De caeco nato: O prefácio do IV domingo da Quaresma

De caeco nato

O prefácio do IV domingo da Quaresma

 

O prefácio do IV Domingo da Quaresma tem como título “O cego de nascença”. Apresentamos o texto latino, como se encontra na edição típica do Missal (MR2008) seguido das traduções da segunda (MR1992) e da terceira edição (MR2023) para uso da Igreja no Brasil:

 

MR2008, p. 241

Qui genus humanum, in tenebris ambulans, ad fidei claritatem per mysterium incarnationis adduxit, et, qui servi peccati veteris nascebantur per lavacrum regenerationis in filios adoptionis assumpsit.

Propter quod caelestia tibi atque terrestria canticum novum concinunt adorando, et nos, cum omni exercitu angelorum, proclamamos.

 

MR1992, p. 204-205

Na verdade, é digno e necessário...

Pelo mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas. E elevou à dignidade de filhos e filhas os escravos do pecado, fazendo-os renascer das águas do Batismo.

Por essa razão, com os anjos e com todos os santos, entoamos um cântico novo, para proclamar vossa bondade...

 

MR2023, p.196

Na verdade, é digno e justo...

Pelo mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas, e elevou à dignidade de filhos e filhas os nascidos na escravidão do pecado, fazendo-os renascer das águas do Batismo.

Por isso, todos os seres terrestres e celestes, adorando, entoam um cântico novo; e nós, com os anjos do céu, proclamamos...

 

Observações preliminares

 

            Observa-se, antes de tudo, uma leve mudança de tradução tanto no protocolo quanto no escatocolo, obviamente feita com o objetivo de aproximar mais o texto brasileiro ao texto latino: 

 

Protocolo:

MR1992: “... é digno e necessário”

MR2023: “... é digno e justo”

Escatocolo:

MR1992: “Por essa razão, com os anjos e com todos os santos, entoamos um cântico novo, para proclamar vossa bondade...”

 

MR2023: “Por isso, todos os seres terrestres e celestes, adorando, entoam um cântico novo; e nós, com os anjos do céu, proclamamos...”

 

            O embolismo teve a forma melhorada. Com a substituição de um ponto final por uma virgula, transformou o embolismo num discurso direto. A única mudança foi na expressão “os escravos do pecado”, transformada em “os nascidos na escravidão do pecado”; a razão foi a procura de máxima fidelidade ao texto original, embora em ambas se ignore o adjetivo veteris (antigo): 

MR2008:

... qui servi peccati veteris nascebantur...

MR1992:

... os escravos do [antigo] pecado...

MR2023:

... os nascidos na escravidão do [antigo] pecado...

 

Fontes

 

            O prefácio do IV Domingo da Quaresma, como o dos domingos precedentes, é de nova composição. Apareceu pela primeira vez no Missal Romano edição típica latina de 1970 (p. 208-20o), dela passou para a segunda edição, de 1975 (p. 208-209), chegando incólume até a atual. A sua estrutura, todavia, foi tomada de um antigo prefácio que se encontra no suplemento de Bento de Aniane ao Gregoriano (século VIII – Sup 1571), destinado à quarta-feira da III semana da Quaresma (Dominica III infra Quadragesima – feria quarta): 

 

Qui inluminatione suae fidei tenebras expulit mundi, et genus humanum quod primae matris uterus profuderat caecum, incarnationis suae mysterio reddidit inluminatum. Fecitque filios adoptionis, qui tenebantur uinculis iustae damnationis.

 

A expressão peccati veteris foi tomada de uma oração proveniente do Sacramentário romano de tipo presbiteral, o Gelasiano Vetus (século VII – Liber I, XLI), da celebração da Sexta-Feira Santa (Ordo de feria VI passione Domini, 398):

 

Deus, qui peccati ueteris hereditaria morte, in qua posteritatis genus omne successerat, Christi tui domini nostri passione soluisti...

 

            A expressão in tenebris ambulans é muito presente na Sagrada Escritura, tanto do Antigo (cf. Is 9,2), quanto do Novo Testamento, especificamente, na literatura joanina (cf. Jo 8,12. 12,35; 1Jo 1,5-7). As expressões servi peccati (cf. Rm 6,17-18), lavacrum regenerationis (Tt 3,5-6) e filios adoptionis (cf. Gl 4,5) são paulinas. A expressão genus humanumaparece num sermão de Santo Agostinho (cf. In Evangelium Joannis Tractatus 44, [CCSL 36,381]) e de numa carta de São Leão Magno (Epistola 124,3 [Ad monachos palestinos, PL 54,1064]).

 

Análise

 

Para a nossa análise dos principais temas, propomos uma tradução de estudo, sob certos aspectos, mais literal, que se apresenta dividida em dois blocos temáticos:

 

\1\ Ele (Aquele) que conduziu o gênero humano, que caminhava em trevas, à claridade da fé pelo mistério da encarnação; \2\ e, pelo lavacro (banho) da regeneração, assumiu como filhos de adoção aqueles que nasciam servos do antigo pecado.

 

O embolismo sintetiza a doutrina da salvação cristã (Soteriologia) em dois eixos fundamentais: a iluminação (primeira parte) e a adoção filial (segunda parte). O texto é composto por duas orações relativas coordenadas, cujo sujeito implícito pode ser, de acordo com o contexto amplo, tanto Deus o Pai, como o agente primeiro de todo a obra da redenção e reconciliação, como o Verbo, o Filho do Eterno Pai. Tudo é articulado pelo pronome relativo Qui, que traduzimos, simplesmente por “Aquele”, mas que num discurso estruturado entre o protocolo e o embolismo, melhor seria traduzir por “Ele”, ou “O mesmo” (“...por Cristo, nosso Senhor. Ele que conduziu...” ou “O mesmo que conduziu...”). 

 

Primeira Parte: Ele (Aquele) que conduziu o gênero humano, que caminhava em trevas, à claridade da fé pelo mistério da encarnação

 

O priemeiro período gravita em torno de dois verbos, ambos na voz ativa: conduzir (adduxit) e caminhar (ambulans). O primeiro é o principal, um pretérito perfeito, cujo sujeito agente é Cristo. Ele indica que a ação de Cristo de conduzir à luz da fé (Ad fidei claritatem), foi concluída historicamente. O segundo, usado com o ablativo (in tenebris), cujo sujeito agente é o gênero humano (genus humanum), indica o estado existencial de cegueira espiritual do mesmo (genus humanum), antes da graça da redenção operada por Jesus Cristo. O mistério da Encarnação aparece como o veículo do transporte da humanidade das trevas à luz (Per mysterium incarnationis). O prefácio, portanto, convida a uma leitura holística do mistério Cristo, onde a Encarnação, a Cruz e a Glorificação não podem ser lidas e compreendidas separadamente. 

A clara oposição entre tenebrae (trevas) e fidei claritas (claridade da fé) remete ao Prólogo de São João. O pecado não é apenas uma falha moral, mas uma cegueira ontológica. A Encarnação não é apenas um evento histórico, mas o “ponto de virada” onde a luz divina se torna acessível ao olho humano.

 

Segunda Parte: pelo lavacro (banho) da regeneração, assumiu como filhos de adoção aqueles que nasciam servos do antigo pecado.

 

O segundo período coloca em evidência o contraste abissal entre dois modos de existência: o nascimento natural (nascebantur), por causa do antigo pecado dos pais (peccati veteris), chamado de pecado original, gera escravos (servi) sob o seu jugo. O novo nascimento (regenerationis), gera filhos (filios). Como visto acima, a expressão filios adoptionis(filhos de adoção) é técnica e paulina. Diferencia Cristo, que é Filho por natureza, de nós, que somos feitos filhos por graça (novi per veniam). O uso de assumpsit (assumiu) reforça que essa filiação não é um direito natural do gênero humano (genus humanum), mas um ato de soberana misericórdia divina que nos “retira” (adduxit) da nossa condição servil.

O texto identifica o Batismo, chamado de lavacrum regenerationis (banho de regeneração) como o instrumento eficaz dessa mudança. É o momento em que o evento histórico de Cristo (mysterium incarnationis) se aplica individualmente ao fiel e comunitariamente à Igreja, operando a passagem da escravidão para a liberdade da filiação divina. É o Batismo a [re]ge[ne]rar o gênero humano, trans-formando (mudando a forma) de relação de criaturas em filhos de adoção. No Direito, na antiguidade, para que uma adoção fosse válida, eram necessários ritos e testemunhas

No sistema jurídico de Roma, o indivíduo estava sob o poder absoluto do pai (patria potestas), a adoção, portanto, era o processo legal de transferência de um indivíduo de uma família sob o poder de um pai, para outra. Ao ser adotado, todas as dívidas anteriores do adotado eram legalmente canceladas. Ele morria para a família antiga e nascia para a nova. O adotado perdia, também, todos os direitos na família original, mas ganhava o direito imediato à herança (hereditas) e ao nome (nomen) do novo pai. Quando o texto do embolismo diz in filios adoptionis assumpsit, ele está dizendo que Deus não apenas nos “ajudou”, mas que Ele operou uma manobra jurídica divina; a saber, ele cancelou a nossa “dívida”, identificada como um “pecado original”, e nos deu o direito legal à herança eterna, algo que, por natureza (nascebantur), não possuíamos.

A transição expressa com clareza pelo embolismo de servi peccati para filios adoptionis, reflete outra realidade jurídica romana brutal, ou seja, o escravo (servus) não tinha personalidade jurídica, ele era uma “coisa” (res). O escravo não podia herdar, e não tinha “pai legal”. Ao usar o termo assumpsit (assumiu/tomou para si), o texto litúrgico evoca o ato do Pater famílias (o pai de família) que, ao reconhecer um filho ou adotar um novo membro, o “levanta” ou o “toma” para dentro de sua proteção legal. Na economia da salvação o rito “legal” implicado no processo de adoção é o lavacrum regenerationis e o efeito é a metanoia (mudança de mentalidade) e a mudança de estado (status mutatio), quando se deixa de ser res (coisa/escravo do pecado) para ser personae (pessoas/filhos de Deus).

            A base teológica dessa “filiação divina” por adoção, encontra-se no Primeiro Sermão da Natividade de São Leão Magno: Agnosce, o Christiane, dignitatem tuam, et consors factus divinae naturae, noli in veterem vilitatem degeneri conversatione redire (Reconhece, ó cristão, a tua dignidade e, feito consorte (participante) da natureza divina, não queiras retornar à antiga vileza por um comportamento degenerado)[1]. A expressão consors factus divinae naturae (consorte da natureza divina) é uma citação direta da Segunda Carta de Pedro (1,4). O termo consors (participante/sócio) indica que o cristão não apenas “recebe” algo de Deus, mas passa a ter “parte” na própria vida divina. No texto do prefácio a lex orandi da Igreja usa a expressão peccati veteris, o que Leão Magno chamou veterem vilitatem (antiga vileza/baixeza), indicando que vida sem Cristo é vista como “barata”, “vil” ou, mais explicito ainda, “de pouco valor” em comparação com a nobreza da adoção. O termo conversatio, aproximado ao adjetivo degener (degenerado, vulgar) aqui não significa e não pode ser traduzido como diálogo, mas “modo de vida” ou “conduta”. O Papa liturgista alerta para o perigo de um comportamento “[de]-ge[ne]rado”, ou seja, que nega o novo genus (gênero/estirpe/família) ao qual agora pertencemos pelo Batismo.

O embolismo do prefácio insiste na ação divina (ele conduziu, ele assumiu), o texto de São Leão foca na resposta humana, ou seja, uma vez que fomos “assumidos como filhos”, nossa conduta deve refletir essa nova “genética espiritual”. A “claridade da fé” mencionada antes deve agora iluminar a conversatio, a conduta, o modo de viver cotidiano.

 

Conclusão

 

            No IV Domingo da Quaresma, quando lemos o evangelho da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41), e no Ano A, de modo mais proeminente, quando evidenciam-se os temas da escolha/unção (I leitura: 1Sm 16,1b.6-7.10-13a) e da iluminação do crente vinda da ressurreição do Senhor (II leitura: Ef 5,8-14), celebrando o segundo escrutínio com aquele que se preparam para o Batismo na noite santa da Páscoa, a liturgia nos convida a deixarmos nos iluminar a mente e o coração, sair da nossa cegueira, acerca da incomensurável obra da redenção operada em nosso favor.

A linguagem é jurídica. A palavra Redemptio, que não aparece no prefácio, mas que é o termo que o resume completamente, vem do verbo redimere (re + emere), que significa literalmente “comprar [emere] de volta[re]”. No mercado romano (forum), se um objeto ou uma pessoa havia sido vendida ou penhorada, a redemptio era o ato de pagar o preço exigido para reaver a posse. O prefácio fala dos que nascem escravos do pecado (servi peccati). Para o Direito Romano, um escravo poderia obter a liberdade de duas formas principais: pelo que se chamava manumissio, ou seja, osenhor libertava o escravo por vontade própria, ou por redemptio ab hostibus, quando um cidadão romano era capturado em guerra e tornado escravo por inimigos, outro cidadão poderia pagar o seu resgate. O “antigo pecado” (peccati veteris) é visto como o “sequestrador” ou o “proprietário” ilegítimo do seu escravo. A humanidade não podia se autofinanciar para sair dessa condição. O mistério da Encarnação (mysterium incarnationisé, juridicamente, a entrada do “Comprador” no mercado de escravos.

Todavia, para uma redenção ser válida em Roma, o preço deveria ser real e proporcional ao valor do resgatado. Na teologia patrística, especialmente em Santo Agostinho e São Leão Magno, o preço da nossa redenção foi o Sangue de Cristo. aqui reside o grande paradoxo cristão no qual se revela a incomensurável manifestação do amor de Deus: ele, que é o dono de tudo, “paga” a si mesmo para nos recuperar.

Se relermos a segunda parte do embolismo com esses olhos, o verbo assumiu (assumpsit) ganha uma força terrificante, quase física: “assumiu como filhos de adoção aqueles que nasciam servos do antigo pecado”. Ele não apenas nos libertou, ele nos reivindicou como propriedade familiar. No Direito Romano, isso se chamava a reivindicação da liberdade (vindicatio in libertatem) o ato de tocar um escravo com uma vara e declarar diante do magistrado: “Eu afirmo que este homem é livre”. A “vara” da liturgia, neste caso, é o próprio corpo de Cristo na Encarnação/Crucifixão/Glorificação. Sem a redenção, a adoção seria impossível, pois não se pode adotar quem legalmente pertence a outro senhor. Primeiro, Cristo nos “compra” (redemit), depois o Pai nos “assume” (assumpsit). É fascinante notar que, enquanto na adoção humana o adotado assume o nome do pai, na adoção divina, o próprio Deus assume a nossa natureza (incarnationis) para que possamos assumir a dele.

O cristão que tem a mente iluminada por essa verdade pode cantar como o cego de nascença: “O Senhor ungiu os meus olhos... comecei a ver e acreditei em Deus” (Antífona da comunhão: Cf. Jo 9,11.38).

 

Dom Jerônimo Pereira, osb

Monge do Mosteiro de São Bento de Olinda

Presidente da ASLI



[1] Cf. Leone Magno, «Primo Discorso del Natale», in Isermoni del Natale, Paoline, Milano 2004, 44.

 
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