CONSIDERAÇÕES SOBRE O LUGAR DA CRUZ NO PRESBITÉRIO
Pe. Ozias W. Correia Xavier[1]
A cruz como elemento simbólico-artístico
De instrumento de condenação à morte no Império Romano, após a crucificação do Senhor Jesus a cruz passou a ser considerada objeto de veneração, tornando-se um dos principais símbolos do cristianismo. A vitória de Constantino na Ponte Mílvia em 312 d.C. marcou um momento de decisiva mudança no significado da cruz. Esta passou a ser pintada e desenhada sobre as mais diversas superfícies, de vestes a paredes. No século V, aparecem as primeiras imagens do crucificado, que era retratado vestido e, em grande parte das representações, vivo, como que ressuscitado[2]. A arte barroca, com seu forte caráter contra reformatório, apostou no realismo para “assombrar e cativar os olhares do povo simples”[3] e, assim, passamos às pinturas e esculturas do Cristo sofredor como “Senhor dos Passos’, coroado de espinhos e flagelado nos famosos “Ecce homo” e envolto em trevas, atado à cruz nas famosas pinturas de Murillo.
A cruz na Instrução geral do Missal Romano
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que a IGMR é fruto da reforma Litúrgica querida pelo Concílio Vaticano II, não sendo um anexo ao Missal Romano, mas parte integrante do mesmo missal. A Reforma Litúrgica se insere em um contexto eclesiológico (apresentado pela Lumen Gentium), pastoral (abordado na Gaudium et Spes) e bíblico (conforme Dei Verbum), não podendo ser abordada nem interpretada fora destes quatro eixos. Assim, a IGMR herda da Constituição Sacrosanctum Concilium do Concílio Vaticano II alguns princípios que podem ser colocados como chave de leitura para sua efetiva compreensão. Caberia destacar aqui a “participação ativa” (actuosa participatio), que também deve ser piedosa, consciente, frutuosa e fácil. Poderíamos afirmar com segurança que a Instrução do Missal Romano é a cristalização legal e normativa da Reforma Litúrgica, assim como as outras Instruções para os diversos sacramentos.
Passemos então, às referências feitas à cruz na IGMR, que interessam ao nosso estudo:
· “Haja também sobre o altar ou em torno dele, uma cruz com a imagem do Cristo crucificado” (n. 117).
· “A cruz, ornada com a imagem do Cristo crucificado, trazida eventualmente na procissão, pode ser colocada junto ao altar, de modo que se torne a cruz do altar, que deve ser uma só, caso contrário, ela será guardada em lugar adequado (...)” (n. 122).
· “Haja também sobre o altar ou perto dele uma cruz com a imagem do Cristo crucificado que seja bem visível para o povo reunido” (n. 308).
· “(...) Deve-se ter todo cuidado com as coisas diretamente ligadas ao altar e à celebração eucarística, como, por exemplo, a cruz do altar e a cruz que é levada em procissão” (n. 350).
A partir destas referências objetivas podemos tirar algumas conclusões lógicas. Em primeiro lugar, é necessário que haja o que a IGMR chama de cruz do altar. Esta está diretamente ligada ao altar, ou seja, ao polo litúrgico para onde tudo deve convergir no espaço litúrgico[4]. Esta deve conter a imagem do Cristo crucificado e deve ser uma só. Aqui, vale lembrar um outro princípio importante da Sacrosanctum Concilium: a correta disposição das imagens sagradas à veneração dos fiéis[5], que foi traduzido na IGMR como uma recomendação para que não se duplique uma mesma imagem no mesmo espaço celebrativo[6].
Quanto ao lugar desta cruz do altar, a nossa tradução brasileira – bastante fiel à edição típica latina - usa as expressões: sobre o altar (preposição que indica uma posição física localizada de maneira superior a um determinado apoio), em torno do altar (locução prepositiva: preposição + substantivo + preposição que indicam uma posição de proximidade, não necessariamente estabelecendo um contato físico), perto do altar (locução prepositiva: advérbio de lugar + preposição que indicam uma distância pequena entre dois objetos). Existe então aqui uma variada possibilidade de localização desta cruz do altar, que deve corresponder à estrutura do espaço celebrativo e levar em conta a visibilidade da assembleia, não apenas do presidente da celebração.
A interpretação dos números da Instrução Geral do Missal Romano
Diversas são as interpretações para estes números, a depender do conceito teológico que as permeia. No entanto, é forçoso afirmar que a IGMR deve ser lida como uma instrução única, cujos números precisam ser lidos em sentido complementar e explicativo uns dos outros, de modo que não se contradigam ou se anulem. Ora, há uma antiga expressão latina comum no meio jurídico que afirma: lex non praecipit sibi ipsi – a lei não ordena a si mesma, ou seja, não se contradiz. Caso contrário, esta lei padece de força legal. Se existe alguma contradição nos termos, há deficiência interpretativa, seja da parte do sujeito que não tem elementos para tal, seja da parte do próprio texto que se expressa de maneira aparentemente contraditória.
Em resposta a uma consulta feita ao Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos de 04 de fevereiro de 2025[7] a Santa Sé, por meio do referido dicastério sanou a questão, que já havia sido respondida na revista Notitiae, n, 21-22[8], do então Consilium ad Exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia, responsável pela aplicação da reforma litúrgica.
A dubia respondida na revista repropõe uma prescrição já vigente que determinava que “uma única grande cruz no centro da ábside domina todo o conjunto litúrgico”[9], podendo ser colocada também fora do altar, não somente acima dele, como até a reforma litúrgica era comum. Ali também é oferecida uma tripla possibilidade: colocar a cruz processional diante do altar, voltada para o celebrante (o que não se vê muito, com exceção de algumas comunidades monásticas), usar uma grande cruz pendente do alto, como se conserva em muitas basílicas (por exemplo, São João do Latrão e Santa Sabina em Roma e Basílica Nacional de Aparecida) ou colocada na parede da ábside, de acordo com o costume ainda bastante comum nas comunidades.
Assim, de maneira praticamente definitiva, se apresenta a orientação da Igreja, em consonância com o desejo da Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Liturgia. Considera-se aqui também o equilibrado anseio da reforma litúrgica de que o povo aproveite melhor as riquezas contidas na liturgia, ao mesmo tempo que se modifique ou se altere aqueles elementos que dificultem ou ofusquem este processo[10].
Ratzinger e a cruz na Liturgia
Do ponto de vista litúrgico, o pontificado de Bento XVI restaurou vários costumes, ao mesmo tempo que acendeu debates e suscitou a retomada de costumes antigos que foram abolidos intencional ou naturalmente após a reforma litúrgica. A promulgação do Motu Proprio Summorum Pontificum, de 2007 inflamou ainda mais o debate. Além disso, a própria ars celebrandi de Bento XVI influenciou – e continua influenciando – uma nova geração de sacerdotes que, sob sua inspiração, estabeleceram uma forma celebrativa que pretende restaurar costumes que, segundo esta mentalidade, nunca foram abolidos e poderiam enriquecer a liturgia reformada pós-conciliar.
No seu famoso livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”, o então Cardeal Joseph Ratzinger, teólogo de inquestionável competência, erudição e relevância, faz uma reflexão sobre o tema da cruz e do altar na liturgia em um capítulo intitulado “O altar e a orientação da oração na liturgia”.
Na obra, ele “sublinha com firmeza que, nas igrejas modernas, deveria ser valorizado o simbolismo de voltar-se para o oriente por parte da comunidade dos fiéis e do sacerdote, como expressão do olhar voltado para o Senhor que vem. Como expressão prática de adaptação a esse postulado, o Cardeal Ratzinger apresenta a seguinte solução: a direção oriental estava ligada ao “sinal do Filho do Homem”, isto é, à cruz, que anuncia o retorno do Senhor. Com isso, o oriente estava desde o princípio ligado ao sinal da cruz. Onde não é possível um comum voltar-se para o oriente de modo explícito, a cruz pode servir como o oriente interior da fé. Ela deveria estar no centro do altar e ser o ponto de concentração do olhar do sacerdote e da assembleia em oração. Desse modo, seguimos a antiga invocação pronunciada no início da Eucaristia: Conversi ad Dominum — voltados para o Senhor. Então olhamos juntos para aquele que representa para nós o Pai e nos acolhe em seus braços, para aquele que faz de nós um novo templo vivo. Entre os verdadeiros absurdos dos últimos decênios, o Cardeal Ratzinger considera o fato de que a cruz seja colocada de lado, para que não cubra o sacerdote. Talvez a cruz incomode a Eucaristia? O sacerdote é talvez mais importante do que Cristo? Esse equívoco deve ser corrigido o quanto antes, sem esperar por novas agitações. O ponto de referência é o Senhor. Ele é o Sol nascente da história. Pode-se então escolher uma cruz que represente a Paixão, que torne presente o Sofredor, que por nós se deixa transpassar no flanco, de onde saem sangue e água — a Eucaristia e o Batismo —, ou ainda uma cruz triunfal, que exprima o pensamento do retorno eterno e atraia a atenção para Ele. De fato, é Ele, de todo modo, o único Senhor: “Cristo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8) — cf. J. Ratzinger, op. cit., 79-80”[11].
Subindo ao sólio pontifício, Ratzinger, que tomou para si o nome de Bento XVI, adotou em suas celebrações litúrgicas esta postura, sempre colocando sobre o altar, voltado para o celebrante uma cruz, às vezes duplicada com outra que se localizava aos fundos do presbitério. Este fato foi confirmado pelo então Mestre de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, Mons. Guido Marini que disse que “nas celebrações presididas pelo Santo Padre, "um dos aspectos significativos é o da centralidade do crucifixo sobre o altar", afirmou. Porque – acima de tudo -, no momento da oração eucarística, é fundamental que todos dirijam o olhar e o coração "para quem está no centro, o Senhor, para renovar seu sacrifício de amor pela salvação de todos"[12].
Esta postura do Santo Padre rapidamente foi tomada como exemplo, visto que as celebrações papais sempre são vivamente acompanhadas e seeguidas como referenciais. As diversas comunidades ao redor do orbe se organizaram para seguirem o exemplo do Papa, para a alegria das fábricas e lojas de objetos litúrgicos. Sabemos que um costume em geral nem sempre é refletido, apenas repetido. Chegamos ao extremo de, em algumas comunidades, haver no presbitério, não somente duplicação, mas uma triplicação da cruz: uma na ábside, uma sobre o altar e a cruz processional ao lado do altar ou do ambão.
Faz-se necessária uma abordagem madura que nos leva a algumas conclusões. Em primeiro lugar, a decisão do Papa Bento foi pessoal, visto que o mesmo não desejou estabelecer isto para toda a Igreja por meio da promulgação de alguma lei ou da alteração dos trechos da IGMR. Depois, o argumento da piedade pessoal do sacerdote, embora válido, não pode ser levado ao extremo de suprimir a lei litúrgica. Uma verdadeira piedade não prescinde das normas da Igreja, que é Mater et Magistra.
Uma solução pacificadora
“Não é possível adorar a Deus e, ao mesmo tempo, fazer da liturgia um campo de batalha para questões que não são essenciais”[13]. A Liturgia e, sobretudo a celebração dos Mistérios de Cristo não pode ser sequestrada por nenhuma opinião ideológica ou por preferências pessoais. Há de se considerar o progresso orgânico e eclesial da liturgia, por meio de suas orientações e normas.
Faz parte da fé cristã a crença na Ressurreição. Na celebração Eucarística, recordamos não somente a morte de Cristo na cruz, mas “sua gloriosa ressurreição e ascensão, enquanto esperamos sua nova vinda” (cf. Oração Eucarística III). A cruz é passagem, caminho aberto para a Vida. A celebração eucarística é renovação não somente do sacrifício do Calvário, mas também da Ressurreição. O Mistério Pascal ali celebrado é completo, uma verdadeira passagem: da Cruz à Ressurreição, da morte à Vida.
Neste sentido, desde os primórdios, a própria estrutura das igrejas construídas era manifestação física da fé na Ressurreição. A iconografia oriental não conhece a dramaticidade das cenas da crucificação ocidentais, quase sempre, dotadas de um realismo que, às vezes é repulsivo. Na antiguidade, a cruz sempre era vista como um sinal de vitória, quase como que um estandarte, por isso, sempre gloriosa, cravejada de pedras preciosas e, quando não adicionada à imagem do crucificado, trazia-o sempre vivo, como que ressuscitado. As ábsides sempre apresentavam imagens epifânicas, que retratavam, por exemplo, Cristo entronizado e glorioso entre os anciãos do apocalipse, identificados com os Apóstolos ou imagens paradisíacas, com animais e elementos da natureza, sempre em referência ao Éden perdido pelo pecado e reconquistado através da salvação de Cristo.
“A colocação central da cruz faz pensar que esta seja o coramento do sacrifício, o termo do mistério, enquanto é somente uma etapa intermediária. Melhor é a solução de colocar entre o altar e a nave ou suspensa sobre o mesmo altar. Do ponto de vista teológico, são soluções corretas”[14]. Acima de qualquer opinião ou gosto pessoal, a melhor solução é sempre o favorecimento de uma participação ativa, consciente, piedosa e frutuosa tanto do presidente quanto da assembleia celebrante na celebração da Eucaristia. As várias possibilidades da localização da cruz no presbitério, ao invés de favorecerem uma confusão inspirada por uma deficiente formação litúrgica, podem ser ocasião de valorização da experiência celebrativa daquela comunidade concreta.
REFERÊNCIAS
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium: sobre a Sagrada Liturgia. 11. Ed. São Paulo: Paulinas, 2011.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Guia Litúrgico-pastoral – revisado e atualizado. 4. Ed. Brasília: Edições CNBB, 2025.
CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Instrução geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário. Brasília: Edições CNBB, 2023.
DICIONÁRIO DE LITURGIA. São Paulo: Edições Paulinas, 1992.
PLAZALOLA, Juan. Historia del arte cristiano (Coleção Sapientia Fidei – serie manuales de Teología). Madrid: Biblioteca de autores cristianos, 2023.
RATZINGER, Joseph – Bento XVI. Introdução ao Espírito da Liturgia. 4. Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015.
WALCZAK, Roman. Simbolismo e arredamento del tempio cristiano – guida all’architetura contemporânea degli interni degli edifici sacri secondo i documenti conciliari dela Chiesa e l enorme ecclesistiche attuali. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011.
[1] Especialista em Liturgia pela FASBAM. Responsável pela Pastoral Litúrgica da Diocese de Formosa.
[2] DICIONÁRIO DE LITURGIA, p. 1258.
[3] Cf. Plazaola, p. 225, tradução nossa.
[4] Guia litúrgico-pastoral, p. 161-162
[5] Cf. SC, 125
[6] Cf. IGMR, 318
[7] Prot. N. 60/25 DCDDS
[8] Disponível em: https://www.cultodivino.va/content/dam/cultodivino/rivista-notitiae/1960/notitiae-02-(1966)/Notitiae-021-022-1966.pdf. Tradução nossa.
[9] Idem, tradução nossa.
[10] Cf. SC, n. 21
[11] Cf. M. E. Rosier-Siedlecka, Inspirações na arquitetura polonesa. Stanipotrze, in: AK 113 (1989) 191, in Walczak, p. 82, tradução nossa.
[12] https://www.acidigital.com/noticia/22743/dom-guido-marini-explica-especial-cuidado-do-papa-bento-com-a-missa
[13] PAPA FRANCISCO, Discurso aos professores e alunos do Instituto Litúrgico Pontifício Santo Anselmo em 07 de maio de 2022. Tradução nossa. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2022/may/documents/20220507-pont-istituto-liturgico.html
[14] Walczack, p. 81-82
