ADAPTAÇÃO DO GREGORIANO AO PORTUGUÊS NO MOSTEIRO NOSSA SENHORA DA PAZ

ADAPTAÇÃO DO GREGORIANO AO PORTUGUÊS

NO MOSTEIRO NOSSA SENHORA DA PAZ

 

No dia 4 de dezembro de 2025 aconteceu a III Maratona Sacrosanctum Concilium. Foram 12 horas (das 8h às 20h) ininterruptas de programação: conferências, debates, mesas redondas... O tema foi “Tesouro de Inestimável Valor (SC 112): a Sacrosanctum Concilium e a Música Litúrgica”, ou seja, o dia todo em torno do Capítulo VI da Constituição conciliar, intitulado “De Musica”. A oitava mesa intitulada “Expressão delicada da oração” (SC 112) foi composta por um grupo de dois monges e duas Abadessas, que trataram basicamente do equilibrado processo de uso do repertório tradicional gregoriano e de melodias modernas compostas para a liturgia e dos livros litúrgicos musicados que formam as “bibliotecas litúrgico-musicais das comunidades monásticas no Brasil. A Abadessa do Mosteiro de Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra, Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, partilhou sobre o processo de adaptação do Gregoriano para o português no seu Mosteiro, fundado a praticamente 10 anos depois da promulgação da Sacrosanctum Concilium. Segue o seu texto.

 

Para iniciar o nosso tema, será preciso voltarmos à década de 70 e aos inícios dos planos de “aggiornamento” de nosso Mosteiro, fundado em 1974. Na “Síntese de princípios sobre a vida beneditina”, aprovada pelo Congresso dos Abades da Confederação, em 1967, ao se tratar do pluralismo em nossa Ordem, lê-se o seguinte:

 

“...a história do monaquismo beneditino mostra-nos claramente que uma série de fatos importantes contribuiu para que a vida monástica se revestisse de formas novas... Entre outras, salienta-se a interpretação que alguns monges, movidos por um dom carismático, deram da Regra, a fim de adaptá-la às necessidades e à espiritualidade de seu tempo”.

 

A história da Ordem, portanto, registra numerosos casos de “aggiornamento”, no correr dos séculos, demonstrando que o carisma de São Bento conserva-se vivo na Regra.

Na década de 70, é a própria Igreja que a isso nos convidou. O Decreto “Perfectae Caritatis” assinala que tal “aggiornamento” compreende, simultaneamente “um contínuo retorno às fontes de toda vida cristã e à inspiração primitiva e original dos Institutos e adaptação dos mesmos às novas condições dos tempos” (PC 2).

No campo da doutrina espiritual nossas fundadoras visavam a vivência da espiritualidade bíblico-litúrgica dos primeiros séculos da Igreja, vendo assim que daríamos a Igreja o que ela esperava de nós (Veja-se também o discurso de Paulo VI em Monte Cassino, 1964).

Isso significava o desejo de fazer de nosso Mosteiro o que os Mosteiros foram para o Povo de Deus, nos primeiros tempos do monaquismo: ESCOLAS DE ORAÇÃO. Para atingir tal objetivo, vários problemas se apresentavam, tanto no campo da oração comunitária como no da oração secreta.

Quanto à oração comunitária:

 

1 - a reestruturação das Horas do Ofício divino;

2 - a adoção do vernáculo;

3 - a adoção de pausas de silêncio durante a recitação;

4 - a simplificação e atualização do cerimonial;

5 - com as antigas melodias gregorianas, a adoção de outras melodias gregorianas simplificadas, na Liturgia das Horas e na Eucaristia, com sua eventual adaptação ao vernáculo;

6 - a adoção de novas formas de recitação: recitação feita por um solista; recitação em forma litânica, etc;

7 - a adaptação da clausura, de modo a permitir que os fiéis nos vejam, aprenda, conosco a “cantar os salmos na Casa do Senhor” e se unam ao nosso louvor;

8 - consequentemente, a localização do coro no conjunto arquitetônico da igreja deveria possibilitar tais objetivos.

 

Então nesse tempo que antecedeu a nossa fundação, de 1972 a 1974, nossas fundadoras, ainda na Abadia de Santa Maria, se reuniam para juntas trabalharem nos vários temas necessários. Para a adaptação das Missas gregorianas, entenda-se “cantadas em gregoriano”, para o português pegando a linha melódica gregoriana, ficou responsável a nossa monja fundadora, Ir. Sílvia da Cunha Andrade, musicista, muito dotada para esse fim.  Mas o trabalho maior da adaptação do português ao gregoriano ainda estava para ser realizado...

Nossa Ir. Lúcia Pereira Villela, que foi professa temporária do Mosteiro de N. Sra. das Graças (BH), antes de chegar ao nosso Mosteiro, muito dotada para música e amante do canto gregoriano, visitou alguns Mosteiros na Europa e um deles foi a Abadia de Kellenried (Sul da Alemanha), um Mosteiro muito querido e visitado por D. Abade Martinho Michler, e as monjas de lá tinham feito um trabalho de adaptação do gregoriano ao alemão. Era o ano de 1972.

Ir. Lúcia quando entrou em nosso Mosteiro, em 1974, trouxe essa edição do Saltério alemão. D. Abade Martinho ajudava nas traduções e na comunicação com a Abadia de Kellenried e Ir. Timótea Kronschnabl, OSB, das Irmãs de Tutzing muito nos ajudou, também.

A partir de 1975 Ir. Lúcia começou a fazer as primeiras adaptações dos tons salmódicos gregorianos respeitando os acentos da língua portuguesa, sobretudo o que era previsto para as oxítonas. Iniciava-se, assim, para o grupo fundador, uma nova e exigente etapa, com muitos ensaios para cantarem os Salmos, mantendo os acentos das palavras, tal como falamos. O resultado foi magnífico!

Depois surgiram novas composições de responsos breves; antífonas de solenidades, Te Deum, Lauda Sion, etc.

Aprofundava-se o estudo das diversas famílias dos Salmos, os gêneros literários; as formas de salmodia do Saltério alemão (a salmodia responsorial, antifônica e direta). Alternância, então, de Solistas, Coro e Todas, com alguns versículos musicados dado a sua importância naquele Salmo.

A salmodia responsorial é a mais antiga na Igreja. Vem da sinagoga. Por exemplo o Sl 135: o 2º hemistíquio é a Resposta do povo: “porque eterno é seu amor” (tom 3 a).

 

“Demos graças ao Senhor, porque Ele é bom:

Porque eterno é seu amor

Ele criou o firmamento com saber,

Porque eterno é seu amor”.

 

Uma de nossas monjas fundadoras, muito estudiosa, Ir. Mônica Castanheira, costumava dizer que o Saltério é uma Liturgia completa da Palavra: louvor de Deus, anúncio da Escritura, oração ou: Palavra de Deus que se dirige a nós (anúncio) e a nossa que se dirige a Ele ou o celebra (oração e hino).

O saltério age de dois modos sobre nós: como Palavra que nos vem de Deus e como palavra que lhe dirigimos. Como nos ensina Nosso Pai São Bento na Regra, que “tal seja a nossa presença na salmodia, que nossa mente concorde com nossa voz” (RB 19,7),” para que em tudo seja Deus glorificado” (RB 57,9).

Outra característica de nossa comunidade desde o início da fundação é ter todo o Ofício divino cantado, desde Vigílias até Completas. E isso é tão forte para nós, que nem durante a pandemia nós deixamos de cantar o Ofício divino. Essa é a nossa partilha ao tema apresentado. Muito obrigada.

 

Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,osb.

Abadessa

Itapecerica da Serra, 4 de dezembro de 2025

III Maratona Sacrosanctum Concilium (Às 15h)

 

 
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