A SACRAMENTALIDADE CORPORAL E A PRÁXIS LITÚRGICA

A SACRAMENTALIDADE CORPORAL E A PRÁXIS LITÚRGICA

 

Pe. Davi Maria Santos, O.Carm

 

Introdução

         A Liturgia da Igreja é ao mesmo tempo escola de formação humano/espiritual e caminho de santidade/maturidade. Nela, a comunidade sacerdotal, profética e régia é guiada pelo próprio Espírito Santo que nos revela e relembra os feitos de Jesus Cristo e nos aponta os seus sinais em nossa existência. Assim sendo, a Liturgia plasma e forma o ser eclesial a partir da celebração de Páscoa. Neste viés, a Ação Sagrada da Igreja, que é a Liturgia, constitui-se como itinerário de transformação que todos somos chamados a percorrer, mudando muitas vezes de uma mentalidade e forma de agir egoísta e ensimesmada para uma mentalidade e atos eclesiais, isto é, passamos a agir como Jesus Cristo pelo Espírito. Por isso é que a Liturgia não se restringe apenas à vida espiritual, como alguns podem assim pensar, mas toca os acontecimentos e situações mais corriqueiros do nosso dia a dia, da vida comum.

         A vida sacramental da Igreja é o meio propício para se viver a práxis corpórea da litúrgica, ou seja, perceber que o corpo humano é dom de Deus e, assim sendo, é ele destinado ao amor de seu Criador. É em nossa corporeidade/humanidade que somos chamados, como peregrinos da esperança, a aguardarmos em trabalho frutuoso a salvação que Jesus Cristo nos comunicou em sua morte de cruz e ressurreição.

Falar de corporeidade como algo sagrado na Liturgia é, ainda, recordar e vivenciar que a Igreja é corpo místico do Senhor, como também a participação litúrgica, tão desejada pelo Movimento Litúrgico e abraçada pelo Concílio Vaticano II, é meio de se celebrar melhor as ações de Jesus Cristo, que passam pela corporeidade dos batizados. A sacramentalidade do corpo na Liturgia nos aponta que Deus Pai nos criou para a vida em plenitude.

Por isso devemos compreender sempre que o corpo humano é habitação do sagrado e, como tal, merece e necessita ser tratado com dignidade, respeito e amor, pois fomos criados com amor e por amor. Na celebração dos sacramentos, a corporeidade e gestualidade humana é abraçada como um meio de expressar a fé naquilo que se celebra. Nenhum sacramento acontece no abstrato, no nada, mas antes, todos os sete sacramentos estão profundamente imbuídos da corporeidade humana. Neste viés, a Liturgia procura nos educar e formar para melhor celebrar e viver o Mistério que nos abraça e que passa por nossos gestos e corpos, haja vista também que o Verbo de Deus se fez gesto.

 

1-  O corpo humano: locus residentiae do sagrado

No desenvolvimento histórico da humanidade, o homem sempre procurou lugares onde pudesse se encontrar consigo mesmo e conectar-se com o sagrado. Tal procura é sobretudo a busca e o desejo pelo absoluto, pelo transcendente ou até mesmo pela beleza. Esse caminho de busca leva o homem a mergulhar em si mesmo, e perceber que ele, em sua corporeidade, é um locus residentiae do sagrado. Quando alguém consegue abrir-se a feliz experiência de que é lugar sagrado e habitação deste, tudo ao seu redor (re)-descobre um significado diferente, talvez seja essa descoberta a maior, ou uma das maiores, descobertas da vida humana.

O corpo humano, como um lugar e habitação do sagrado, aparece na teologia como um meio de manifestação de Deus. Deus cria o corpo humano e o faz segundo sua imagem e semelhança, assim nos relata a narrativa teológico/poética do livro de Gênesis. Deus não apenas cria o ser humano – homem e mulher – como se compraz e se deleita em sua criação, isso acontece porque sendo Deus amor, com amor Ele cria sua criatura. Por sermos criados por Deus, é que somos um lugar e consequentemente habitação do sagrado, locus residentiae, isto é, no mais profundo do ser de cada pessoa está presente e pulsante um desejo pelo absoluto, por Deus. Desejo este que estar presente em todas as criaturas, por isso nosso “abismo” finito, clama e deseja o “abismo” infinito de Deus, tal como nos relembra o salmista (cf. Sl 42, 7).

Nos Mistérios de Jesus Cristo, da Encarnação à Páscoa, encontramos o corpo humano como um lugar sagrado onde Deus habita. Na Encarnação, o corpo humano é tomado por Jesus Cristo, que se Encarna no seio da Virgem Maria, desta forma, a humanidade já começa a ser redimida, visto que nossa carne é totalmente assumida pelo Filho de Deus que nos salva. Na Ressurreição, essa carne é plenificada, pois ressurge gloriosa, nos apontando assim a vida divina que teremos junto à Trindade.

Neste viés, o dominicano Schillebeeckx, focando sua atenção na reflexão sobre o corpo afirma que, para se haver encarnação da vida divina em nossa humanidade, esta, deve necessariamente passar sim pela nossa corporeidade. Por isso, o Homem Jesus Cristo é manifestação plena e visível da graça do Pai, assim sendo, o encontro humano com Jesus Cristo torna-se o sacramento, ou seja, o sinal visível do encontro com Deus. Ele, Jesus Cristo, é o sacramento por excelência, o sacramento original, pois, em sua corporeidade e humanidade, nós encontramos o único acesso à realidade salvífica (cf. 1968, p. 24). 

Para os Padres da Igreja só pode ser redimido o que antes é assumido. Tal máxima de nossos pais é contemplada e realizada de modo perfeito e pleno em Jesus Cristo. É Ele quem assume nossa carne e, por conseguinte, toda a nossa humanidade como suas fragilidades e misérias. Assim, a Encarnação e Ressurreição do Senhor é a recriação da humanidade, nestes Mistérios, contemplamos a vida divina a que somos destinados, desde que estejamos em Cristo Jesus.

A Igreja assume para si a forma espiritual de um corpo. Jesus Cristo, o sumo e eterno Sacerdote, é a cabeça desse corpo e nós, pelo batismo, somos nele inseridos como membros. Assim como no corpo cada membro é diferente e possui uma função específica, também na Igreja existem muitos membros, cada um com dons e vocação diferentes que se completam mutuamente.

São Paulo, em sua carta aos Coríntios, recorda a sacralidade do corpo e chama a atenção da comunidade para que vivam de maneira digna, diz ele: “não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 3, 16). E na mesma carta: 

O corpo, porém, não é para prostituição, ele é para o Senhor, e o Senhor é para o corpo; [...]. Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus?... e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate; glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo (1 Cor 6, 19-20).

Na carta aos Romanos, o apóstolo dos gentios fala novamente do corpo, quando afirma: “pois assim como num só corpo temos muitos membros, e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros” (12, 4-5). Essas e outras passagens da Sagrada Escritura nos afirmam como o corpo humano é sagrado e é habitação do divino em nós. No Antigo Testamento, o corpo passa por uma série de “restrições” que, quando descontextualizadas, não podem ser compreendidas devidamente, mas que, muitas delas revelam em suas entrelinhas a sacramentalidade corporal. Já no Novo Testamento, encontramos também algumas chamadas de atenção e estas nos revelam o que já sabemos, ou seja, que o corpo é lugar sagrado, por isso, devemos viver dignamente como pessoas conscientes de que a Trindade nos habita.

 

2-  Expressões de fé: o corpo nos sacramentos

O Concílio Vaticano II afirma que a Liturgia é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo em seu corpo, ou seja, na Igreja (cf. SC 7). Desta maneira nos fica claro que a Liturgia é ação de Jesus Cristo por primeiro, mas também nossa, pois a comunidade, que é corpo místico, ouve o chamado e responde ao seu Senhor. Por ser a Liturgia uma ação de Cristo Jesus e nossa, é que ela necessita de um corpo não apenas espiritual, como físico, para realizar a união do Mistério com aqueles que o celebram, do contrário não teremos a Liturgia. 

Percebemos assim que a corporeidade litúrgica na celebração dos sacramentos é indispensável para a celebração e vivência do Mistério. Com matéria e fórmula próprias que os diferenciam uns dos outros, contudo, em todos os sacramentos o corpo se faz presente e, se não existe sacramento sem matéria e fórmula, não o temos sem a presença do corpo humano.

A simbologia na Liturgia é muito ampla. O próprio rito é composto por vários símbolos que se interligam e comunicam a graça àqueles que celebram. Os ritos nos educam e nos formam para as realidades celestes, ou seja, para a vida em Deus, ao passo que nos libertam de tudo aquilo que pode ser empecilho para a ação divina em nossa humanidade, entretanto, faz-se necessário o sim de cada um dos que celebram. O rito de cada um dos sete sacramentos com orações, fórmulas, rubricas e sinais próprios nos educam o olhar espiritual, humano e psicológico, pois, “onde o olhar em Deus não é decisivo, todo o resto perde sua orientação” (Ratzinger, 2019, p. 13). Assim, o corpo na ritualidade e práxis litúrgica se torna uma realidade mistagógica sacramental.

Por mistagogia, compreendemos a definição dos Padres gregos que afirmavam que ela é a arte de conduzir ao encontro, neste sentido, o corpo humano torna-se também espaço por onde vamos ao Mistério e somos por ele alcançados.

Enfatizar a corporeidade, que se torna via de encontro com Deus em cada sacramento, manifesta para cada um daqueles que celebram a Liturgia que os sacramentos são importantes pelo fato de que eles prolongam e presentificam a divina presença do Ressuscitado em nossas vidas. Contudo, essa mesma presença se “rebaixa” ao nosso tamanho para nos alcançar em nossa corporeidade e nos plenificar. Por isso mesmo, nenhum sacramento é algo passivo, isolado, egocêntrico, mas, antes de tudo, é ativo, eficaz e, poderíamos até dizer numa linguagem poética, que é inquieto também, haja vista que todo sacramento é sempre a graça do Pai que no Filho Jesus se comunica conosco.

Os três sacramentos de iniciação à vida eclesial e caminhada de fé: Batismo, Confirmação e Eucaristia, necessitam da presença física para serem celebrados. No Batismo somos assinalados na cabeça e no peito, como também no corpo inteiro, já que o Batismo é um banho/mergulho nas águas santificadas pelo Cristo, Senhor. Assim, o corpo, nas palavras prescritas no rito é condição sine qua non, para o banho divino, isto é, o renascimento nas águas batismais. A Confirmação e a Eucaristia necessitam igualmente de um corpo. Se na Confirmação a fronte é assinalada, marcada com o óleo santo, na Eucaristia o corpo humano é chamado a receber em si o Corpo Santo e vivo de Jesus Cristo. Assim, afirma Odo Casel,

Batismo, Confirmação e Eucaristia como alimento, significam a incorporação plena do homem ao Corpo de Cristo. O Batismo purifica do pecado pela imersão no sangue e na morte do Cristo crucificado. A Confirmação nos comunica o sopro da vida nova, o Espírito Santo. A Comunhão eucarística fortifica e mantém essa vida e unifica os membros entre si no Corpo místico (2009, p. 39).

Os sacramentos de serviço se encontram na mesma linha dos de iniciação, no que diz respeito a necessidade de um corpo. O Matrimônio só pode acontecer com a presença e a liberdade de dois corpos que dizem sim e que se dão um ao outro numa total entrega diária de amor. Já na Ordenação, seja episcopal, presbiteral e/ou diaconal, o corpo recebe a imposição de mãos e sobre ele é pedido na prece de Ordenação que venha o Espírito Santo para realizar o que a Igreja está necessitando. Uma outra característica deste sacramento são as vestes próprias de cada grau sacramental, apontando assim para a dignidade/diaconia e práxis que o corpo possui na Ação Sagrada e por conseguinte na Igreja.

Os sacramentos de cura: Penitência e Unção em sua celebração “usam” do corpo humano para marcarem com a graça de Deus aqueles que o celebram. Na Unção isso se torna claro porque o corpo é assinalado com o óleo dos enfermos para a cura espiritual ou física como acontece muitas vezes. Já no sacramento da Penitência a corporeidade litúrgica se manifesta de maneira mais espiritual do que fisicamente. A corporeidade deste sacramento é uma contrição interior que é externalizada no desejo sincero de mudança de atitude. 

A práxis corpórea na/da Liturgia nos “abre” o coração e forma a mente “para viver a ação litúrgica e vivenciar a surpresa com o Mistério”, afirma-nos o franciscano conventual frei Luis Felipe, (Marques, 2023, p. 11), que se revela em cada sacramento e em toda a vida litúrgica da Igreja, isso pelo fato de que “por meio dos ritos e das orações é que se realiza a eficácia simbólico-ritual da ação litúrgica. Os sacramentos têm a sua origem na Páscoa de Cristo” (Cordeiro, 2014, p. 48). Assim sendo, o corpo assume um lugar importante na ritualidade atuante da Liturgia porque se destina a receber a graça vivificante, transformante e salvadora que cada sacramento comporta e revela. 

A Liturgia testemunha a perfeita harmonia entre ritualidade e corporeidade em sua atuação e alarga-nos o olhar para contemplar como Deus vem ao nosso encontro no rito e como nós devemos procurá-lo e encontrá-lo em nossa corporeidade. Rito e corpo testemunham a união de Deus com sua criatura, tornando o corpo humano como uma realidade sacramental, visto que, “o rito, como arte, enleva a pessoa e a coloca na profunda e delicada comunicação com as realidades que estão para além dos símbolos” (Costa, 2005, p. 64).

A práxis da ritualidade litúrgica não é algo morto e sem vida, como pensam e insistem em viver alguns, antes, é algo que nasce da ação do Espírito Santo na vida da Igreja, por isso é capaz de comunicar a graça que provém de Deus, assim, deve haver uma ação unitiva de ambos, do rito celebrado e do corpo que celebra, visto que a Liturgia é Opus Dei e opus homini, ou seja, obra de Deus e do homem. É justamente essa união e encontro: Deus e homem, homem e Deus, que chamamos de práxis litúrgica, ou seja, atuação, movimento sagrado. 

 

3-  Educados pela Liturgia e para a Liturgia

Humanamente falando, o ato de educar nem sempre é uma atividade fácil, visto que além de exigente é demorada, pois necessita de tempo para sua maturação. A educação é uma via segura, contudo, necessita da liberdade pessoal de cada um. Educação e obrigatoriedade não caminham unidas. Enquanto o ato de educar passa necessariamente pela formação da consciência e pela liberdade humana, a obrigatoriedade trabalha com medo e com o autoritarismo. Na Liturgia, a obrigatoriedade não produz frutos, ao contrário. Por isso, a educação litúrgica nos ajuda a melhor celebrar e viver o que celebramos.

Talvez hoje, mais do nunca, necessitemos uma reeducação litúrgica que nos ajude a celebrar bem para sermos bons discípulos de Jesus Cristo e a Liturgia é o primeiro lugar onde somos formados e educados no seguimento ao Ressuscitado. É de máxima urgência que formemos pela Liturgia como ação de Jesus Cristo e para a Liturgia como locus theologicus, ou seja, lugar de encontro com Deus, para assim, “redescobrir, custodiar e viver a verdade e a força da celebração cristã” (Desiderio Desideravi, n. 16). Sobre a necessidade de uma (re)-educação litúrgica, o Magistério eclesial tem sempre se debruçado e chamado a atenção, em especial o papa Franscisco por meio da Exortação Apostólica Desiderio Desideravi, que na verdade é um grande poema de formação litúrgica, por assim dizer. 

A educação litúrgica que necessitamos em nossos dias talvez seja aquela que nos ajude a descobrir a força transformadora da Liturgia a partir de dentro, ou seja, de sua práxis pneumatológica, do interior do espírito, agindo desta forma descobriremos ainda mais e melhor o valor de cada rubrica como algo que embora seja exterior aponta para dentro, para o coração, por isso, para o papa Bento XVI,

A autêntica educação litúrgica não pode consistir na aprendizagem e no exercício de atividade exteriores, mas na introdução àquela actio essencial que constitui a Liturgia, na potência transformadora de Deus que, através do evento litúrgico, quer transformar nós mesmos e o mundo (Ratzinger, 2019, p. 148).  

Introduzir a comunidade que celebra na actio (ação) essencial não é outra coisa que formar no verdadeiro discipulado que nasce unicamente da ação de Deus. Entretanto, para se descobrir essa actio divina que move a Liturgia é necessário deixá-la falar. A Liturgia é uma ação comunicativa, seja por meio dos sinais, símbolos, ritos, rubricas e principalmente do Mistério. Ela nos comunica e nos introduz em Jesus Cristo, contudo, sem ouvir o que a Liturgia nos fala não é possível ser educados por ela e, para tal, é necessário que procuremos o silêncio exterior e interior dentro de nossos corações e mentes e nas nossas igrejas. Não esqueçamos que o silêncio é o “porteiro” na prática atuante da vida espiritual.

Pela educação litúrgica podemos ainda redescobrir o real valor do corpo na Liturgia. Deste modo até mesmo a modéstia acaba obtendo um significado diferente que ultrapassa uma concepção apenas exterior que se reveste de interioridade e toca na verdadeira essência da corporeidade e práxis litúrgica, que é a de se ter sempre na mente e no coração que nosso corpo é morada do Espírito e que formamos um só corpo, o corpo místico de Jesus Cristo que é a Igreja.

Uma outra característica desta educação é a formação consciente de que se Liturgia e vida nunca se separam, o modo de agir moral de quem participa da Ação Sagrada, da Liturgia, deve ser o mesmo d’Aquele que é o centro e razão da celebração: Jesus Cristo. Isso acontece pelo fato de que, “a Liturgia constitui [...] uma fonte viva para a espiritualidade cristã” (Cordeiro, 2014, p. 89) e é por excelência, segundo Jesus Castellano, OCD, 

O momento fontal e culminante da vida espiritual, mas seria puro ritualismo se não fosse vivida com as exigências intrínsecas da vida teologal e não tivesse uma influência concreta na vida: o culto transformar-se-ia em algo abstrato se não levasse para Deus os anseios e as preocupações de uma existência concreta, vivida no dia a dia (2019, p. 54). 

         Compreender a educação litúrgica e deixar que ela frutifique em nossas comunidades é um desafio e um itinerário, mas, com paciência e dedicação podemos colher bons frutos. Contudo, se faz necessário que sempre tenhamos em mente que educar para e pela Liturgia é um caminho cristológico, sem esse desejo: formar para Cristo Jesus, não faz sentido educar para a Liturgia visto que ela é uma ação do Ressuscitado. 

 

Conclusão 

         Para que possamos compreender melhor o real valor da sacralidade do corpo na Liturgia é preciso que entendamos que a Igreja é o corpo místico do Senhor. Cristo Jesus é a cabeça deste corpo e separados d’Ele nenhum dos membros possui a vida que brota da Trindade.

         O desprezo desmedido pelo corpo que se reveste de características de modéstia e pudor podem ser sinais claros de uma não compreensão da fé e de uma “esquizofrenia” eclesial. É evidente que é justo guardarmos a devida modéstia, ainda mais em nossos dias de tanto exibicionismo corporal, contudo, a verdadeira modéstia que tanto necessitamos em nossos dias é antes a do coração e da mente. 

Neste sentido, a Liturgia educa-nos no caminho do discipulado de Jesus Cristo, pois sendo uma ação d’Ele, aqueles que a celebram devem necessariamente possuir as mesmas ações. Experienciar a sacralidade do corpo na Liturgia é se permitir ser tocado pela Páscoa do Filho de Deus, para ser sinal e testemunha do Ressuscitado.

         Assim sendo, se faz necessário que compreendamos que a práxis litúrgica só será real quando a realidade sacramental tocar nossa corporeidade e quando nossa corporeidade for alcançada e transformada pela graça de cada sacramento. A sacramentalidade manifesta-se, por conseguinte, como um espaço cristológico de encontro transformante e nossa corporeidade é um campo fértil, autêntico locus theologicus, onde se realiza do encontro de Deus com o homem.

  

Referências

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

CASEL, Dom Odo, OSB. O mistério do culto no cristianismo. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

CORDEIRO, Dom José Manuel. Corações ao Alto. Introdução à Liturgia da Igreja. Lisboa: Paulus, 2014.

COSTA, Valeriano Santos. Viver a Ritualidade Litúrgica como Momento Histórico da Salvação. Participação Litúrgica segundo a Sacrosanctum Concilium. São Paulo: Paulinas, 2005.

FRANCISCO. Carta Apostólica Desiderio Desideravi. São Paulo: Paulinas, 2022.

MARQUES, Frei Luis C. A Mistagogia da Missa. Nos Ritos e nas Preces. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.

RATZINGER, Joseph. Teologia da Liturgia: O Fundamento Sacramental da Existência Cristã. Brasília: Edições CNBB, 2019.

SC – Constituição Dogmática SACROSANCTUM CONCILIUM - IN: Enquirídio dos Documentos da Reforma Litúrgica. Org: José de Leão Cordeiro. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2014.

SCHILLEBEECKX, Eduard. Cristo, Sacramento del Encuentro con Dios. Ediciones Dinor, S. L. San Sebastián, 1968.

 
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