A PRESENÇA MISTAGÓGICA DA VIRGEM MARIA NA LITURGIA
Frei Davi Maria Santos, O.Carm[1]
“Esteja em cada um vós a alma de Maria, para glorificar o Senhor; esteja em cada um de vós o espírito de Maria, para se alegrar em Deus”[2]
Introdução
Na máxima ambrosiana, “para manifestar os Mistérios de Cristo”, podemos encontrar como que o fundamento para toda a mariologia e consequentemente para a reflexão da presença mistagógica da Virgem Maria na Liturgia. É a manifestação dos Mistérios do Senhor a raiz mais profunda que fundamenta a reflexão mariana. Não é possível compreender a presença de Maria se a separamos de Jesus Cristo. Talvez seja esse o motivo pelo qual algumas vezes na história da Igreja se deturpou a presença da Virgem Maria, ou seja, se separou Maria de seu Filho Jesus, impedindo assim a piedade mariana de brotar da Liturgia. Maria deve sempre ser encontrada a partir do evento salvífico, deste modo podemos perceber sua íntima união com o Filho.
O termo “mariologia” foi cunhado em 1602, na cidade de Palermo, Itália, por Plácido Nigido, em sua obra Summa Sacrae Mariologiae[3]. A metodologia usada era a dedutiva[4], procedendo a comprovação das teses por meio da Sagrada Escritura, da Tradição e conveniência teológica. Este método, acabou ganhando uma certa popularidade no século XIX, contudo, a linguagem e abordagem dos temas marianos acabou ficando escarça e não mais falando às necessidades eclesiais, não obstante os movimentos teológicos[5] do século XX que foram como que precursores do Concílio e trataram de renovar a forma de perceber a Virgem Maria e de refleti-la. Padre René Laurentin, renomado mariólogo francês, propõem a teologia mariológica a partir das etapas da história salvífica. Deste modo, Maria, nossa irmã na fé[6], é situada dentro do desenvolvimento histórico da salvação a partir da cristologia.
O Concílio Vaticano II, verdadeiro sopro do Espírito, tratou de apresentar para a Igreja dois documentos que são como duas “bússolas” para a mariologia. Lumen Gentium[7] e Marialis Cultus[8]. Estes documentos do Concílio e do Magistério de Paulo VI, trazem luzes e novo ar para a reflexão mariana, buscando pensar Maria a partir do Mistério Pascal, ou seja, da Liturgia. Infelizmente, nem sempre assim aconteceu. Algumas vezes na história eclesial, Maria foi relegada simplesmente ao devocionismo e distanciada da Ação Sagrada. Contudo, a partir do Vaticano II somos convidados a repensar a mariologia a partir da cristologia e da Liturgia, ou seja, dos Mistérios do Senhor que Maria custodiou no coração.
Tanto a cristologia como a Liturgia, nos ajudam a contemplar com alegria em Maria a imagem de nossa esperança, pois, “na Liturgia da Igreja a Mãe de Jesus, que acolheu no coração e no corpo o Verbo de Deus, aparece como modelo original de todos os crentes” (Voss, 1992, p. 110). Maria é Mulher Pascal[9] por excelência e justamente por isso, na comunidade dos batizados, ela é aquela que como mistagoga educa[10] e aponta ao Filho, como outrora o fez em Caná. Por isso, a mistagogia[11] a partir da ótica mariana, nada mais é do que perceber os acontecimentos salvíficos com o Coração de Maria, ou seja, esperançosos e exaltantes em Deus.
1- Bússolas para a Mariologia
Os antigos navegantes sabem a importância de uma bússola para seu trabalho. Esse pequeno instrumento serve de guia para a tripulação em momentos que talvez não se saiba por onde seguir. A função dela é nobre. A bússola aponta por onde se deve ir. Também nós temos necessidade de uma “bússola” que nos oriente os caminhos. Na reflexão mariológica hodierna temos duas bússolas, entre outras, que devem orientar a ciência teológica para uma melhor fundamentação que são Lumen Gentium e a Marialis Cultus.
Ambos os documentos apresentam a reflexão mariana ao mundo de hoje num tempo de mudanças. A mariologia enfrenta problemas[12], como em todos os tempos, mas que em nossos dias precisa estar bem fundamentada naquilo que diz e ensina a Igreja. Talvez hoje o grande desafio para a reflexão mariológica esteja em encontrar e apresentar sempre de maneira clara o lugar de Maria na vida cristã. Não que isso já não tenha sido feito. Os padres conciliares trabalharam e mostraram muito bem. Contudo, em tempos de tantas descobertas, até mesmo em nível teológico e de pluralidades como os nossos dias se faz preciso novamente reapresentar Maria ao mundo, tal como ela é, como os Padres da Igreja a compreenderam, como os medievais a perceberam e como o Magistério vivo a apresenta. Apenas assim, voltando às fontes, olhando a história e sendo fiéis ao ensinamento da Igreja hoje, é que poderemos encontrar um mariologia que fale ao coração homem moderno.
Os movimentos que antecederam o Concílio, foram verdadeiros sopros do Espírito que trataram de preparar a Igreja para aquele que foi o maior evento do século XX, a nível eclesial. Assim “a importância do Concílio Vaticano II não pode ser subestimada não apenas porque representa a voz oficial da Igreja, mas também porque constitui um divisor de águas na história eclesial. Também para a mariologia o Concílio foi um ponto de chegada e um de partida”, afirma Stefano De Fiores (1992, p. 24). Isso foi muito necessário para a Igreja pelo fato de que, se no período pós-Trento se acentuou a invocação devocional de Maria[13], é no Vaticano II que esse culto se torna legitimado[14], entretanto, tal legitimação nasce necessariamente da participação de Maria nos Mistérios de Jesus Cristo. Assim, Maria torna-se “nossa verdadeira irmã, que, como mulher humilde e pobre, compartilha plenamente a nossa condição” (Marialis Cultus, n. 56).
A Lumen Gentium, em seu capítulo VIII, trata de refletir a mariologia e de orientar seu pensamento a partir da Sagrada Escritura, reconhecendo as virtudes de Maria e apontando para o culto mariano, ou seja, o lugar da Virgem Maria na Liturgia[15]. Não se trata de colocar a Maria num lugar inferior ou de negar toda a herança espiritual da Igreja, mas antes, de percebê-la com a discípula-Mãe e a Mãe-discípula e a partir de então repropor a mariologia como parte da teologia. Neste sentido, a Lumen Gentium, partindo do evento histórico-salvífico confere a mariologia toda uma dimensão bíblica e cristocêntrica para sua reflexão. Alguém pode achar um tanto exagerado, contudo, é no Concílio Vaticano II e a partir dele que a mariologia adquire um caráter bem mais eclesial. Maria que é a Mãe da Igreja é também filha da Igreja, por isso, podemos até mesmo pensar numa eclesialidade mariana.
A reflexão mariana apresentada no Vaticano II ressignifica a famosa afirmação “a Jesus por Maria”. Não que esta frase tenha perdido o sentido, contudo, orientados pelo Concílio entendemos agora que “de Jesus vamos a Maria”, para com Ela aprender como ser discípulos de seu Filho. Por isso, “a partir do Mistério de Cristo descobrimos e compreendemos Maria, que por sua vez se torna um caminho eficaz para um maior conhecimento e fidelidade a Cristo” (De Fiores, 1992, p. 25). Neste sentido, também a Liturgia – presentificação do Mistério – torna-se campo fértil para melhor se compreender e viver o espírito mariano, pois, Maria é a Mulher Pascal por excelência.
A Exortação Apostólica Marialis Cultus escrita no contexto de pós Concílio e animada pelo capítulo oitavo da Lumen Gentium traz luzes que ajudem a Igreja a crescer no amor à Virgem Maria e no estudo da mariologia, visto que, “a veneração de Maria é o caminho mais seguro e curto para nos levar à intimidade com Cristo” (Ratzinger; Von Balthasar, 1995, p. 117), a partir da Liturgia, locus theologicus. Paulo VI, nesta Exortação trata circunstancialmente da forma correta de como se venerar à Santíssima Mãe de Deus, procurando caminhar por aquilo que a Igreja ensina, evitando dessa forma tudo aquilo que seja maximalismo ou minimalismo[16]. Ambas as formas de pensar não fazem bem à Igreja.
Se faz preciso lembrar ainda que, essa Exortação Apostólica, nasce num contexto de “abandono” da mariologia[17]. Tempo este que segundo Wolfgang Beinert[18] foi como uma “década sem Maria”. Isso aconteceu pelo fato de que, muitos não compreendendo verdadeiramente o espírito da eclesiologia da Lumen Gentium e demais instruções do Concílio, “relegaram à Virgem a um esplêndido isolamento ou fizeram d’Ela objeto de silêncio obsequioso. As expreções mais populares de devoção caem. Parece ter se tornado secundário, marginal e ultrapassado” (De Fiores, 1992, p. 27). Por isso, a Marialis Cultus é necessária para se compreender a mariologia eclesial do Vaticano II.
Tais crises provocadas pelo “abandono” da mariologia possuem razões diversas, entre tantas, podemos nomear um tempo de mudança cultural[19]. A mariologia que o Concílio se refere deseja resgatar na consciência do povo sacerdotal, régio e profético a pessoa de Maria que é ativa nos Evangelhos. Transformando assim suas práticas devocionais em forma de vida. Ou seja, Maria como alguém que nunca ficou na inercia ou no passivismo, mas que agiu, tal como veremos mais adiante nos Evangelhos segundo Lucas e João. Entretanto, nem tudo foi crise. No período de renovação conciliar, a mariologia avança para outros caminhos de crescente reflexão, tais como o diálogo ecumênico, a cristologia, a pneumatologia[20], a cultura e não menos importante, a Liturgia, tão pontuada na Marialis Cultus. Assim,
A exemplaridade da Virgem Santa, que emerge da celebração litúrgica, estimula os fiéis a conformarem-se com a Mãe para melhor se conformarem com o Filho. Impele-os também a celebrar os Mistérios de Cristo com os mesmos sentimentos de piedade com que a Virgem Maria participou no nascimento e na epifania, na morte e na ressurreição (Missa da Virgem Santa Maria, n. 17).
Nesse sentido, a mariologia, adquiriu um perfil ampliado e atual. Não estando mais fechado em si mesma a reflexão teológica mariana ganha espaço em outros lugares e partindo da Liturgia, Maria é apresentada como aquela que foi alcançada pela Páscoa e que agora é meio para que outros encontrem-se com o Ressuscitado. Essa Exortação Apostólica, juntamente com a Lumen Gentium é propícia para o resgate do perfil mariano da Igreja[21], perfil este que se fundamenta em Jesus Cristo.
Assim de maneira diferente dos tratados pré-conciliares, todos os documentos marianos pós-Vaticano II, não usam a Sagrada Escritura como um modo de rebater a questões destorcidas e mal interpretadas por alguns, antes, a Sagrada Escritura agora serve como base fundamental para apresentar a Virgem Maria inserida na história salvífica de Jesus Cristo. Assim sendo, a renovação mariana do Concílio leva-nos a mudar o olhar e passar de uma mera consideração de Maria na história da salvação para a história da salvação em Maria[22].
Vários teólogos apontaram a cristologia e a Liturgia como um caminho de renovação para a mariologia, com isso, se reconhece a tamanha importância que este “galho” da teologia possui para a vida cristã. Também a mariologia pode ser muito útil para a reflexão cristológica e litúrgica, visto que, Maria participa ativamente da história salvífica como a mistagoga da nova comunidade dos discípulos e sua presença na Liturgia nos apresenta em síntese[23] toda a beleza de uma vida Pascal e pascalizadora.
2- Um caminho de renovação
Animados e formados pelo espírito do Concílio Vaticano II devemos procurar atentamente uma mariologia sã que se fundamente e parta da cristologia e da Liturgia. Eis um caminho um de renovação seguro e confirmado pela Igreja. Se nossa mariologia partir desses dois “galhos” frondosos da teologia seguiremos então com uma reflexão mariana firme e autêntica, fiel ao espírito dos Padres da Igreja e aos ensinamentos do Concílio e do Magistério atual.
A respeito da renovação da mariologia logo após o Concílio, o prior geral dos Carmelitas de então, padre Kiliano Healy, O.Carm, numa carta a toda a Ordem, exorta aos frades, monjas e leigos que procurem uma renovação mariológica a partir da cristologia e da Liturgia[24], como duas vias seguras e fundamentais para a renovação conciliar. Deste modo, toda a relação afetiva para com tão cara Mãe celeste nascerá antes de tudo de sua relação materna e afetuosa com o Senhor, como sabemos que é próprio de toda mãe. Por isso, exorta padre Healy, afirmando que,
As orientações de Paulo VI, são um complemento dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, em que nos pede a contemplar a relação de Maria com Jesus que começa com a Encarnação, continua durante sua vida até a morte e ressurreição e prossegue no Céu agora e para sempre. A presença de Maria em Jesus não era meramente física, senão da mesma profunda fé, esperança e caridade pelas que ela cooperou plenamente após sua morte redentora (1970, p. 761).
Tais palavras nos ajudam a compreender que todo amor para com Maria, deve necessariamente partir primeiro de sua relação com o Senhor. Não se pode compreender a Virgem Maria separada ou a parte desta relação e cooperação no plano salvífico do Pai com seu Filho Jesus Cristo por meio de seu Fiat. É justamente a partir dessa relação e cooperação que o Concílio trata de orientar a devoção e amor para com Maria. De forma alguma isso se trata de colocá-la em último lugar, mas antes, de recuperar a mais pura e perfeita imagem de Maria que podemos encontrar testificado nas Sagradas Escrituras, pois,
Maria o contemplava, escutava suas palavras, as guardava no coração, falava com Ele e sobretudo, o amava com todo o calor humano que se pode surgir na alma e no corpo de uma mãe. Ela o amava como a uma criança e como a seu Deus. Ninguém amou a Cristo como Maria. Ninguém o seguiu tão fielmente como Ela (Healy, 1970, p. 671).
Na cristologia encontramos então perfeita união do discipulado e da maternidade em Maria. Em relação a Jesus Cristo, Maria, é discípula pelo fato de que ouve, guarda no coração[25] e põe em prática a Palavra e os ensinamentos do Filho. Antes de ser Mãe do Senhor, podemos assim dizer, Maria já era sua perfeita discípula. Se tornando Mãe, ela abre-se ainda mais ao plano de salvação do Pai, dando pleno e total consentimento para que n’ela se faça sua vontade[26]. E é justamente da maternidade divina de Maria de onde brotam a razão para todos os demais privilégios marianos. Sem a maternidade não faria absolutamente nenhum sentido a reflexão mariológica, mas esse fato singular é o ponto inicial para todo o pensamento mariano, pelo fato de que Maria se torna Mãe de Deus e no último instante da vida terrena de Jesus Cristo essa maternidade[27] é alargada abraçando também a nós. Assim “é preciso reter isto da Virgem: ela é toda Mãe, tota Mater, toda envolvida nessa graça, todos os privilégios se confundem neste privilégio único da maternidade espiritual” (Maria-Eugênio, 2012, p. 52).
Na Liturgia podemos encontrar a verdadeira face mariana da Igreja, visto que a Liturgia é a presentificação do Mistério Pascal do Senhor e Maria experimenta e vive completamente imersa nesse Mistério. A presença de Maria no Ano Litúrgico e consequentemente na celebração do Mistério do Senhor revela-nos aquilo que Maria por graça de Deus já é: a mulher pascal[28]. Aquela que foi, é, e permanece sendo inteiramente alcançada, tocada e abrasada pelo Mistério Pascal de Jesus Ressuscitado e que nós, pelos méritos de Cristo Jesus e pela fé um dia esperamos ser. Entretanto, no Ano Litúrgico, nunca encontraremos um “ciclo” mariano, celebrado de maneira paralela ao Senhor. Todas as celebrações marianas, antes de tudo, apontam perfeitamente para o Cristo, cumprindo deste modo, a mesma coisa que Maria fez em Caná quando disse àqueles que estavam servindo, “fazei tudo o que Ele vos disser” (Lc 2, 5).
Augusto Bergamini, enumera quatro razões teológicas para o culto litúrgico à Virgem Maria[29]. Tais razões na verdade possuem uma forte raiz cristológica, tal como vimos anteriormente, que deve ser a reflexão mariana em nossos dias. A primeira razão pontuada é que Maria é a Virgem Mãe de Deus. De fato, na maternidade divina de Maria encontramos Deus, que no Filho Jesus Cristo vem ao encontro da humanidade. O Filho de Maria é Deus e “o essencial dessa maternidade é a relação pessoal com Deus, relação que encontramos em Maria num nível único de profundidade” (Bergamini, 1994, 448-449). Desta maneira, segunda razão, Maria, está unida indissoluvelmente à obra da Salvação de Nosso Senhor. Essa ligação, de modo todo especial pode ser contemplada na Liturgia no início do Ano Litúrgico, com o advento. Neste tempo, a Igreja celebra o nascimento do Senhor e na Virgem expectante
