A GESTUALIDADE DA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

A GESTUALIDADE DA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA  

 

Pe. Ozias Xavier

Diocese de Formosa

 

O corpo como símbolo 

 

            É fundamental a compreensão de que somos criados como corpo e alma, em uma unidade substancial que dá a existência humana uma união que se inicia no momento da concepção e é interrompida com a morte, para depois ser restaurada com a ressurreição da carne. Isso tem uma consequência evidente: o corpo é a única forma pela qual a espiritualidade humana pode se expressar. A espiritualidade está no nível da relacionalidade, ou seja, é relação no sentido mais profundo da palavra. Traduz-se em interdependência e precisa de abertura para acontecer em um ambiente favorável e em uma reciprocidade fecunda. 

         O mais recente documento magisterial sobre a formação litúrgica – Desiderio Desideravi - do Papa Francisco, faz uma interessante reflexão sobre este tema. Ele parte do pressuposto de que o corpo humano é símbolo. O símbolo é uma realidade que nos coloca em relação com o que ele significa. Não somente sinaliza, mas estabelece contato direto com a realidade para a qual nos direciona. Assim, o corpo “é símbolo porque íntima união da alma e do corpo, visibilidade da alma espiritual na ordem do corpóreo” (DD, 44). A desordem na nossa relação com tudo o que é corporal, seja por uma visão materialista, seja por um espiritualismo desencarnado, nos faz desconfiar da criação e fecha inclusive o campo de visão do homem para si mesmo, pois “a nossa abertura ao transcendente, a Deus, é constitutiva: não a reconhecer leva inevitavelmente a um não conhecimento, não só de Deus mas também de nós próprios” (Idem). 

         A Liturgia é essencialmente simbólica. Através de gestos e preces, de ritos e palavras, nos coloca em contato com a transcendente realidade da celebração das núpcias do Cordeiro de Deus (cf. Ap 19), que imolado e ressuscitado nos introduz na comunhão com o Pai pelo Espírito. Assim, “ter perdido a capacidade de compreender o valor simbólico do corpo e de cada criatura faz com que a linguagem simbólica da Liturgia seja quase inacessível ao homem moderno” (Idem). O Papa propõe algumas soluções para que sejamos capazes de símbolos, os saibamos e os vivamos. A primeira é a recuperação da confiança nas relações com a criação, colocando-se diante dela com respeito e agradecimento. São Bento, em sua regra pede ao monge responsável pela administração do Mosteiro (chamado celeireiro) que “veja todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos sagrados do altar” (cap. 31). A sacralidade das coisas provém da sua relação com o Criador. Por detrás de cada coisa criada podemos entrar em contato com uma Presença. Uma outra solução é a educação para entendermos que, por trás de cada gesto existe uma atitude interior que o acompanha. Isso nos ajuda a fugir do mecanicismo que muitas vezes permeia as nossas relações humanas e, consequentemente, o gesto litúrgico. 

 

Um princípio norteador

 

         A Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Liturgia, ao tratar sobre a participação ativa dos fieis afirma que esta acontece pela vivência dos ritos e preces (cf. n. 48). Esta é a estrutura fundamental de todo gesto litúrgico. Os ritos (gestos) iluminam e dão sentido às preces (palavras) e estas, por sua vez explicam os ritos. Há uma complementariedade entre os dois, de modo que se estabelece a necessidade de um princípio que garanta a unidade dos gestos e das palavras. Este princípio pode traduzir-se com a seguinte expressão: aquele que diz a prece realiza o rito. Não há sentido algum em realizar um gesto correspondente a uma prece dita por outro, como por exemplo, estender as mãos enquanto o sacerdote realiza a consagração do pão e do vinho ou realizar uma inclinação ao nome de Jesus sem ser a pessoa que o pronuncia na oração litúrgica. 

 

Os principais gestos e posturas da Missa

 

         Aqui não pretendemos exaurir a variedade de gestos presentes na Eucaristia, bem como os momentos específicos em que cada um se localiza, mas apenas apresentar de maneira geral a gestualidade própria da celebração, bem como sua simbologia no contexto da celebração. 

 

1)   Caminhar: uma das categorias que o Concílio estabeleceu para caracterizar a Igreja é a de “Povo de Deus” (cf. Lumen Gentium, cap. II). Este povo está a caminho, pois “a Igreja peregrina neste mundo é o povo de Deus disperso por toda a terra” (atribuído a S. Agostinho). O caminhar litúrgico não é uma marcha militar nem um passeio disperso, mas a expressão de um povo que caminha rumo a uma meta. É um caminhar processional (do latim procederepro-para frente, cedere-caminhar, ir). A cadência dos passos deve acompanhar a esperança de um coração que está em busca do encontro com Deus. Assim, toda caminhada litúrgica, seja do presidente seja dos ministros é expressão da caminhada de todo o Povo de Deus em direção ao Senhor. 

2)   Estar de pé: é a posição do Ressuscitado, da prontidão e da firmeza. Em Ne 8,5 o povo fica de pé para escutar a proclamação da Palavra de Deus. Em Mc 11, 25 é a posição do orante. Em At 7, 55-56, o protomártir Estevão vê Jesus “de pé, à direita de Deus”. Na Parusia será a posição dos que ressuscitaram para a salvação (cf. Lc 21, 28). No Apocalipse, o Cordeiro de Deus está “de pé, como que imolado” (Ap 5, 6). Ele tem diante de si uma multidão incontável que também está de pé com túnicas brancas e palmas na mão (símbolo da vitória) (Ap 7, 10). Sabemos que a Eucaristia é a renovação do Mistério Pascal, onde anunciamos a morte e também a ressurreição de Jesus, bem como sua “ascensão ao céu, enquanto esperamos sua nova vinda” (Oração Eucarística III). Estar em pé diante de Deus manifesta a nossa configuração à Páscoa de seu Filho, de quem nos tornamos membros pelo Batismo. É também interessante notar que é a postura da Virgem dolorosa diante de Jesus crucificado (Jo 19, 25). Estar presente no sacrifício de Jesus não retirou de Maria sua consciência de participar do Mistério, de modo que não foi levada pelo sentimento da ocasião, mas pela grandeza do que Jesus lhe pedia: “Vejo a Mãe de pé junto à cruz; não leio que chorasse” (Santo Ambrósio, Expositio in Lucam X, 132).

3)   Estar sentado:  é a posição mais cômoda para ouvir, como Maria de Betânia que, “sentada aos pés do Senhor, ouvia sua palavra” (Lc 10, 34). É também a posição do mestre que ensina. As culturas antigas sempre viam também nesta posição a do mestre que ensina com autoridade e do juiz que julga e sentencia. Os rabinos judeus ensinavam sentados como quem transmite um ensinamento de autoridade. Jesus por diversas vezes senta-se para ensinar (cf. Mt 5, 1; Mt 13, 1-2 e Lc 4, 20). É curioso a ambiguidade e, ao mesmo tempo, a complementariedade do gesto: sentado se aprende, sentado se ensina. Existe no espaço litúrgico um polo que exprime fisicamente esta dinâmica necessária: a cadeira do presidente da celebração (sede para o presbítero e cátedra para o bispo). Ali ele se senta, como primeiro ouvinte para escutar a palavra de Deus e dali também pode ensinar na pessoa de Cristo Mestre e Cabeça da Igreja. Estar sentado na celebração da Eucaristia deve ser expressão da dinâmica de prontidão para aprender, mas também para colocar em prática. A comodidade dos móveis litúrgicos dispostos para tal não deve ser demasiada a ponto de induzir a um relaxamento tal que anule a disposição corporal para entrar no espírito da celebração. 

4)   Fazer silêncio: “A palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silencio e pura audição. Mas, nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. (...) Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto. (...) Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério” (Adélia Prado). Estas palavras são expressão poética de uma necessidade vital para a celebração litúrgica: o silêncio. Sem ele não há vivência do Mistério celebrado. A cultura barulhenta na qual vivemos nos retirou a importância e até mesmo a necessidade de silenciar, fazendo com que ele se torne uma ameaça ao invés de uma oportunidade. O silêncio litúrgico, colocado no lugar certo e feito no tempo oportuno pode ser a abertura necessária para a germinação do que se plantou pela proclamação da palavra lida, rezada e cantada. 

5)   Ajoelhar-se: é a postura do pedinte e do adorador que reza. Quem se ajoelha se coloca em posição inferior, reconhecendo sua pequenez e, ao mesmo tempo, sua contingência. Como o leproso (cf Mc 1, 40), suplicamos a Deus a nossa cura e como Salomão (cf. 2Cr 6, 13) adoramos a Deus no seu templo sagrado. A genuflexão é uma derivação desta atitude de quem se coloca como criatura diante do criador e pequeno diante do Mistério. 

 

Um povo que celebra 

 

         Realizar um gesto simbólico na liturgia não é simples mecanicismo, muito menos criatividade desregulada. A consciência de quem somos e de quem Deus é, bem como do Mistério que celebramos é a melhor medida para o gesto litúrgico, que deve brilhar mais pela sua “nobre simplicidade” (cf. SC,34) do que pela exuberância de sua execução. 

         Por último, vale lembrar que a assembleia celebrante é expressão da unidade do corpo de Cristo, como afirma São Paulo: “fomos batizados num só Espírito, para formarmos um só corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (cf. 1Cor 12, 13). É a comunidade que celebra, o “nós” que dá lugar ao “eu”. 

         Assim “a posição do comum do corpo, que todos os participantes devem observar é sinal da unidade dos membros da comunidade cristã, reunidos para a sagrada liturgia, pois exprime e estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes” (IGMR, 42). A Liturgia celebrada, sobretudo na Eucaristia, torna-se então o lugar privilegiado para que nos configuremos a Cristo, tendo em nós seus sentimentos (cf. Fl 2,5).

 
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