Beijar o Evangeliário

Beijar o Evangeliário

 

Dom Jerônimo Pereira, osb[1]

 

     A disposição ou a deposição do Evangeliário sobre o altar no início da celebração eucarística evidencia a estreita relação entre a mesa da Palavra e a do Corpo de Cristo. De fato 

 

A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo (DV 21).

 

A Palavra de Deus e o mistério eucarístico foram honrados pela Igreja com a mesma veneração, embora com diferente culto. A Igreja sempre quis e determinou que assim fosse, porque, impelida pelo exemplo de seu fundador, nunca deixou de celebrar o mistério pascal de Cristo, reunindo-se para ler “todas as passagens da Escritura que a ele se referem” (Lc 24,27) e realizando a obra da salvação, por meio do memorial do Senhor e dos sacramentos (OLM 10).

 

     Neste princípio fundamenta-se a preocupação da Igreja de fazer de tal modo que 

 

Os pastores, portanto, “devem ensinar diligentemente os fiéis sobre a participação em toda a Missa”, ilustrando a íntima relação entre a liturgia da palavra e a celebração da Ceia do Senhor, para que possam perceber claramente que constituem um único ato de culto. (CME 10)

 

O beijo ao Evangeliário na liturgia antes do Concílio Vaticano II 

 

O primeiro documento que atesta a saudação ao livro dos Evangelhos com um beijo é o Ordo Romanus I,51. O primeiro dos ministros que prestava reverência ao livro dos Evangelhos com um beijo era o papa nos ritos de introdução da missa. 

Ao canto do introito o papa entrava na igreja, ajoelhava-se e rezava em silêncio até à repetição da antífona que seguia o Gloria Patri do salmo do introito. Terminada a antífona, o papa se levantava e beijava o Evangeliário, que tinha sido colocado sobre o altar pelo diácono antes da paramentação do papa no secretarium e do canto do intróito. Imediatamente depois o papa dirigia-se à cátedra, a schola cantava o Kyrie, o gloria, quando previsto, e o papa dizia o oremus com a Coleta. Tal beijo poderia às vezes substituir o beijo ao altar (cf. OR IV,18; OR IX,10; OR X,18OR II, 355) e era acompanhado de uma oração.

Também o bispo, quando presidia, à imitação ou em virtude de substituição do papa, beijava o Evangeliário no início da missa, como atestam os documentos romanos-germânicos. Assim no Ordo Romanus V,18 da segunda metade do século IX, e o Pontifical Romano-Germânico do X século, preveem: Tandem Episcopus osculatur evangelium et altare (cf. também os OR IX,10; X,18).

Os Ordines do VIII século que regulavam as missas presbiterais (OR XV.XVII), precisamente o XVII,26, manda o sacerdote e todos os diáconos beijarem o Evangeliário que estava colocado sobre o altar.

No Ordo missae secundum consuetudinem romanae curiae do século XIII, terminadas as orações feitas ao pé do altar, o bispo se encaminhava até o altar e depois de beijá-lo in medio, posicionava-se à esquerda do altar, beijava, no Evangeliário apresentado pelo subdiácono, o início do evangelho, a ser cantado naquele dia, como também testemunha Inocêncio III[2].

No MR de 1570 não encontramos nenhuma referência a este beijo ao livro dos Evangelhos nos ritos introdutórios da missa. Encontramos a mesma rubrica do Ordo missae secundum consuetudinem romanae curiae, ligeiramente modificada no Pontifical Romano editio princeps de 1595-1596 e reproduzida na sua editio typica de 1961-1962[3].

O segundo dos ministros a beijar o evangeliário no Ordo Romanus I é o diácono que, depois da leitura da epístola e do canto do Alleluia ou do Tractus, durante a liturgia da palavra, beijava o pé do papa, recebia a bênção Dominus sit in corde tuo et in labiis tuis, beijava o livro sobre o altar e começava a procissão para o ambão[4].

Após a leitura do Evangelho, tendo o diácono descido do ambão, entregava o Evangeliário ao subdiácono, que o tinha aberto. O subdiácono o recebia e o entregava a um outro subdiácono (subdiacono sequenti), que, segurando-o na frente do peito super planetam, entregava-o para ser beijado por todos os ministros segundo a ordem dos diversos graus (cf. OR I,59.64)

O beijo ao evangeliário antes da procissão ao ambão desapareceu para a missa comum já nos diferentes Ordinários de Missa do final da Idade Média e, definitivamente, no missal de Pio V. No missal de Pio V é prescrito um só beijo ao evangeliário depois da leitura do Evangelho.

 

O beijo ao Evangeliário na liturgia do Concílio Vaticano II 

 

     Na reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II, a proclamação da Palavra de Deus na liturgia recebeu uma particular e indubitável consideração[5]. Com a liturgia da palavra se entra no coração da celebração. O livro do Evangelho recebe claras e específicas expressões de honra, herança deixada pelos séculos (cf. IGMR 273), isto é, procissão, incensação, aclamação, sinal da cruz, uma atitude particular da assembleia que se coloca em pé e um beijo. Estas expressões de honra formam uma espécie de moldura ritual em torno do livro dos Evangelhos que, já segundo Santo Agostinho, representa o Cristo[6].

     Na missa cum populo sine diacono, na missa concelebrata e na missa conclebrata cum episcopo sine diacono é função do sacerdote a proclamação e a veneração do Evangelho (cf. IGMR 134.212).

     Na missa cum populo e cum diacono é função do diácono, depois de pedir e receber bênção, a proclamação e a veneração do Evangelho. Quando a missa é presidida pelo bispo, após o anúncio do Evangelho, o diácono leva o livro para ser beijado pelo bispo ou ele mesmo beija o livro como de costume (cf. IGMR 175; CB 141.74.173). 

 

O livro dos Evangelhos na liturgia: uma forma de presença

 

     A Sacrosanctum Concilium declara que na liturgia, Deus fala ao Seu povo e Cristo continua anunciando o Evangelho (SC 33) e o mesmo Cristo, que é “sempre presente na sua Igreja”, se faz “ver” de modo incisivo presente na sua palavra, uma vez que é ele quem fala quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura (SC 7). Neste sentido, o livro dos Evangelhos, na liturgia tornar-se sinal sacramental da Palavra de Deus, Jesus Cristo[7]. Além disso, na liturgia eucarística, o Evangeliário quadriforme significa a presença de Cristo. O Evangeliário torna-se 

 

Evocação e invocação da Presença ativa e pessoal daquele que é o Verbo “voltado para Deus”, feito carne e dirigido aos homens (cf. Jo 1,2.14), o Verbo definitivo, pronunciado na concretude da história humana como palavra de graça, de reconciliação e de vida eterna.[8].

 

     Torna-se ícone do próprio Cristo, da sua manifestação e ressurreição. Na liturgia o Evangeliário não “participa” somente como um livro que contém um texto para ser cantado, mas como um ator da ação ritual. “Participa”

 

Como o livro, não apenas através da leitura, mas como um ícone do Senhor ressuscitado, presente e atuante na Igreja. O livro do Evangelho é para a Igreja o ícone eloquente que nos manifesta a presença de Cristo e, acima de tudo, o ícone da gloriosa ressurreição.[9].

 

     Deste modo, a Sagrada Escritura desempenha um papel fundamental na celebração litúrgica, porque dela vêm as leituras a serem lidas e explicadas na homilia e os salmos para serem cantados. A sua inspiração e o seu espírito permearam as orações, as preces e os hinos litúrgicos. Dela se faz derivar as ações e sinais da liturgia (cf. SC 24). Portanto, a celebração da liturgia é baseada na Escritura e dela extrai a sua força[10]. A palavra lida na liturgia não é apenas a concretização vocal ou a expressão fonética da possibilidade de que o conhecimento do conjunto de tinta sobre o papel se torne plausível, mas é a revelação d’Aquele que o livro simboliza:

 

Legimus sanctas scripturas. Ego corpus Iesu euangelium puto; sanctas scripturas puto doctrinam eius. Et quando dicit “Qui non comederit carnem meam et biberit sanguinem meum”, licet et in mystero possit intellegi, tamen uere corpus Xhristi et sanguis eius sermo scripturarum est, doctrina diuina est[11]

 

Lemos as Sagradas Escrituras. Considero o corpo de Jesus como o evangelho; considero as Sagradas Escrituras como o seu ensinamento. E quando ele diz: “Quem não comer a minha carne e beber o meu sangue”, embora possa ser compreendido em mistério, na verdade o corpo de Cristo e o seu sangue são a palavra das Escrituras, esse é ensinamento divino.

 

     No fato de ser Cristo o centro da história da salvação a Igreja fundamenta o nobre rito de “apresentação” do Evangelho, colocando a sua proclamação no vértice da liturgia da palavra com todos os gestos de veneração a ele conferidos:

 

 

A proclamação do Evangelho constitui o ponto alto da Liturgia da Palavra. A própria Liturgia ensina que se lhe deve manifestar a maior veneração, uma vez que a cerca, mais do que as outras leituras, de honra especial, tanto por parte do ministro delegado para anunciá-la, que se prepara pela bênção ou oração, como por parte dos fiéis que, pelas aclamações, reconhecem e professam que o Cristo está presente e lhes fala, e que ouvem de pé a leitura ou ainda pelos sinais de veneração prestados ao Evangeliário (IGMR 60).

 

Sendo sempre o anúncio evangélico o ponto alto da Liturgia da Palavra, as duas tradições litúrgicas, a ocidental e a oriental, mantiveram uma diferença entre o Evangelho e as demais leituras. Com efeito, o livro dos Evangelhos era elaborado com grande cuidado, adornado e venerado mais do que qualquer outro lecionário. Assim, pois, é muito conveniente que também em nossos dias, nas catedrais, nas paróquias e igrejas maiores e mais concorridas, haja um Evangeliário, formosamente adornado e diferente do livro das demais leituras. Este é o livro entregue ao diácono na sua ordenação, e na ordenação episcopal é colocado e sustentado sobre a cabeça do eleito (ILM 36). 

 

     A consciência de que os livros litúrgicos, especialmente aqueles que suportam a Palavra de Deus, desenvolvem, na interpretação simbólica da liturgia, um papel absolutamente fundamental, faz que se tenha para com eles uma reverente veneração e zelo cheio de primor, porque na liturgia eles são sinais e símbolos da realidade sobrenatural expressa nos ritos e orações:

 

Deve-se cuidar de modo especial que os livros litúrgicos, particularmente o Evangeliário e o Lecionário, destinados à proclamação da Palavra de Deus, gozando, por isso, de veneração peculiar, sejam na ação litúrgica realmente sinais e símbolos das realidades celestes, e, por conseguinte, verdadeiramente dignos, artísticos e belos (IGMR 349).

 

     Certamente conceber o livro das Escrituras como sacramento do Verbo, da Palavra de Deus, Jesus Cristo, é entrar num clima de tensão entre 

 

A Escritura e a Palavra, entre o testemunho da Boa Nova e a pessoa daquele que é o cumprimento e a plenitude do livro, na consciência de que o livro não pode esgotar a Palavra, mas simplesmente referir-se a ela[12].

 

     No entanto, é claro para a Igreja que 

 

Ele [o Evangeliário], contendo o texto do “Evangelho quadriforme”, é, portanto, um símbolo peculiar de Cristo e, portanto, considerado superior a todos os outros livros litúrgicos, incluindo aqueles que contêm as outras leituras da Sagrada Escritura. Não só as perícopes proclamadas durante as celebrações são dele retiradas, como também está no centro de uma vasta série de gestos rituais, cujo conjunto nos permite compreender plenamente a sua importância e valor simbólico[13]

 

     Beijar o livro dos Evangelhos é, portanto, uma expressão de profunda e reverente ternura da Igreja-esposa para com o seu Verbo-esposo que a fecunda por meio do sêmen da palavra proclamada e a faz crescer na fé, e na esperança da sua vinda.

 



[1] O texto corresponde a um extrato ajustado do capítulo IV da tese de doutorado do autor: cf. J. Pereira Silva, Quod ore sumpsimus, Domine, pura mente capiamus: a sacramentalidade do aparato bucal na celebração dos sacramentos da iniciação cristã, CLV-Ed. Liturgiche, Roma 2017. 

     [2] Le ceremonial apostolique avant Innocent VIII, 67, ed. F. Tamburini, Edizioni Liturgiche, Roma 1966, 83. 

     [3] «De ordinibus conferendis», 31, in Pontificale Romanum editio princeps (1595-1596), ed. M. Sodi. – A. M. Triacca, edizione anastatica, LEV, Città del Vaticano 1996, 19; in Pontificale Romanum editio typica 1961-1962, ed. M. Sodi. – A. Toniolo, LEV, Città del Vaticano 2008, 14.

[4] Cf. R. Tichy, «La procession de l’Évangile – un “point faible” de la liturgie?», EO 32 (1/2015) 133-165.

[5] Cf. P. Carpanedo, «A emancipação da palavra», RdL 246 (2014) 4-17; J. Pereira Silva, «O Lecionário Bíblico dominical. Uma escola de fé e vida», RdL 250 (2015) 9-16.

[6] Cf. Augustinus HipponensisIn Iohannis Evangelivm, XXX,1, ed. R. Willems (CCL 36), Brepols, Turnholti 1954, 289.

[7] Benedictus Pp XVI, Adhortatio Apostolica Postsynodalis Verbum Domini (30 settembre 2010) 56, AAS 102 (2010) 735.

     [8] E. Borsotti, Il libro dissigillato. Per una fenomenologia cerimoniale dell'evangeliario, in L'evangeliario nella storia e nella liturgia, Qiqajon, Magnano (BI), 2011, 111.

     [9] L. Popescu, «La liturgia della parola nella divina liturgia», RPL 250 (2005) 35.

     [10] Cf. «Praenotanda dell’Evangeliario per le domeniche e feste secondo il rito romano e ambrosiano», in I Praenotanda dei libri liturgici, ed. L. F. Conti e G. M. Compagnoni, Àncora, Milano 2009, 191.

     [11] HieronymusTractus in psalmos, De psalmo CXLVII, ed. G. Morin (CCL 78), Brepols, Turnholti 1958, 337-338.

     [12] E. Borsotti, Il libro dissigillato, 111.

     [13] Praenotanda dell’Evangeliario per le domeniche e feste secondo il rito romano e ambrosiano, 193.

 
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