ANTÍFONA DA PACEM DOMINE: uma oração pela Paz
Dom Agostinho BARCELOS FAGUNGES, OSB
Mosteiro da Transfiguração
Nestes últimos tempos temos enfrentado um novo desafio em nossas vidas. Todos sabemos de nossas lutas diárias para construirmos e reconstruirmos nossa família, nossos laços afetivos, nossa vida em Deus e nosso serviço em nossas comunidades. Ou ainda questões de saúde que, ora nos afetam, ora atingem pessoas que amamos, e que constituem uma batalha diária. De uma forma ou outra, isso faz parte de nossa vida cristã. Mas depois de termos passado por uma epidemia que atingiu todos os que habitam esse imenso planeta Terra – nossa casa comum –, em vez de nos sensibilizarmos diante da fragilidade que faz parte da vida humana e nos tornarmos mais próximos uns dos outros, parece que assumimos um caminho diametralmente oposto. Isso tem se demonstrado não somente no âmbito individual, mas também social.
Todos temos testemunhado o aumento do número de conflitos armados em todo o mundo. Entre combates internacionais e guerra civil, hoje em dia contam-se mais de 130, fazendo com que mais de 120 milhões de pessoas busquem refúgio em outras regiões do próprio país ou mesmo numa terra estrangeira. E muitos de nós também temos de enfrentar a violência urbana que está presente em nosso país.
Assim, há algumas semanas, aqui no mosteiro, nós começamos a cantar todos os dias, após o ofício de Noa, a antífona Da pacem Dómine. Eis o seu texto:
Da pacem, Dómine, in diebus nostris. Quia non est alius qui pugnet pro nobis nisi tu diebus nostris – Dai paz, Senhor, aos nossos dias, pois não há ninguém que lute por nós, exceto Tu, nosso Deus.
Podemos perceber que esta antífona está baseada em três textos bíblicos:
o II Reis 20,19 – “Ezequias disse a Isaías: ‘A palavra do Senhor que anunciaste é boa’. E disse: ‘Não haverá paz e segurança em meus dias?’”
o II Crônicas 20;12.15 – “’Nosso Deus, não julgarás contra eles? Porque não temos força diante dessa grande multidão que vem contra nós. Nós são sabemos o que fazer. Nossos olhos estão voltados para ti’. Ele [Jaziel] disse: ‘Prestai atenção, todo Judá habitantes de Jerusalém e o rei Josafá! Assim vos fala o Senhor: ‘Não temais nem vos acovardeis diante dessa grande multidão, porque o combate não é vosso, mas de Deus!’”
o Salmo 122,6 – “Rogai que viva em paz Jerusalém, e em segurança os que te amam!”
Afirma-se que esta antífona tem sua origem por volta do século VI ou VII, e que o Papa Nicolau III teria ordenado, em 1279, que ela fosse cantada em todas as celebrações eucarísticas, antes do Agnus Dei. Nós encontramos esta antífona em vários breviários (o breviário é o livro que organiza e traz as orações para as diversas horas canônicas). Ela também estava presente num antigo livro chamado Raccolta (é a palavra coleção em italiano), do século XIX, que era uma coletânea de orações católicas e publicado na Itália. Era uma oração a ser rezada em tempos de calamidade, pedindo a Deus a paz. E à época a Igreja concedia indulgência àqueles que a rezavam.
Para compreendermos melhor a Da pacem Dómine, vamos voltar às fontes bíblicas desta peça.
A primeira, como vimos, é II Reis 20,19. Ezequias foi rei de Judá (por volta de 729 e 716/715 a.C.) e um monarca cujo coração agradou ao Senhor. Mesmo tendo passado por uma grande ameaça por parte do Império Assírio e diversas cidades do reino de Judá serem tomadas, Jerusalém não foi invadida por Senaquerib. Ezequias confiou na palavra do Senhor e testemunhou Sua força. O profeta Isaías afirma ao rei que ele terá dias tranquilos, ou seja, no seu tempo haverá paz e segurança, ainda que no futuro Deus não deixará de julgar o Reino de Judá por terem abandonado a Aliança – o que ocorre em 587 a.C., quando uma parte da população judaica é levada para o exílio na Babilônia.
A segunda fonte é o texto de II Crônicas 20;12.15, quando Josafá, rei de Judá (de 870 a 849 a.C.), apresentado pela Sagrada Escritura como um monarca piedoso, enfrenta uma coalisão formada por moabitas, edomitas e meunitas (é provável que este último grupo venha do sul do Negueb). Então o rei proclama um jejum nacional e todo o povo se reúne no Templo de Jerusalém para clamar o auxílio do Senhor. E o Espírito do Senhor inspira o levita Jaziel, que diz ao povo para não terem medo nem se abaterem diante do numeroso exército que se aproximava, pois aquela batalha pertencia a Deus mesmo. O próprio rei reconhece a indigência, a fraqueza, a fragilidade sua, de seu povo, de seu reino, e reafirma que todos esperam a salvação das mãos do Senhor, pois é para ele que todos olham. Era também assim que rezava o salmista em sua aflição: “Meus olhos estão sempre em Iahweh, pois ele tira os meus pés da rede” (Sl 25,15); e em outro lugar: “Como os olhos dos escravos estão fitos nas mãos do seu senhor, como os olhos das escravas estão fitos nas mãos de sua senhora, assim os nossos olhos, no Senhor, até de nós ter piedade (Sl 122,2). Era dessa forma que o israelita expressava a consciência de que do Deus de Israel é que viria a salvação. Ademais, o texto do cronista recorda uma compreensão teológica fundamental presente no livro do Êxodo, durante a fuga dos israelitas ao sair do Egito. Naquela ocasião, “Moisés disse ao povo: ‘Não temais Posicionai-vos! E vede a salvação do Senhor, que este hoje promoverá para vós! Porque os egípcios, que hoje vedes, jamais tornareis a vê-los. O Senhor combaterá por vós, e vós emudecereis’” (Ex 14,14-15). É justamente quando o povo de Israel atravessa o Mar Vermelho a pé enxuto, e no mesmo lugar afoga-se o exército do Egito, que Ele se mostra com um Deus guerreiro, que luta em favor de seu povo, exercendo seu poder sobre a natureza e sobre os povos. Ele pode, inclusive, se voltar contra o seu próprio povo e mover o coração do inimigo para que venha e combata contra Israel por esse ter dado as costas à Aliança – é o momento do julgamento.
A terceira fonte bíblica é o Salmo 122, em que o salmista pede a paz para Jerusalém, pois é nela que se encontra o Templo do Senhor, a casa do Deus de Israel. Recordemo-nos que é muito comum associarmos, por causa do som, o nome da cidade (Jerusalém – Ieroushalaîms) a shalom (paz). Aliás, se escutássemos o salmo 122 ser rezado em hebraico poderíamos reconhecer como o som das sílabas que formam a palavra shalom aparece em outras palavras do salmo. [1]Poderíamos dizer que a palavra paz é um dos alicerces desta construção poética, e isso tem um importante significado para nós.
Voltemo-nos agora para a liturgia, para o coração orante da Igreja. É interessante perceber que em nossas Celebrações Eucarísticas, em pelo menos dois momentos distintos o sacerdote pede ao Senhor Deus a paz para o nosso tempo, os nossos dias: durante a Oração Eucarística e durante o Rito da Comunhão (o qual se inicia com a oração do Pai-Nosso).
Ao rezar a I Oração Eucarística, o Cânon Romano, ainda num momento anterior à consagração do pão e do vinho, o celebrante principal pedirá num primeiro instante a paz para a comunidade cristã, e depois para todos os homens. Nesta segunda ocasião ele reza:
Aceitai, ó Pai, com bondade, a oblação dos vossos servos e de toda a vossa família; dai-nos sempre a vossa paz, livrai-nos da condenação eterna e acolhei-nos entre os vossos eleitos. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Segundo J. A. Jungmann, foi São Gregório Magno quem decretou que esta oração, tal como a temos hoje, fosse rezada em todas as missas.[2] E o mesmo autor observa: “A paz que Deus dá abrange também, mas não só, a paz entre os povos. A constante ameaça pelos longobardos pode ser sido motivo para enfatizar essa intenção que, afinal de contas, é atual em todos os tempos”.[3]
Mas voltemos agora para o segundo momento, o do Rito da Comunhão. De acordo com A. J. Julgmann, algumas comunidades cristãs orientavam os fiéis a rezarem o Pai-Nosso em posição de prostração. E isso pode ter contribuído para que, associadas à postura, fossem inseridas durante a Idade Média orações de tribulação – ou seja, voltadas para os desafios que as comunidades estavam enfrentando (podemos pensar nas guerras, pestes, secas e excesso de chuvas, etc). De acordo com nosso autor, na Abadia de Farfa, na Itália, no século XI, passou-se a rezar em prostração o Salmo 73; os monges cistercienses, no século XII, passaram a rezar o Salmo 78, fazendo intercessões pela Terra Santa; algo parecido se dá no século XIII com os frades dominicanos. Depois o Papa João XXII decreta que o Salmo 122 e outras orações deviam fazer parte da Missa – o que seria uma ampliação de algo já prescrito pelo Papa Nicolau III.[4] Daí se afirma que a antífona Da pacem Dómine chegou a fazer parte do Rito de Comunhão.
Segundo A. J. Jungmann, quando houve uma reforma no Missal, no século XVI, todas essas orações que haviam sido acrescentadas neste momento da Celebração foram retiradas, ainda que em alguns lugares o costume tenha continuado pelo menos até o início do século XVIII.
Agora podemos compreender melhor como, em nossas Celebrações Eucarísticas, a oração hoje rezada pelo sacerdote logo depois do Pai-Nosso é, a um só tempo, síntese e expressão de uma longa tradição cristã. Ela manifesta a plena confiança que tantos cristãos e cristãs tiveram na graça e bondade divinas, sabendo que suas vidas estavam, pela união ao sacrifício de Cristo Senhor, nas mãos de Deus. E nós assim cremos. É d’Ele que nos vem toda proteção e toda paz, até que cheguemos à plenitude da vida em Seu Reino. Leiamos atentamente:
“Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados pela vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto aguardamos a feliz esperança e a vinda do nosso Salvador, Jesus Cristo”.
Assim, a antífona Da pacem Dómine é uma oração de intercessão por cada um de nós e pelo mundo. Ao rezâ-la logo após o ofício de Noa, que é a hora canônica das 15 horas, e por isso fazendo memória da morte do Senhor em sua cruz, pedimos ao Senhor que manifeste mais uma vez seu Amor ao mundo, dando-nos sua paz.
Encerremos nossa reflexão escutando atentamente as palavras de São Paulo ao cristãos de Éfeso:
“De fato, ele é a nossa paz, formando de ambos os povos um só. Tendo derrubado o muro de separação, a inimizade na carne dele, aboliu a Lei dos mandamentos em decretos, para, do dois, formar em si mesmo um novo homem, estabelecendo a paz, e para reconciliar ambos, em um só corpo, com Deus por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade” (Ef 2,14-16).
Da pacem Dómine
