitti iubeas, deprecamur, socia exsultatione dicentes:
MR1992/2023: “Enquanto esperamos a glória eterna, com os anjos e com todos os santos, nós vos aclamamos, cantando...”
Tradução mais próxima: “Por quem o exército dos Anjos adora a vossa majestade, regozijando-se diante da vossa presença na eternidade. Rogamos-vos que admitais que as nossas vozes se unam as suas para dizermos exultantes:” |
O embolismo, embora mantendo a estrutura precedente de duas frases, foi melhorado. Ao traduzir Ipse enim verus homo como “Sendo ele verdadeiro homem” deu-se unidade ao discurso, ligando o protocolo ao embolismo. O texto também foi purificado de algumas interpolações, tornando mais próximo do texto original e mais leve:
MR1992 | Verdadeiro homem, [ Compadecendo-se da humanidade, [que jaz na morte do pecado], por seus sagrados mistérios ele nos eleva [ao Reino d]a vida nova. |
Fontes
O prefácio do IV Domingo da Quaresma, como o dos domingos precedentes, é de nova composição. Apareceu pela primeira vez no Missal Romano edição típica latina de 1970 (p. 216-217), dela passou para a segunda edição, de 1975 (p. 216-217), chegando incólume até a atual. A sua estrutura não foi tomada de nenhuma outra fonte litúrgica. Alguns termos, todavia, vêm da tradição eucológica:
Ad vitam reducit | GrSup 1573 | [Dominica III intra Quadragesimam] Feria Sexta (Pr) |
Lazarum... suscitavit | GeV 297: I, XXXIII. | Item exorcismi super Electos. Item super feminas (= GrSup 1078: IIII [Ad catechumenum faciendum] Item super feminas]
|
Sacris mysteriis | Ve 1019: XXVIIII, VIIII
Ve 362: XVI, XXIII | [In Natale Episcoporum] Item alia (PC) (= GeV 1374: III XXXVIIa. Orationes in Natale presbyteri qualiter sibi missas debeat celebrare (SO)
[In Natale apostolorum Petri et Pauli] Item alia (PC): cf. GrH 840: 201. Orationes pro peccatis (Or). |
O contexto bíblico é muito explicito, embora não cite diretamente e textualmente nenhum versículo. A construção reflete a arquitetura da narrativa da ressurreição de Lázaro narrada por João 11,1-46. O verbo miseratus é usado por Mateus 14,14 para indicar que Jesus apiedou-se da multidão e curou os seus enfermos (Et exiens vidit turbam multam et misertus est eis, et curavit langudios eorum). Ecoa também passagens como Lucas 7,13 (ao ver a viúva de Naím, o Senhor misericordia motus est – se comoveu de compaixão) e Mateus 9,36 (Ao ver as multidões, teve compaixão delas [misertus est eis], porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor). Na Bíblia, a misericórdia de Deus não é um sentimento passivo, mas uma força operativa que interrompe o ciclo da morte. A expressão ad novam vitam espelha o texto paulino de Romanos 6,4 “Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova (novitate vitae)”. O conceito de que com Cristo a ressurreição tornou-se o escopo da vida, reflete o texto de 1Cor 15,20-22: “De fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo”.
Análise
Para a nossa análise dos principais temas, propomos uma tradução de estudo, sob certos aspectos, mais literal, que se apresenta dividida em dois blocos temáticos:
\\ Pois o mesmo, como homem verdadeiro, chorou pelo amigo Lázaro\\ e, \\ como Deus eterno, o ressuscitou do sepulcro\\; Ele que, apiedado do gênero humano,\\ conduz-nos à nova vida pelos sagrados mistérios.
\1\. Ipse enim verus homo Lazarum flevit amicum
O embolismo inicia com usando o pronome intensivo ipse reforçando a identidade do sujeito agente, Cristo e imediatamente em aposição define a sua natureza humana de forma técnica, o que é essencial para a cristologia; ele é Verus homo, verdadeiramente homem. Aqui temos um jogo teológico fundamental: a expressão indica que quem se encontrava diante da morte do amigo Lázaro, achava-se na condição de igualdade, partilhando a sorte e a dor dos parentes e amigos. As suas lágrimas revelaram a sua pertença ao “gênero humano”. Segundo a mentalidade patrística, o fato de Jesus chorar (flevit) se manifesta como a prova definitiva contra o docetismo, heresia que sustentava que Cristo tinha apenas um corpo “aparente”. Obviamente, não chorou por falta de fé na ressurreição, mas para mostrar que assumiu verdadeiramente as nossas emoções. Ele “se deixou perturbar” para nos ensinar a compaixão. Contemporaneamente, a expressão Verus homo o revela como O homem verdadeiro, sinônimo de autenticidade, modelo, ícone daquela humanidade saída das mãos eternas do Eterno Deus. Ele é o novo Adão, o Adão que não sucumbe.
\2\. Deus aeternus e tumulo suscitavit
O texto é um monumento à união hipostática, a doutrina de que em Cristo há duas naturezas (divina e humana) em uma só Pessoa. O contraste é imediato. O mesmo que chora como homem, ordena como Deus. O texto evangélico observa que Jesus chama Lázaro pelo nome para demonstrar seu poder sobre a morte. Enquanto a humanidade de Cristo se compadece na tumba, sua divindade vira a chave da eternidade. O termo e tumulo suscitavit evoca o poder criador da Palavra, o Logos. Essa teologia é tipicamente paulina; para São Paulo, o Deus eterno é o “Deus que dá vida aos mortos e chama à existência coisas que não existem, como se existissem” (Rm 4,17). O verbo suscitare (levantar, despertar) é o termo clássico para a ressurreição, indicando a ação divina de tirar do estado de morte.
O prefácio utiliza um paralelismo cristológico perfeito: Verus homo... Deus aeternus: A prova da humanidade de Jesus é o choro (flevit); a prova de sua divindade é a ordem (suscitavit). O evento é tipo do mistério pascal de Cristo, como condensado no kerygma primitivo: “Ele foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação” (Rm 4,25).
\3\. qui, humani generis miseratus
O texto do prefácio deste domingo se apresenta como um dos mais comoventes da liturgia romana. Jesus não ressuscita apenas um indivíduo, mas a própria “estirpe humana” (Miserans humanum genus). Lázaro é apresentado como o sacramento da nossa condição mortal. O particípio do verbo depoente miseror, indica que a ação de ter misericórdia é a causa motriz que leva ao desfecho da frase. Nessa expressão, tudo fala da solidariedade de Cristo para com a humanidade, assumida desde a encarnação. Miseratus (compadecido) indica que Cristo assumiu a nossa miséria para nos dar a sua glória. Como ensinam os Padres, “Deus se fez homem para que o homem se fizesse Deus”. Na teologia patrística, o gênero humano é visto como um doente terminal. Cristo é o médico que, por compaixão, não apenas cura, mas infunde uma vida que a natureza humana não possuía originalmente.
\4\. ad novam vitam sacris mysteriis nos adducit.
Esta frase final do Prefácio é o ápice da transição entre o evento histórico, a ressurreição de Lázaro, e a realidade sacramental, manifestada na Liturgia desse dia. Ela descreve a “Economia da salvação”, ou seja, como Deus aplica a vitória de Cristo em nós. Traduzamos a frase invertendo os termos e a dividamos em duas partes: por meio dos sagrados mistérios // ele nos conduz à vida nova.
No latim litúrgico, mysterium é sinônimo de Sacramento e, por Sacramentos, entende-se “um sinal visível de uma graça invisível”, isto é um elemento sensível que contém (é detentor de) uma potência invisível. Na “mistagogia” dos Padres, ou seja, no ato de introduzir os fiéis na dinâmica vital dos mistérios/sacramentos, o método fundamental era a tipologia, o que correspondia, basicamente, a um jogo com a imagem (sensível), qual tipo, visto como profecia, e a realidade, o protótipo, “representado, escondido, velado”, no tipo. A mecânica do “evento Lázaro” é, eminentemente, sacramental. A ressurreição de Lázaro é um tipo (prefiguração) de uma realidade maior, isto é, o que Cristo fez fisicamente por Lázaro, ele faz espiritualmente por nós através da Liturgia hoje. Observem que os dois verbos na primeira frase do embolismo estão no pretérito perfeito (flevit/chorou e suscitavit/ressuscitou), ao passo que na segunda frase o verbo conduzir está no presente do indicativo. Este é o ponto mais importante. O texto não diz que Ele “conduziu” (adduxit), mas que ele conduz (adducit). A ação é contínua. A “história Lázaro”, o passado histórico, está se tornando realidade no presente histórico/teológico, mostrando que a salvação não é um evento estático no passado, mas uma ação contínua que ocorre “agora”, no momento em que os “sagrados mistérios” são celebrados sobre o altar. Essa “escatologia realizada” é tipicamente joanina: no Evangelho quando Marta diz que Lázaro ressuscitará “no último dia”, Jesus a corrige respondendo “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Para João, a vida eterna é uma posse atual. Cada vez que a liturgia é celebrada, o movimento de saída do sepulcro para a “nova vida” acontece novamente para a assembleia.
A segunda parte da frase fala da “nova vida” (novam vitam) que não é apenas a vida pós-morte, mas a vida da graça iniciada no Batismo e nutrida pela Eucaristia. A expressão, que como vista, remete a Rm 6,4 (ἐν καινότητι ζωῆς περιπατήσωμεν) onde o termo usado é Zoē (ζωῆς – vida divina), superior à simples Bios (βίος – vida biológica). No Evangelho de João, a Vida é uma Pessoa: “EU SOU a Ressurreição e A VIDA” (Ἐγώ εἰμι ἡ ἀνάστασις καὶ ἡ ζωή). Os Padres da Igreja, especialmente os Gregos, viam neste evento/passagem o resumo do plano divino. A “nova vida”, a vida divina, é comunicada pelos ritos. São Cirilo de Jerusalém, como todos os Padres mistagogos, ensinava que, nos sacramentos, o fiel “toca” o corpo glorioso de Cristo e, por esse contato, a mortalidade é absorvida pela vida.
O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram do Verbo da vida (λόγου τῆς ζωῆς), porque a vida foi manifestada (καὶ ἡ ζωὴ ἐφανερώθη), e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada, o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos (1Jo 1,1-3).
Com o Batismo, a expressão ad novam vitam deixa de ser uma esperança futura para se tornar uma realidade ontológica, do ser. A liturgia batismal utiliza o simbolismo da água não apenas como limpeza, purificação, mas também como sepulcro. Seguindo a teologia paulina que “fomos sepultados com Cristo” (Rm 6,4), os Padres da Igreja, explicam que a fonte batismal é, ao mesmo tempo, “túmulo e mãe”. A veste branca batismal sinaliza a novidade de vida, liturgicamente, indica que o fiel não é mais apenas um “descendente de Adão” (βίος – vida biológica), mas alguém que possui a “natureza de Cristo” (ζωῆς – vida divina). Para o capadócio São Gregório de Nissa, o Batismo é o início da anástasis (ressurreição). Para ele, a “vida nova” é a recuperação da “imagem e semelhança” que havia sido obscurecida pelo pecado. O batizado começa a viver em uma dimensão que o tempo não pode destruir.
Se o mistério-Batismo nos conduz à nova vida, o mistério-Eucaristia nos mantém nela. Os “sagrados mistérios” (sacris mysteriis) referidos no embolismo encontram aqui seu ápice. Nas Orações Eucarísticas (como a Oração II ou III), a Igreja diz: “Celebrando agora, ó Pai, o memorial da paixão redentora do vosso Filho...”; o memorial é a memória em ação. A “memória litúrgica” não é intelectual; é um evento que torna o fiel contemporâneo de Cristo. A liturgia também nos introduz num dinamismo escatológico quando rezamos “Enquanto esperamos a sua vinda gloriosa”. Isso mostra que a nova vida é uma tensão: já possuímos a semente (pela graça), mas ainda aguardamos a plena floração (na ressurreição final).
Conclusão
O caminho feito até aqui com os prefácios dos cinco domingos da Quaresma (Ano A) nos revela uma progressão teológica. A estrutura dos cinco domingos forma um “quiasmo teológico”. O quiasmo é uma estrutura literária hebraica comum na Bíblia, onde ideias, palavras ou frases são organizadas em ordem reversa (padrão A-B-B1-A1 ou 1-2-3-3-2-1), criando um efeito de “espelho”. Esse recurso foca a atenção no conceito central, auxilia na memorização e reforça a mensagem. Aplicando esse sistema à estrutura quíntupla dos prefácios estudados podemos colocar o II Domingo (Transfiguração) como o ponto de sustentação para a descida final em direção à Semana Santa.
Tema Central | Dinâmica Teológica | Conexão com o II Domingo | |
I | Tentação | Mysterium Quadragesimae: O combate espiritual e a vitória sobre o pecado. | A vitória sobre a tentação no deserto (I) capacita a subida ao Monte (II). |
II | Transfiguração | Claritas et Passio: A revelação da divindade como antídoto ao escândalo da cruz. | O Eixo Central: A glória antecipada para suportar a paixão futura. |
III | A Samaritana (sede) | Fons Salutis: Cristo como a fonte de água viva que dessedenta a alma. | A “luz” do Monte transforma-se em “água” que purifica e dá vida. |
IV | O Cego (luz) | Illuminatio: A passagem das trevas para a luz através da fé. | A Claritas de Cristo (II) agora é comunicada aos olhos do fiel. |
V | Lázaro (Vida) | Resurrectio et Vita: A vitória definitiva sobre a morte física. | O que era promessa no Monte (perveniri constaret) torna-se sinal concreto em Lázaro. |
Podemos assim observar o seguinte movimento: Uma descida ao deserto (I Domingo – ascese, jejum, enfrentamento do mal); uma súbita/ascensão ao Monte. O Prefácio que analisamos filologicamente funciona como uma “injeção de ânimo” teológico. Sem a visão da Claritas, o fiel poderia sucumbir ao rigor do deserto. A luz do Monte começa a ser aplicada aos sacramentos da iniciação cristã (Batismo/Água e Fé/Luz). A preparação imediata para a Paixão no V Domingo muda o foco da divindade radiante para a humanidade que chora por Lázaro, mas que tem poder sobre a morte.
O Prefácio do II Domingo (Qui, propria morte praenuntiata...) é o que se pode chamar de“Prefácio de Sustentação”. Ele é colocado no início da caminhada para que a Igreja nunca esqueça que a finalidade da liturgia não é o rito em si, nem a dor da penitência, mas a participação na natureza divina. Como diz o texto: ad gloriam resurrectionis perveniri constaret. A meta é a Glória; a Quaresma é “apenas” o “através de” (per).
Dom Jerônimo Pereira, osb
Monge beneditino do Mosteiro de São Bento de Olinda
Presidente da ASLI